quinta-feira, 23 de março de 2017

O PERDÃO




(...)HÁ UMA CERTO SABOR A MALDADE QUE INSTRUÍDA POR NÓS MESMOS, FAZ COM QUE POSSAMOS CONSTRUIR GAVETAS INTERIORES RECHEADAS DE MÁGOAS E LEMBRANÇAS, QUE EFETIVEM A NOSSA DOR EM CADA CANTO E RECANTO, EM CADA FACE QUE VEMOS, EM CADA ESQUINA QUE DOBRAMOS.(...)

(...)FINGIMOS QUE ANDAMOS PARA A FRENTE. FINGIMOS QUE SORRIMOS, FINGIMOS QUE MUDAMOS. FINGIMOS QUE TUDO FINALMENTE ESTÁ DIFERENTE. FINGIMOS QUE VIVEMOS E ESQUECEMOS ASSIM…QUEM SOMOS. (...)
O PERDÃO
O perdão sempre foi e sempre será, um ato de enorme coragem perante adversidades que possam surgir em algum momento na nossa vida. Perdoar um pai, mãe, amiga, namorada, mulher, um chefe, um colega ou até um simples conhecido requer uma destreza emocional fortificada e desbloqueada de sensações de ódios ou raivas.
Perdoar nunca foi e nunca será fácil. Fácil é desculpabilizar aqui e ali meros acontecimentos que não deixem mágoas ou feridas abertas. O perdão é muito mais denso, muito mais negro, muito mais complicado e carrega em si a presunção muitas vezes de ser uma eterna vitima.
O problema do perdão reside no fato de nos consumirmos de todas as dores, de todos os porquês de inviabilizar a cura para um estado emocional e novos caminhos que nos façam voltar a sentir a vivacidade que possamos ter perdido.
Não é fácil. Seja através de consultas em psicólogos, seja através de yoga, seja através da fé, da construção de ideias positivas, de nos cercarmos de amigos que nos permitam poder andar para a frente com um sorriso que não seja amarelado…a lembrança do mal é o estado de espirito eterno que cospe fogo em todos os momentos e movimentos.
É preciso coragem para perdoar muitas vezes o que deduzimos como imperdoável. É preciso humildade para perceber, que ao fornecer o perdão, estamos a reconhecermo-nos também como seres errantes e deficitários que somos em tantos momentos.
Mas este é um reconhecimento meramente casual, passageiro e desnecessário aos nossos olhos. Somos altamente moralistas e justiceiros no que toca ao que fazemos, sentimos, damos, angariamos, lutamos e consagramos. Quando de contrário o mesmo não acontece e somos invadidos pela espada da injustiça, clamamos pelo porquê? Porquê eu, que tanto fiz? Porquê eu que mostrei o melhor de mim, dei o melhor de mim e tive o pior de ti? Como se equilibra o estado de espírito?
Como se equilibra a balança entre o que eu sou e o que o outro me possa ter tirado? Quem é o vencedor nesta luta? Quem enche a barriga e quem fica de barriga vazia? Quem sorri mais e quem verte lágrimas, por não ter conseguido acompanhar o sorriso? Quem é o causador, fornecedor, angariador de uma felicidade para si, em detrimento do outro?
A injustiça é a chave fulcral de todo o desenvolvimento emocional que leva à raiva, ao ódio, ao desprezo e ao sentido que damos ao tipo de justiça que não sendo feito por altas patentes do divino, possa ser feita então por nós. Porque nos achamos no direito de não ser espezinhados, destruídos, sacrificados para a ostentação da liberdade e sorrisos de outros. Por isso nos insurgimos, por isso cativamos a dor, aumentamos o volume da lembrança, para que ela se faça presente. Não perdoar é clamar ao sofrimento é dizer não ao esquecimento.
Há uma certo sabor a maldade que instruída por nós mesmos faz com que possamos construir gavetas interiores recheadas de mágoas e lembranças que efetivem a nossa dor em cada canto e recanto, em cada face que vemos, em cada esquina que dobramos.
A dificuldade do perdão prende-se com a ideia de que não somos merecedores, mas acima de tudo, por nos capacitarmos de uma verdade que nos assegura a nossa conclusão: Somos melhores.
Mas é exatamente no fomos melhores e somos melhores que falhamos. Porque constatamos a falha do outro, mas não efetivamos a melhoria em nós. O ato de negar o perdão é a destituição do próprio valor emocional que nos incapacita, que nos cega, que nos bloqueia.
Fingimos que andamos para a frente. Fingimos que sorrimos, fingimos que mudamos. Fingimos que tudo finalmente está diferente. Fingimos que vivemos. E esquecemos assim...quem somos.
Validar o perdão como forma de andar para a frente é deixar as gavetas vazias. Há um sadomasoquismo com sabor a injustiça que teimamos em manter nas nossas lutas interiores. Muitas vezes aqueles que se foram, aqueles que outrora te deixaram recheado de dores e feridas, vivem ainda em constante luta interior contigo. Porque tu teimas em deixar essas mesmas gavetas recheadas de lembranças.
Não existe cura para o esquecimento. Não existe uma cura específica, um passo de mágica para te retirar as dores ou feridas. O esquecimento ausenta-se de vez em vez, mas a lembrança ativa as tuas gavetas.
Não é o perdão que clama por mudança. É a mudança que necessita do teu perdão

sábado, 11 de fevereiro de 2017

NOS ANDARES DO "EU"...VIVEMOS TODOS "NÓS"



(...)Chegar a casa, colocar a chave na porta e perceber a efémera alegria, que advém desse silêncio que percorrem todos os cantos da casa, é algo sublime e de uma falsa paz que se instala. Até ao momento, que na cama em que te deitas, enrolado em ti mesmo, confessas em silêncio a tremenda mentira que ninguém ouve, a tristeza que ninguém vê e as frases que soltas que ninguém atinge.(...)
(...)Lembras-te? Pois se ainda te lembras….recorda!Não eras apenas tu! Nunca foste apenas tu. Enfim…recorda, para que na memória de uma solidão atroz…percebas…afinal…sempre fomos nós…(...)

É uma utopia a consideração que temos, pelo ato que carrega a ideia de que: “Estamos bem é sozinhos!” ou “Estamos bem é solteiros!”. Chegar a casa, colocar a chave na porta e perceber a efémera alegria que advém desse silêncio, que percorrem todos os cantos da casa, é algo sublime de uma falsa paz que se instala. Até ao momento, que na cama em que te deitas, enrolado em ti mesmo, confessas no silêncio a tremenda mentira que ninguém ouve, a tristeza que ninguém vê e as frases que soltas que ninguém atinge.
Ganhamos a coragem de produzir neste efeito que carregamos de consideração, por nós mesmos a fútil premissa, de que sozinhos conseguiremos! Conseguiremos pela força da ideia, pela força da razão ou teimosia. Conseguiremos pelas feridas, pelo sofrimento, pelas lutas que tivemos, pelo que ganhamos e até, pelo que perdemos. Conseguiremos pela consagração da própria frustração, que habilmente transformamos a nosso favor, como uma força de energia que nos cega de inverdades e presunções, de que nada precisamos, que ninguém queremos.
É o sentido máximo de proteção que nos acompanha desde a saída do útero da nossa mãe, que nos transforma ainda em crianças desejosas de segurança. Desejosas por um abraço, por uma companhia, por alguém que se faça ouvir e nos possa sentir. Que demagogia desinteressante, inconstante, de demência tal, subentender-se que sozinhos tudo conseguimos, tudo alcançamos, tudo podemos!
A velha máxima da suposta autodeterminação solitária, reafirmada pelos gurus como expoente máximo da consagração da vida! Recordo-te na lembrança do nós, pela manutenção da vida. E esqueço-me do eu pela presunção, que não desejo ter, de que vivo na inverdade, sem a memória do “nós”.
Lembras-te? Do andares em que viveste? Das campainhas que tocaste? Das vezes que o eu foi trocado pelo nós? O que é o eu sem um abraço dado? O que foi o eu sem a quantidade de toques, de sorrisos, de almas, de vozes, de esperanças, de memórias, de melodias? Lembras-te? Da necessidade dum beijo? Da busca por um amigo? Do reencontro de um sorriso? Lembras-te do eu sem nós? Como te poderias lembrar se nunca na realidade viveste de ti? Lembras-te da turbulência sentida nas paixões? Como te poderias lembras da unicidade quando te perdias na pluralidade? Dos amores tidos, vividos, perdidos? Lembras-te? O que é o eu…sem nós?
Lembras-te do toque? Da forma que contemplavas na complementaridade? Do sentido que se dava à vida? Do barco carregado de sonhos? Dos desejos? Das esperanças? Lembras-te? Lembras-te do “eu” ou do “nós”? Lembras-te do que te fazia correr? Por quem tu lutavas? Porque quem, prazerosamente ajudavas? Por quem, em noites frias escolhia estar ao teu lado? Lembras-te do telefone tocar? Da voz que se ouvia e que nada se omitia? Lembras-te das mentiras tidas? Das traições geradas, mantidas? Das falsas companhias? Das lágrimas que por outros verteste? Lembras-te do eu…ou do nós?
Lembras-te das palavras de uma mãe? De um afago de um pai? Lembras-te dos andares com vida, recheados de tempo dado, consentido, desejado, pernoitado, oferecido? Lembras-te do caminho efetuado? Das mãos que te seguraram, das vozes que se alarmaram, das trompetes que tocaram à tua passagem? Das vidas que se perderam? Dos conselhos que ficaram? E aqueles? Aqueles que sobraram? Lembras-te? Lembras-te do “eu” ou de “nós”?
Lembras-te desses andares deduzidos como melodias tidas, de vidas feitas, de emoções desfeitas, de frases contidas? Esses andares que cantam vida, que produzem histórias, que refletem ideias, que ecoam romances?
Lembras-te? Pois se ainda te lembras….recorda! Não eras apenas tu! Nunca foste apenas tu. Enfim…recorda, para que na memória de uma solidão atroz…percebas…afinal…sempre fomos nós…

TERRA DO NUNCA







(...) E QUE NESTA NOSSA VIAGEM EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA, POR IMAGENS, MEMÓRIAS SONHADAS EM SEREM NAVEGADAS, CONQUISTADAS, QUE ENTREM POR BEM, OS SONHADORES, OS CONQUISTADORES, OS VISIONÁRIOS, OS SEDENTOS DE AMOR, OS DESCLASSIFICADOS, OS ABANDONADOS, OS ULTRAJADOS, OS HUMILHADOS, OS DESCONECTADOS DA VIDA. (...)
Andamos sempre em busca de algo. O trabalho que sempre sonhamos. A casa que nunca tivemos. O carro que mais desejamos. Os amores que tardiamente ousam em não aparecer. Andamos em busca de companhia. Companhia na arte de escutar. Companhia na arte de nos saber ler.Companhia na arte de dar e saber receber. Andamos em busca dos desejos que tivemos e não alcançamos. Dos objectivos perdidos, das melodias de vida que outrora sonhamos e ainda requeremos. Andamos em busca da fada madrinha, da vida tantas vezes perdida, que a nossa sombra essa infeliz, consequência de companhia maldizente, nos teima em retirar, dos caminhos dos sonhos que tivemos.
Andamos em busca das diferenças, que compensem as fraquezas, que vibrem nos sorrisos, que acudam nas tempestades, que te aconcheguem num abraço de vida e se despeçam com nobreza e orgulho na morte. É uma caminho incessante em busca da terra do nunca. Do nunca, esse, que sonhamos que chegará sempre.
Do nunca que ousamos persistir não existir, pela esperança que carregamos. Do nunca entendido como vida, como forma que carregamos ainda na ideia de que nada afinal é ainda tudo. E que nesta nossa viagem em busca da terra do nunca, por imagens, memórias sonhadas em serem navegadas, conquistadas, que entrem por bem, os sonhadores, os conquistadores, os visionários, os sedentos de amor, os desclassificados, os abandonados, os ultrajados, os humilhados, os desconectados da vida. Entrem por bem, pois no barco da terra do nunca o caminho marcado tem o nome de terra de esperança.

VIDAS DESAJUSTADAS



(...)VIDAS VIVIDAS, DESAJUSTADAS. VIDAS VIVIDAS AINDA DO DESEJO DE SER, DA IDEIA DE TER O QUE A JUSTIÇA REQUER E TARDA EM APARECER. ESTA IMAGEM DE SER, O QUE NUNCA QUIS SER, REFLETE-SE NUM MUNDO SONHADO, NESSE OLHAR SUBLIME, DE QUE A MORTE REALMENTE SENTIDA…É A IMAGEM DA VIDA MANTIDA.(...)

Vidas existem que pelas circunstâncias validadas, sem terem sido alguma vez pedidas e que forçosamente tidas como acreditadas pela força da ilusão, se privaram da liberdade e consequentemente da ideia, que aos poucos cai por terra, de um tempo que ainda dê tempo a uma altura do dia em que a vida enfim…sorria.
São vidas sufocadas pela acreditação de outrora de um compromisso tido como abençoado. A bênção tida, desejada, numa verdade de vida recheada de alegria, esbate-se com o tempo na imagem da amargura, da falha na liberdade e num novo nascer que se valida pelo acordar para o vislumbre de um intenso pesadelo.
O amor tido como capacitado, trabalhado, nutrido, desejado na imagem de um sonho sonhado, perde-se na falha intensa dessa mentira criada. Vidas aprisionadas, privadas de liberdade, jamais resgatadas. Vidas aprisionadas pelas circunstâncias financeiras, pelo receio de mudanças timidamente ainda sonhadas. A nutrição desse amor em tempos desejada com intensidade, perde-se na sistemática proliferação de dissabores, memórias vividas em cenários de vidas de horrores.
Vidas que passam, que se perdem e se esquecem por entre sorrisos de felicidade alheia. Porque não eu? Porque não nós? Vidas falhas de preenchimento de dias vazios, de noites perdidas, de desgraças sentidas, em faces esquecidas. Vidas que passam a vidas distantes, a memórias de conquistas perdida. Vidas desconhecidas, não desejadas, mal amadas e para sempre marcadas.
Vidas vividas, desajustadas. Vidas vividas ainda do desejo de ser, da ideia de ter o que a justiça requer e tarda em aparecer. Esta imagem de ser, o que nunca quis ser, reflete-se num mundo sonhado, nesse olhar sublime de que a morte realmente sentida…é a imagem da vida mantida. E o desejo de um sopro de vida que se quer alterada. E ainda que morta em mim, que morta em nós, será sempre sonhada.
Ainda que o sonho, não seja por mim, ainda que não seja por eles…por Deus…que esse sonho de vida...viva para sempre em ti e que o deixes sem mágoa...morrer em mim.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

TEMPO DE IR

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Na consequência desta intensa insatisfação humana que se agrega ao estatuto de nos reiterarmos como sonhadores de uma longa e eterna vida, eis que chegará o momento. Não se macem com a ideia e comoção, que reflete a consequência natural da perda. Ela é a linha definidora, também da existência da vida. Urge entender que não dá, para ficarmos muito tempo. Temos um prazo de validade. E esse prazo é a consequência desta finitude da vida. De uma educação que termina para nós e que se fecha liminarmente, para dar lugar a quem se aproxime. Exatamente, com o mesmo olhar de descoberta que tínhamos no inicio. Quem somos? O que somos? O que fazer? Como fazer?

É a hora de outro portanto, se tornar o aluno da vida. Das alegrias que vai encontrar, dos objetivos que vai tentar alcançar, das tristezas com as quais se irá deparar. Com as dúvidas, as certezas e as incertezas. Ele não nasce preparado. Ele será preparado. Ele não nasce ensinado. Ele será ensinado. O relógio da vida não pára para chorar por ti. Ele é imortal, imortaliza-se, alimenta-se de todas as tuas memórias e esquece-se de todos os teus feitos. Não te granjeia com os louros que deduzes merecer pelos feitos de vida. O tempo não tem tempo de te imortalizar no tempo. O tempo não é feito de pó, é imortal e tantas vezes imoral e tão casual...
E há um momento de ir, assim como tempos os houve...de vir e ficar. E nesta vinda tão rápida feita de apresentações apressadas à vida, lá vamos nós sem saber muito bem o que foi feito de nós. O que se aprendeu, quem se amou, como se amou? Quem ficou para trás e quem se perdeu na angústia de não ter pedido um perdão? Quem se encontrou e jamais se esqueceu? O que se fez de nós? E o que fizemos dos outros? Este tempo de ir, estas portas que se fecham, estes amores idos, jamais reconquistados, estes amores vividos e jamais percebidos. Estas vidas jamais reconhecidas, plenas de terem sido vividas. Estas tristezas jamais apagadas. Estas ilusões feitas de profundas feridas e mágoas. Estas alegrias que não mais poderão ser vivenciadas. Este nós de mim e este eu de vós. Estas pegadas que se perdem e se apagam. Estes abraços tão sentidos, estas imagens tão vividas...

Eis que chegará o tempo de ir. De ir e não vir. De ir sem poder ficar. É uma volta que não tem volta. Um ciclo que se fecha, uma luz que se apaga, um resumo de tempo que se agrega a um livro chamado vida...

Eis que me irei por fim. E eis que me irei sem ti. Irei apenas por mim. E neste caminho onde não reconheço a idade do fim, que o tempo me deixe dizer: Ainda que não me possa lembrar mais de ti...jamais te esqueças de mim...





terça-feira, 3 de janeiro de 2017

VIDAS...




(...)Conheço os homens, os traídos vingativos, destituídos de um ente querido chamado "sensibilidade". Que se fazem de fortes e destemidos! Destruidores de corações e que vivem da arte da sublime eloquência de lábios trabalhados na mentira. Moram em castelos de areia, sedutores de palavra baratas e sem sentido. Que não passam senão, de ilusões de cópias fictícias de Dom Quixote de La Mancha.(...)

Nestes recantos tecnológicos vamos encetando, travando conhecimento e desbravando caminhos para novas amizades, conhecimentos, percepção também do quanto às vezes somos confrontados com as inúmeras caras, faces da vida. De vidas diferentes, de olhares distintos, de pequenos abraços e de eternas despedidas. Uns vão, outros ficam. O que se eterniza...são as memórias...de vidas...de partilhas. De vidas vividas...
Conheço a mãe que perdeu o filho e todos os dias no leito da sua cama chora convulsivamente há anos por algo que lhe era tão precioso.
Conheço a mulher que foi traída, mais do que uma vez pelo seu marido e por suposto amor ao casamento, se submete entregue à ideia de que o que: “O que Deus faz…jamais poderá desfazer”.
Conheço o rapaz que perdeu os pais cedo, criado pela avó, que meses depois morre. Dado a uma instituição, lidou com drogas, pequenos furtos e hoje é licenciado e trabalha numa instituição de renome.
Conheço as casadas e as mal casadas. As amadas e mal amadas. As solteiras capacitadas, inteligentes e as desnorteadas que se perdem em loopings de relações, procurando pensos rápidos para as suas feridas em cada canto e recanto dizendo que “Por fim, vivo”.
Conheço as lutadoras e os lutadores, as guerreiras e os guerreiros. Conheço os que nasceram com a bunda virada para a lua e os quais, se dão ao luxo de opinar sobre as incongruências da vida e as suas causas. Sabedores astutos que através de estudo profundo da alma humana, expressam da sua sabedoria…de mercado de rua.
Conheço os descuidados com o próximo, os facilitadores de egoísmo. Os desconectados da sensibilidade da vida, as sanguessugas que vivem das migalhas de vida alheia. Conheço os guerreiros da maldade, os maldizentes, que não podem ousar ver-te bem, que correm em prantos de infelicidade, na tentativa de te desligar do mundo da tua felicidade.
Conheço os trompetistas. Os que se padecem da tua desgraça, que aumentam o seu volume numa arte sublime, de te estender a mão para te ajudar e que se deleitam em tocar as melodias nas trompetes de um reino sem trono. Fazendo da arte da ajuda, uma empresa de Marketing de sucesso, de forma a ganharem os pontos necessários, para os ecos vazios de vozes no céu.
Conheço os homens, os traídos vingativos, destituídos de um ente querido chamado "sensibilidade". Que se fazem de fortes e destemidos! Destruidores de corações e que vivem da arte da sublime eloquência de lábios trabalhados na mentira. Moram em castelos de areia, sedutores de palavra baratas e sem sentido. Que não passam senão, de ilusões de cópias fictícias de Dom Quixote de La Mancha.
Conheço os revolucionários e revolucionárias em todas estas histórias, umas mais do que outras, as que se foram e as que ficram. O que não tiveram medo, os que massacrados foram e massacrados se levantaram. Os que choraram e caminharam, os que se perderão e se encontraram. Os incapacitados que renasceram capacitados. Os medrosos que viraram corajosos.
Os que disseram sim à vida, sim à luta, sim à sua realização profissional, sim aos novos amores, sim à esperança de que a visão, de um sol que nasça para todos e que seja de todos é sempre possível! O sim que define um caminho, novas estruturas, redesenha a vida, altera os conceitos, aproxima-se do seu estado humano, capacitando assim a sua estrutura com mais base, sociável, definida, sólida, agregada à ideia de que o que fui ontem…jamais serei amanhã! Porque há vida que se quer vivida na arte desta vida…
E quem deixa de viver com essa arte, ficará de parte dessa vida. Que enfim…tu sabes...essa vida....que se quer vivida.

domingo, 1 de janeiro de 2017

UM DIA VOU SER FELIZ?


Um dia eu vou ser feliz! Quantas vezes não proferiste para ti mesmo esta afirmação? Quantas vezes na penumbra do teu ser, num momento de divagação onde a constatação de uma realidade que desejas para ti tarda em aparecer, não a proferiste? Um dia eu vou ser feliz!! Um dia chegarei lá! Um dia as lágrimas que verto irão parar por certo! Um dia conseguirei realizar as façanhas que tanto almejo? Um dia vou ser feliz…


Há uma frase do Mário Quintana aquando da pergunta do porquê de ser solteiro e de nunca ter casado, ao que ele respondia: “Sempre preferi deixar dezenas de mulheres esperançosas que apenas uma desiludida!”

Isto remete-nos ao fato de que a felicidade do hoje se diferencia da felicidade do amanhã num único aspeto. O momento.

E é de momentos que o sabor da felicidade te enche com o prazeroso sentido daquilo que és, do que conquistas, do que entendes sentir no exato momento que recebes.

Seres dependente da felicidade não é a tradução de nenhuma conquista, porque ela não o foi e não sabes se virá. Dependência cria vicio. Em contrapartida o prazer de sentires, de saboreares a conquista do teu desejo, seja ela qual for, é sentida de uma forma absolutamente original, desnuda e realista. Um dia vou ser feliz, remete-te para uma condição de absoluta incerteza em ti mesmo. E logo, para a angústia da possibilidade de não o seres.

É o momento que cria a tua felicidade. Podes beber 2 litros de água por dia. Mas isso não se traduz em felicidade no que toca em matar a tua suposta sede. Ao invés, se tiveres realmente sede e beberes um copo de água, percebes como te sentes plenamente saciado, exatamente por aquele momento te ter fornecido o que realmente precisavas.
Eu entendo o conceito que tantas vezes e em tantos momentos, em que olhamos com olhos de ver as tragédias que se abatem sobre nós, as desgraças que se abatem sobre outros e reafirmamos como um juramento a necessidade que existe, que daqui em diante essa possibilidade de ser feliz, nos traga outro tipo de vida e nos abençoe como nós o desejamos.

Mas essa matriz que tantas vezes é irrisória, vazia e incerta, carrega consigo apenas o vislumbre de algo que ansiamos. De volta para nós e ainda com o desejo de que essa felicidade se torne realidade há dois fatores em comum que exigem de nós a consumação desse mesmo desejo. A atitude e a esperança. A esperança que tenho em ser feliz e a atitude que marco em solidariedade com a mesma, de forma a que as duas caminhem em conjunto.

Esta ideologia de “Um dia serei feliz”  mortifica-se tantas vezes apenas na ideia. É uma esperança mortificada, uma atitude vegetativa e de costas voltadas de uma para a outra e sem necessidade uma da outra. É a ideologia esperançosa de uma guerra vazia, de conceito sem armas. 

A ideia de seres feliz agrega o que fazes com o teu momento, os teus momentos, de que forma bebes e recebes todas as pequenas benções que vais tendo no teu percurso. Um dia vou ser feliz não se compadece com o passado ou futuro. Já o foste e hoje não és? Já o desejaste e já o foste? Olhando para trás percebes que os sorrisos outrora tidos e mantidos na tua memória são a consequência dos momentos que tiveste.

Quem está preso para sempre não se pode dar ao luxo de dizer: “ Um dia vou ser feliz”. Ainda assim…se receber visitas, esse momento traduz-se no dia da felicidade do mesmo. Aquele momento em que perpetuas o momento.

E quanto a ti? Queres perder-te na ideia de que um dia serás feliz? Ou preferes perder-te na esperança de que hoje é o dia…para seres feliz?