Robotização do Amor.




Actualmente, o amor é mais dominado pela racionalidade. O amor já não provoca escravidão como antes da época do Romantismo. O sofrimento é mais limitado nas suas consequências e, não amar para toda a vida já não constitui um drama para a maioria das pessoas. O amor romântico, por exemplo, ainda que procurado por muitas pessoas, não passa agora de um mito. «A paixão de hoje é mercadoria de consumo. Não tem nada a ver com o destino, com os riscos, com o enfrentamento» - escreveu Renato Ribeiro, professor titular de ética e filosofia política.

O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. 

Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios.Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.  (Miguerl Esteves Cardoso).

Essencialmente (e agora escrevo eu) este amor apressado que cada vez mais vai existindo e coexistindo numa pressa de chegar à meta, tão ou mais feliz que o outro, tornou a desvalorização do amor numa perfeita mercadoria de um cristal riscado e perdido  de mão para mão. De comprador para comprador. O amor tornou-se tão transformado e abusado que de tão puro em lealdade, fidelidade, companheirismo, cuidado, perseverança, química, enlace e tantos outros transformou-se em perdido e usado. E ninguém na verdade sabe o que fazer com ele, Porque não sabe a importância que ele realmente tem na sua verdadeira concepção e idealização. O amor hoje acaba por estar prostituído e desacreditado. 

E de mão em mão, voa e anda ele.


Comentários

Claudia Dias disse…
Hoje em dia, tudo - incluindo o amor - é quase que descartável (ou tratado como tal por muitos). Acho que descartável é a palavra chave...infelizmente!
Claudia Dias disse…
P.S. Adoro a imagem!
Bruno Fernandes disse…
Achei essa imagem o máximo também! Thanks Cláudia!

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