quinta-feira, 16 de abril de 2015

A PROFUNDA ADMIRAÇÃO PELA INGRATIDÃO







-Camilo Castelo Branco-

Quantos de nós em tantas situações não nos deparamos pelo miserável lado humano da ostentação do ego, frieza, esperteza alheia, que à custa dos sabores alheios perpetuamos para nós o doce sabor degustado e saboreado da melhor forma?

Quantos de nós pelas nossas qualidades, formas de ser e estar, pelo afago, pela paciência, pelo amor, por um abraço ou beijo, pela visão e concepção de dar e receber, não sentimos na pela a inoperância e intolerância que directamente ou indirectamente o outro tem para nós? 

Quem de nós não é traído por filhos, pais, amigos, romances, atitudes, palavras? Que preço alto terá que pagar o traído assim como o traidor? Que concepção e visão tem cada um? O que nos leva ou leva outros a perpetuar actos de traições perante amigos, amores, filhos, pais? O que leva à mentira, às omissões, às fraquezas? A escolhas? A decepções? A encontros de alegria? Tristezas? Quem te humilha? Quem humilhas? 


Já ouvi, já li diversos tipos de concepção para mentiras, omissões, jogos de poder, sedução, enganação, diabruras da mente, explicações plausíveis e não plausíveis da condição humana, bem como dos seus porquês. Para tudo quer-me parecer que há um determinado tipo de desculpa. Não há culpados, a culpa é da Acção Versus Reacção. 

Quer -me parecer acima de tudo que existe uma certa falta de honradez e dignidade humana na perpetuação da nossa imperfeição e o descuido com o outro gera sempre tudo e mais alguma coisa, menos o vergonhoso comportamento que tantas vezes temos perante quem amamos e nos ama. Desculpas, ideias, percepção de um a luta de titãs na busca das respostas para "O que eu fiz e o que tu me fizes- te fazer!"  Quer-me parecer...não quer dizer que em absoluto seja o que eu deduza ou ache.

Existe porém a idealização do que temos para nós de amor e conceitos daquilo que achamos que para nós, nos poderá assentar que nem uma luva. Deduções, escolhas, apontar do dedo, práticas de malvadez uns com os outros. Eu costumo dizer que "Não existe assassino mais frio e cruel do que a insensibilidade humana para a prática da traição e humilhação inerente ao outro". Quando tu matas alguém...matas e pronto. As traições, os enredos, a brincadeira de sentimentos é a morte mais drástica e lenta do ser humano. 

Numa conversa com um amigo...

-Quantos namoros já tiveste?
-Alguns...
-E desses namoros quantas vezes te perdeste apaixonado deduzindo que era a tal?
-Praticamente todos.
-Então....o que mudou no teu conceito?
-O tempo, as pessoas...a minha percepção.
-Consideras então que a culpa é dos outros nessa tua descoberta?
-Não necessariamente...
-Hummmm....já traíste?
-Já...mas foi porque...
-Lá vem vocês com a famosa " Foi porque..."
-E já te traíram?
- Sim, já! E gostei!
-Hã?? Gostas-te!?? Como assim!?
-Imagina que estás a comer uma sopa que gostas, mas nessa mesma sopa tem um ou outro condimento que não gostas, não aprecias. Mas está tudo misturado com a sopa e tu aceitas de certa forma isso. E fazes isso como experiência, podes não vir a gostar mais desse momento, mas engoles e saboreias, mesmo que te saiba mal. 
-Essa analogia tem o seu quanto de...sadomasoquismo não? lol
-Não...ou talvez sim. Repara amigo imaginário, eu tenho uma profunda admiração pelo sofrimento. 
-Admiração pelo sofrimento? Nós queremos é fugir a sete pés dele!!!
-Para quê? Com que intuito?
-De ser feliz....
-E podes dizer que todos os felizes não sofrem?
-Não...mas...sofrem bem menos concerteza do que aquele que é infeliz e consequentemente sofre muito mais.
-Pode até ser...pode até ser...mas...está mais bem preparado um infeliz para um sofrimento do que o feliz propriamente dito. 
-Isso não é verdade!
-Não? Experimenta meter um feliz da vida à fome ou perdido numa ilha e vais ver que no manual de sobrevivência o terror dele para esse momento será atroz. Coloca um infeliz que se depara com o sofrimento vezes sem conta e vais ver como ele  se salva e controla a situação. Por isso tenho uma profunda admiração pelo sofrimento. Porque ele acima de tudo transforma e ensina.
-Tu és maluco....
-Meu amigo...as pessoas fogem daquilo que para elas as mesmas consideram inútil para a sua vida.
-Fogem do que?
-Fogem da precariedade, fogem da pobreza, fogem daquilo que acham que para elas\eles é um atentado a ser o que são e consequentemente às conquistas que tiveram. Achas que as pessoas são como os caranguejos?
-Não...mas...não estão elas no direito delas? E o que isso tem a ver com traições?
-Ainda não percebes te o ponto essencial pois não?
-Sei lá...pareces o Dalai Lama a falar...analogias...e tal...
-Não digo nada demais. Repara...sabes porque traímos?
-Por desejos não? Vontades...somos humanos...
-Olha...para começar mete essa do "Somos Humanos" na peida! Cansado de escutar desculpas esfarrapadas. Agora se fosse robô iria dizer: "Pois...somos robôs...não somos humanos..." Se não é uma coisa é outra! Traímos porque simplesmente queremos um "motor" melhor. Simples. 
-Então...o motor melhor dá-nos o direito de trair e desculpabilizarmos-nos?
-Desculpas são apenas consequência de inversão de valores que pensamos ter e não temos. E sabes porque as pessoas se desculpam?
-Porque tem concerteza álibis interiores....
-Desculpam-se pelo erro, por ver o outro triste, machucado.
-Pronto...então tudo acaba em bem nas traições, quando se é desculpado ou perdoado?
-Maioritariamente acaba sempre mal. Perde-se o essencial. Confiança. Depende sempre da situação, mas trair um amigo, uma relação...é um erro sim e sem dúvida, mas acima de tudo é uma escolha. Tu escolhes, tu defines, tu produzes, realizas e proporcionas todo um enredo na tua cabeça. E vives isso tão intensamente que te esqueces da existência dos outros no teu filme. O outro até pode ser um filha da puta, mas somos tão vingativos e assertivos quando queremos, que nos utilizamos tantas vezes de várias facetas  e  formas de pagar na mesma moeda. Não somos muito diferentes uns dos outros nessa conclusão. Há casos e casos. Tens casos que fazes de tudo e mesmo assim levas com um par de chifres. Como também o outro fazer tudo por ti e tu simplesmente "ignorares" isso. É uma luta de titãs de procurar um aquecimento da alma e individualidade que reside na falha de deduzires que é o outro que não te dá.
-Isso é um pouco ingrato não....essa luta...afinal...amor requer um trabalho árduo. Isso assim não é mais do que a busca pelo preenchimento da individualidade.
-De certa forma sim e por isso mesmo a admiração que tenho pela ingratidão, sofrimento é enorme.
-E porquê?
-Porque tudo o que se dá, o que se oferece, pouco que seja, mas com um significado tremendo para ti, mesmo que advenha desdém ou inconsequência nos teus actos proporcionados, faz te crescer ainda mais na certeza de que a tua oferta, o teu eu é tremendamente grande o suficiente, para soltares um sorriso e dizeres" A vossa infelicidade interior...não é a minha". Quando tens muito para dar e percebes que do outro lado existe tanta fraqueza em receber...vais te queixar do outro porquê?Percebes te? Há coisas que levas para a frente, outras tens de deixar para trás.
-Já sofres te por amor?
-Pergunta parva! Claro que sim! Sofrer é a minha principal arma de poder em relação à visão que tenho de fazer mais e melhor. É na descoberta do outro, no sentido que o outro trás para a minha vida que revejo e reescrevo a história a dois de formas diferenciadas. Aprendes sempre na complexidade que existe entre as pessoas. E com isso vais percebendo os patamares de bem estar que podes manter equilibrados.
-Mas nem todas as pessoas estão ou tem capacidade para isso...talvez por isso o amor é transformado em apego e apego leva a uma condição fora do contexto do casal. 
-Exacto...melhor dizendo, podes condicionar-te em forma de pausa na tua relação e a tua busca situar-se fora da mesma. O que procuras é o que não tens na tua relação. Procuras acima de tudo transformar um vazio que se possa ter criado com uma imagem ilusória daquilo que lá fora ou em outro contexto possa preencher esse vazio.
-Mas isso não é falta de comunicação na relação? Porque as pessoas não conversam?
-Não se trata apenas disso. Trata-se acima de tudo de erros de principiante. Que maioritariamente não temos culpas tantas vezes cegos pelas paixões. As pessoas tem um ideal de homem, tanto como o contrário. E há todo o tipo de interesses, vontades inerentes a esses ideais. Na mesma medida que o tempo passa e trata de mostrar como cada um pensa e faz as coisas, vais percebendo também o histórico de cada pessoa e os seus interesses. Há pessoas com todo o tipo de interesses e vontades para a sua vida.
-Mas...amar alguém, viver com alguém não é supostamente...viver esse amor e que a vida trate de ir encaixando as coisas no seu devido lugar com os dois a remar para o mesmo lado? Mesmo que isso seja feito com esforço  e empenho!?
-Supostamente sim...mas é exactamente aí que entra a complexidade de cada um. E cada um tem uma forma muito própria de ver a vida e o que acha melhor para si. Uns entregam-se ao amor, ao respeito, ás necessidades de um e outro, outros entregam-se à profissão, uns lutam cada um para o seu lado...vão-se criando clivagens enormes pela necessidade que um vai tendo mediante a vontade de subir as escadas o mais rápido possível. Amor não é um andar na frente do outro amigo. Amor é acompanhamento incessante e fazeres pelo outro o que não fazes tantas vezes nem por ti.
-Estranho este mundo...
-É a lei do salve-se quem puder meu amigo. É a história do mundo...é feita de sangue, suor e lágrimas. 
-Posso pedir-te uma coisa?
-Claro...
-Dá-me um abraço!
-Um abraço? Porquê?? Não vais pedir para meter a língua dentro da tua boca não é!?!?
-Estás parvo!!!! Quero valorizar o momento...não me quero esquecer dele.
-Nesse caso...venha de lá esse abraço amigo!


Fuiii







Um comentário:

Claudia Dias disse...

"Experimenta meter um feliz da vida à fome ou perdido numa ilha e vais ver que no manual de sobrevivência o terror dele para esse momento será atroz. Coloca um infeliz que se depara com o sofrimento vezes sem conta e vais ver como ele se salva e controla a situação. Por isso tenho uma profunda admiração pelo sofrimento. Porque ele acima de tudo transforma e ensina. - BINGO!"

Já agora...com tanto diálogo, perdi-me quem eras tu e o teu amigo! LOL