terça-feira, 25 de agosto de 2015

A FÁBRICA DOS HERÓIS ERRANTES...




                       


Quando era mais pequeno sonhava em ser um super herói. Como eu queria salvar o mundo das vicissitudes da vida. Queria salvar da fome, sofrimento, tristeza, abalos emocionais. O meu interesse não era apanhar os ladrões em flagrante, isso, a policia que os apanhasse. Eu queria ser o herói das tristezas transformadas em alegrias. O herói no bom humor, o herói no amor, o herói no tratamento do outro, o herói com amizades, amores, relações. O héroi da cumplicidade, da amizade, reciprocidade. O héroi até de uma certa loucura e devaneio. Eu não queria ser o lobo mau, o safado, o cafageste, o mentiroso, o traidor, o problemático ou o ciumento.

Não me interessava ser um Hulk que com a sua forma defenderia a sua dama de ataques de outros. Ou que pudesse transmitir segurança total ás suas damas desarmadas, fracas e tantas vezes obsoletas. Não me interessava ser um Thor que com o seu martelo pudesse resolver todos os problemas rapidamente. Ou com um passe de mágica pudesse proporcionar ante a ansiedade das outras o ansiado sabor de plena conquista efémera.

 E nem me interessava ser um homem aranha que nas sua teia pudesse abarcar para si todas as mulheres no seu regaço, como fonte da minha virilidade.

Ahhh....eu era um super herói...invulgar. Não queria saber de atos de heroísmo. Queria almejar o sentido da vida, apurar a sensibilidade, os sentidos, queria apurar o olhar, queria apurar o tratamento dado ao outro.

Queria sentir sorrisos como a força matriz da vida.  Queria colocar me na pele do outro, tentando com isso  imaginar ou trazer para mim as suas dores, memórias ou alegrias. Para mim o maior ato de heroísmo era fazer jus ao ato de estar vivo. E sublinhar esse ato, era retirar da vida, toda a consequência e sequência de alegrias e tristezas de forma a tornar-me cada vez mais forte, cada vez mais ágil nos afetos, nas respostas à vida mediante os acontecimentos trágicos ou não. 

Sabia e sempre soube que o Sol nasceria e nasce sempre para todos. E dessa mesma forma a manutenção do meu heroísmo era a consagração do meu estado de alma. Nunca quis transformar a minha alma numa fornicação de ideias, valores, bases morais, onde ano após ano eu pudesse ser exactamente igual ao que era no ano que passou. Vida, pessoas, contextos reescrevem de certa forma também o que somos e vivenciamos.
Queria poder naufragar sem me importar que morresse sozinho. Que fosse eu o único a perecer, nada mais me importava desde que no meu ultimo olhar pudesse ver a salvação do outro. Nunca fui o herói de mim. Sempre fui o herói dos outros. Mas não é esse exactamente o sentido de ser herói? A salvação dos outros?

Que se perceba que na frase: "Dai a César o que é de César e dai a Deus o que é de Deus" reflete-se não em graus de heroísmo patenteados por hierarquias, mas acima de tudo num equilíbrio de justiça onde ninguém fica a perder. Na verdade o sentido de ser herói é revestimo-nos de equilíbrio perante nós e os outros. Ser justo é um ato ainda de heroísmo enriquecedor e sustentabilizado pelo equilíbrio do sofrimento e alegria.
Eu queria parar guerras, não queria desarmar homens. Não queria ser o orgulho de uma mulher, pelo posto que ocupava, pelo status que tivesse, pelo dinheiro que me enchesse os bolsos. Não reconheço legitimidade aos hérois oportunistas ou Heroínas. Não existe nenhum ato heróico quando fazemos as contas às oportunidades que podemos ter com A. B ou C. 

Para mim ser héroi é descobrir como manejar o amor, o carinho, a dedicação, o empenho, a força, a cumplicidade, a reciprocidade...a ideia de ser héroi na diferenciação, na marcação de posição perante as mentes perdidas, as consciências cegas e inválidas de conhecimento é a forma que existe de marcar a diferença.

As escolhas nunca se definem pelo tipo de super herói que somos. Definem-se pelo tipo de super herói que querem. Todos ansiamos por algo diferente sistematicamente até ao puzzle final. Até à carta certa, até ao encaixe decisivo. Seja em que ocasião for. Somos todos super heróis em estado de lapidação. 

Mas uns são lapidados para o lado errado e vivem pensando que estão certos e outros para o lado certo...e vivem pensando que nunca estarão errados. E residirá sempre neste intermédio a vontade de mudar a estratégia, de encetar novos planos, até porque a vida urge e eu não pretendo ser héroi de um cemitério recheado de medalhas de honra e heroísmo.

Pesquisei todas as minhas memórias em busca do que é isto de ser herói...e o que é isto de ser Homem? Onde se enquadra um com o outro? Existe ou poderá existir ambivalência entre um e outro? O que nos torna realmente um homem e o que nos torna realmente um Herói e o que faz de nós tão pequenos ou grandes na nossa insignificância planetária?

Durante anos somos massacrados por pais, família, professores,  amigos, meios de comunicação, a ter o melhor, a fazer o melhor. Compre o melhor...fique com o melhor...colha o melhor...aproveite o melhor...ganhe mais...faça mais....produza mais...fique rico....tenha uma boa casa, tenha um bom carro...tenha a melhor mulher. A mais gostosa, a mais bonita a mais....estonteante. Somos heróis falsificados, robotizados  e seres que na sua maioria são sistemática mente errantes. Vivemos uma vida onde o produto apresentado é a base da constatação de que o melhor...o mais significativo é a profunda base da supremacia do Homem. O segredo da felicidade.E lá vão todos maioritariamente atrás...

Ahhh...maldito Homem que de héroi falsificado e cheio de regras se estabelece num mundo ingrato de egoísmos, de incoerência e de profunda insatisfação material. E onde a teia que percorre o seu eu o deixa tão miserável como o pó de onde o mesmo se ergueu. 

 Maldito homem que és tu...que transformas, que enganas, que pisas e humilhas o mais leve sentido da vida e contigo envenenas uns atrás de outros. As palmas aos teus atos heróicos refletem-se nas lágrimas da tua desumanização.
 

A tua sede nunca foi de salvar ninguém. A tua sede percorre as energias alheias para tua salvação. Mas não notas? Continua tudo igual....desde o galo que te acorda pela manhã, até a lua que se deita sobre ti....nada de nada acontece no sussuro da noite. Apenas as imagens que fabricas e te deleitas como forma de preenchimento.
 

Tu não precisas de salvação, pois o teu ego é o herói fabricado por ti para ludibriar os verdadeiros heróis, que te sacodem na mudança e tantos sucumbem com o teu veneno. 

Não chores pois tu héroi pela vida que não tiveste, pelo cargo que não ocupas, pela família que não tiveste. Não chores tu por um pedaço de pão, por um ombro amigo, pelo erro cometido e não corrigido. Não chores por te achares errante ou perdido.

Lembra te que o verdadeiro héroi é aquele que em si sabe, que tanto sacia a sede com um copo vazio, como com um copo cheio.  E quando as lágrimas te caem em desespero de vida, porque tu na tua singularidade te sentes tão cheio? 

Os hérois errantes marcam passo em vida não se anunciam como hérois da mudança. Anunciam-se com o desejo de serem salvos pelos vazios que os mesmos não conseguem preencher. Eu não preencho peças puzzles iguais. Eu preencho peças de puzzle diferentes. Porque é exatamente na diferenciação que está a arte e obra da mudança.

A ostentação é a fábrica de horrores de um mundo cada vez menos servido de hérois e heroínas. É uma fábrica de produtos materiais, de mentes ludibriadas com valores e conceitos errados. Os hérois não são mais conquistados, deixam-se conquistar. Vendem-se pela beleza, pelo circo criado da vida onde tudo vale para dar ênfase à mudança.

São comprados ao desbarato. São fabricados, escolhidos, excluídos conforme  a balança do egoísmo, que esfomeada , sedenta da vida se pavoneia pelas estradas de ouro criadas pela sua própria mente.

Não existe medo de mudar...existe medo de ser mudado...

E eu? Bom...eu sou o herói que sempre quis ser....

E tu?




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