PEÇO-TE PERDÃO NESTE NATAL...


Amigo, 

Tu não me conheces, mas passo todos os dias por ti. Entre compras e conversas de desejos de bom natal pelo telemóvel, olho para ti sempre de lado. Não que a tua situação não me comova, mas por ser já tão usual ver-te, é como se já não te visse.  Não pertences ao mundo que vivo, mas ainda assim és parte de mim, parte do que sou e na verdade nada do que eu sou tu és. 

Um sorriso, uma lágrima, um momento de frio que te corrói a pele, um olhar lançado no ar, um movimento com as mãos, nesses pedidos incessantes de ajuda, todos eles fazem parte de mim tanto como de ti.

Convoco para a minha reunião familiar a verdadeira concepção de unificação em torno de um bem maior: A família. Não glorifico o nascimento de Cristo, não dou as mãos em honra do seu suposto nascimento neste natal. Não oro em família pela comida que tenho na mesa, não peço pela pessoa do lado.

No meu olhar não existe senão o frenesim de um natal que quero tão feliz como os outros. Passo por ti revestido de sacos de prendas cheios, trago comigo as alegrias, as vontades, os sorrisos, os gastos, as poupanças que numa noite se evaporam por amor aos outros, que deduzo, merecem.

Pergunto-me que merecimento, tiveste tu, que sob o teu olhar dizes-me: Eu existo amigo. Passo por ti tantas vezes como se não existisses, como se não fizesses parte do meu mundo. Tu pertences ao submundo que não quero estar, que me assusta, que me trás possíveis desgostos, sofrimentos, tristezas sem paralelo.

Não me quero ver como tu, eu na verdade não me reduzo perante ti. De olhar altivo, nariz empinado como se nada fosse, passo por ti e na esperança de fazer com que o teu dia seja melhor lanço-te uma moeda. Uma moeda de desprezo pelo que és, desprezo pelo que eu não quero ser. Não te dou mais...dar-te mais seria elevar-te à minha condição. 

Vivo num mundo cão, cheio de competitividade, dar-te mais poderia significar deixar-te lado a lado comigo. E eu não quero perder. Por isso mesmo apenas e só no natal te dou a provar o sabor da tua existência. Para que tenhas algum tipo de esperança que te leve a crer que consegues. Dou-te a mão hoje e apenas hoje para durante o resto do tempo não me lembrar sequer da tua existência.

Entro nas lojas, perco-me em ideias do que quero comprar, o que desejam, a quem devo ou não comprar o presente ideal. O que faz faz falta aquela pessoa? Um livro? Um telemóvel? Um cd de música? Um bilhete de presente para uma viagem? Uma roupa?

Perco-me e descubro-me entre sorrisos de que no retomar de mais uma época natalícia tenho de novo em mim o pó mágico da minha extrema bondade. Repara...não me leves a mal, mas tenho família, tenho demonstrações de afeto, carinho, amor e cuidado. Tenho de retribuir de certa forma toda a concepção de amor que recebo. São a minha família entendes? 

Percebes-te nas fotos, que mostramos a mesa farta, os copos de champanhe levantados em prol da consagração de mais um natal recheado de unidade? 

Lamento que estejas desse lado, lamento que as roupas que comprei sejam mais importantes do que a caixa de cartão onde te deitas. Que o novo telemóvel tenha um conceito de idealização de necessidade, mais do que o pedaço de pão que possas comer ou não. Lamento essencialmente ver-te sozinho, ver-te perdido, largado nas ruas e não me rever em ti como mais um solitário em busca de algum consolo. 

Lamento pela desumanidade, pelo egoísmo, pela soberba. Lamento pela constatação da mentira, pelos jogos de marketing lançados no natal onde te colocam como um produto a ser ajudado, acarinhado por umas horas onde tens pedaços de amor, sorrisos momentâneo. 

Não lamento amigo pelo que és, lamento essencialmente....pelo que somos para ti. Não precisas de um dia...precisas de todos os dias...

De mim para ti...o meu perdão, pois é a ti que pertence a verdadeira arte da beleza e profundidade da dor. 

O verdadeiro sem abrigo não vive em ti...mora sim em mim.





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