segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

PEÇO-TE PERDÃO NESTE NATAL...


Amigo, 

Tu não me conheces, mas passo todos os dias por ti. Entre compras e conversas de desejos de bom natal pelo telemóvel, olho para ti sempre de lado. Não que a tua situação não me comova, mas por ser já tão usual ver-te, é como se já não te visse.  Não pertences ao mundo que vivo, mas ainda assim és parte de mim, parte do que sou e na verdade nada do que eu sou tu és. 

Um sorriso, uma lágrima, um momento de frio que te corrói a pele, um olhar lançado no ar, um movimento com as mãos, nesses pedidos incessantes de ajuda, todos eles fazem parte de mim tanto como de ti.

Convoco para a minha reunião familiar a verdadeira concepção de unificação em torno de um bem maior: A família. Não glorifico o nascimento de Cristo, não dou as mãos em honra do seu suposto nascimento neste natal. Não oro em família pela comida que tenho na mesa, não peço pela pessoa do lado.

No meu olhar não existe senão o frenesim de um natal que quero tão feliz como os outros. Passo por ti revestido de sacos de prendas cheios, trago comigo as alegrias, as vontades, os sorrisos, os gastos, as poupanças que numa noite se evaporam por amor aos outros, que deduzo, merecem.

Pergunto-me que merecimento, tiveste tu, que sob o teu olhar dizes-me: Eu existo amigo. Passo por ti tantas vezes como se não existisses, como se não fizesses parte do meu mundo. Tu pertences ao submundo que não quero estar, que me assusta, que me trás possíveis desgostos, sofrimentos, tristezas sem paralelo.

Não me quero ver como tu, eu na verdade não me reduzo perante ti. De olhar altivo, nariz empinado como se nada fosse, passo por ti e na esperança de fazer com que o teu dia seja melhor lanço-te uma moeda. Uma moeda de desprezo pelo que és, desprezo pelo que eu não quero ser. Não te dou mais...dar-te mais seria elevar-te à minha condição. 

Vivo num mundo cão, cheio de competitividade, dar-te mais poderia significar deixar-te lado a lado comigo. E eu não quero perder. Por isso mesmo apenas e só no natal te dou a provar o sabor da tua existência. Para que tenhas algum tipo de esperança que te leve a crer que consegues. Dou-te a mão hoje e apenas hoje para durante o resto do tempo não me lembrar sequer da tua existência.

Entro nas lojas, perco-me em ideias do que quero comprar, o que desejam, a quem devo ou não comprar o presente ideal. O que faz faz falta aquela pessoa? Um livro? Um telemóvel? Um cd de música? Um bilhete de presente para uma viagem? Uma roupa?

Perco-me e descubro-me entre sorrisos de que no retomar de mais uma época natalícia tenho de novo em mim o pó mágico da minha extrema bondade. Repara...não me leves a mal, mas tenho família, tenho demonstrações de afeto, carinho, amor e cuidado. Tenho de retribuir de certa forma toda a concepção de amor que recebo. São a minha família entendes? 

Percebes-te nas fotos, que mostramos a mesa farta, os copos de champanhe levantados em prol da consagração de mais um natal recheado de unidade? 

Lamento que estejas desse lado, lamento que as roupas que comprei sejam mais importantes do que a caixa de cartão onde te deitas. Que o novo telemóvel tenha um conceito de idealização de necessidade, mais do que o pedaço de pão que possas comer ou não. Lamento essencialmente ver-te sozinho, ver-te perdido, largado nas ruas e não me rever em ti como mais um solitário em busca de algum consolo. 

Lamento pela desumanidade, pelo egoísmo, pela soberba. Lamento pela constatação da mentira, pelos jogos de marketing lançados no natal onde te colocam como um produto a ser ajudado, acarinhado por umas horas onde tens pedaços de amor, sorrisos momentâneo. 

Não lamento amigo pelo que és, lamento essencialmente....pelo que somos para ti. Não precisas de um dia...precisas de todos os dias...

De mim para ti...o meu perdão, pois é a ti que pertence a verdadeira arte da beleza e profundidade da dor. 

O verdadeiro sem abrigo não vive em ti...mora sim em mim.





terça-feira, 22 de dezembro de 2015

QUERIDA FILHA - ORGULHA-TE PORQUE NASCESTE MULHER





Foi para alertar para o problema da violência sexual e abuso físico , que a Care Norway lançou um vídeo poderoso. Nele, a narradora dirige o seu discurso ao pai, começando com: “Querido pai…”, mas querendo, no fundo, dirigir-se todos os pais do mundo, pedindo-lhes “tolerância zero” para as atitudes de violência contra as raparigas que se tornarão mulheres.

Vi este mais recente video que a CARE NORWAY lançou e apesar do respeito, informação que o mesmo merece devo dizer-te a ti querida filha que pedes ajuda o seguinte:

"QUERIDA FILHA - ORGULHA-TE PORQUE NASCESTE MULHER"...e dizer-te que a sociedade ao longo do tempo fez, converteu a mulher num "objecto sexual", onde impera a lei do mais forte sobre o oprimido, neste caso as mulheres. Recuso-me como homem a aceitar que tu possas fazer parte de uma sociedade que te manipule, que te desoriente, que te eleve ao mais fraco ser que teimosamente tem a tendência a uma narrativa de vitimização como a pobre coitada do planeta. 

Recuso-me a aceitar que aceites, que és o elo mais fraco, que serás o resultado futuro de um possível machismo latente na sociedade. Não querida, não te vergarás perante a vergonha, não aceitarás faltas de educação, não permitirás que sejas jamais tratada como a "desgraçada" que vive perante a mão tantas vezes injusta do homem e da sua eterna ignorância em tantos momentos.

Recuso-me a aceitar que a tua criação, o teu lugar no mundo, o que te é transmitido, desejado, facultado seja manipulado por atitudes agressivas ou violentas contra ti. Santo Agostinho dizia que uma lei imoral não é lei. A lei da mentira, a lei da agressão, a lei da omissão, a lei do egoísmo ou falta de liberdade, deve ser sempre combatida com a justiça, liberdade e capacidade de resposta à altura. 

Não, não te vou elevar a uma coitadinha e pegar-te ao colo, exactamente pelo fato de te colocar na mesma balança de igualdade que necessitas ter para a tua vida. Do equilíbrio, da causa justa, da parcialidade, da conjunção de coragem, força, dedicação, poder e justiça que quero que tenhas na tua vida. 

Num mundo recheado de podres a tantos cantos, de manipulação de mentes, de atitudes machistas, de vergonhosas formas de tratamento de uns para outros o teu nascimento não é apenas um nascimento comum como um produto que vai par as prateleiras para seguir robotizada o rumo da vida. Não!!

Entende filha, que tu és o mar de revolta, és do livro do desassossego, és o fogo que arde sem se ver, és a alteração de ideias, és o foco do insurgimento contra todas as injustiças que podes vir a ser alvo. Não te admitas, não te reconheças como o elo mais fraco! Não te determines como o lado mais obscuro, não te reconheças como o objeto de adorno seja para quem for!  Para mim, tu és o mais belo instrumento a ter em conta desde o momento que nasceste, com o foco de exactamente alterares, com tantos outros da tua geração, com debate de  ideias, com educação, com liberdade, com justiça, com afrontamento se necessário contra leis injustas, contra fenómenos grotescos. 

Nunca te esqueças...és filha de quem és e por isso mesmo como diria Simone de Beauvoir:

NINGUÉM NASCE MULHER, TORNA-SE MULHER

E tu já és o orgulho latente do que és e serás!

sábado, 19 de dezembro de 2015

NO LABIRINTO DA VIDA, INCERTAS SÃO AS NOSSAS ESTADIAS


Nem todos os caminhos são para todos os caminhantes.

Há uma verdade indesmentível na concepção dos caminhos que traçamos. E essa verdade está ligada ao conceito da produção, atitude e coragem que também temos durante a vida. Verdade seja dita que nem todos os caminhos são para todos os caminhantes como afirmou Johann Goethe.

Mas ao mesmo tempo que na concepção de vidas e caminhos existe o desejo de construção de felicidade, há de facto também o oposto a tudo isto. Medos, receios, covardias e afins. Há uma certa covardia escondida, manipulada interiormente que nos faz muitas vezes parecer mais fortes do que aquilo que realmente aparentamos. revestimo-nos de capas de auto-defesa para nos mostrarmos muitas vezes o que não somos e aparentamos ser.

Não somos infalíveis, somos humanos que construímos caminhos de acordo com as nossas necessidades. Perdemo-nos inúmeras vezes em amores, paixões do momento, empregos, profissões, amizades, etc. Corremos riscos, erramos, acertamos algumas vezes, mas na irregularidade que tantas vezes existe no nosso caminho, revestimo-nos de esperanças corpo após corpo, olhar após olhar, toque após toque. A dedução do que desejamos acaba sempre tanto por nos surpreender como nos faz também em tantos formatos e conceções de ideias e ideais, arrependermo-nos.

Mas será o arrependimento a verdadeira face do caminho? Ou será apenas a aprendizagem a reter de forma a chegar ao entendimento emocional que tantos buscam perdidos? Que crença é a nossa? Que batalha travas tu ou eu no que desejas? 

Os nossos caminhos são inumeráveis, mas incertas são as nossas estadias.

Quantas vezes não nos questionamos o que fizemos de errado? Onde erramos? Onde acertamos? Quem "matamos" interiormente, quem nos "mata" a nós? Que busca de perfeição, de dedução de aceitação, vidas preconizamos nós? Em quantas camas necessitamos de dormir para acordar realmente? Em quantas vidas precisamos de viver, para nunca nos sentirmos mortos? Em quantas casas precisamos de viver, para não nos sentirmos sós? Que caminho escolhemos para a manutenção de felicidades tantas vezes irreais? 

Sabes tu? Saberei eu?

Eis o que sei: Se o final valer apena, o caminho não importa.

CLÁUDIA C.SILVA - QUEM PRESENTE É, PRESENTE SE FAZ! (TRIBUTO À PRINCIPAL SEGUIDORA DO MEU BLOG)



Para quem se questiona de quem é a pessoa em questão na foto, ficam para já feitas as apresentações iniciais: Cláudia C. Silva, fundadora do projeto Mulher XL, sendo a primeira pessoa ( juntamente com a sua parceira Lane Ferreira) a abordar o tema das mulheres Plus Size em Portugal. 

A par disso é também e no que me toca nos diversos temas que abordo no meu blog a principal comentadora e seguidora, desde há sensivelmente 8 anos ( desde meados de 2007). 

Revela-se sempre de extrema importância seja no que toca ao meu blog, seja no que toca ao blog  de tantas outras pessoas, a atenção, cuidado e em especial o carinho que somos alvo, post após post. Afinal e querendo ou não a existência do reconhecimento pelo que escrevemos é deveras importante também para o debate de ideias.

A Cláudia, tem sido daquelas pessoas, que não se tornou apenas e só uma simples seguidora. Tem ajudado também na construção de ideias que muitas vezes na nossa singularidade e no nosso silêncio, achamos muitas vezes que estamos sozinhos na ideia base que construímos em nós. E não é verdade! 

A seguidora apesar da virtualidade que vivemos, no corropio do dia a dia, acompanhou-me de longe tanto em Portugal, como nos países por onde passei. Acompanhou o crescimento de longe da minha pequena e as coisas que fui postando ao longo destes anos. Apesar de já ter falado várias vezes ao longo dos anos com ela de uma forma virtual e não física, posso considera-la sem a mínima dúvida uma boa amiga. Nunca tive dúvida que há realmente pessoas que mesmo distantes podem perpetuar o seu respeito, carinho mútuo nessa versatilidade que a própria virtualidade às vezes nos entrega.

Algumas pessoas vão seguindo o meu Blog ao longo dos anos, vão comentando também, mas fazer uma especial menção a quem de uma forma sistemática se dá ao trabalho de ler, de entender, perceber é de facto uma mais valia também na nossa vida.

O meu muito obrigado a ti Cláudia C. Silva que tens sempre demonstrado que mesmo virtualmente o valor da simplicidade, da amizade e da constatação do interesse sobre o que escrevo mantém-nos sempre acordados na percepção de uma realidade indesmentível, que se reduz e amplia no mesmo sentido e que dá o nome ao verdadeiro conceito de dedicação, carinho e amizade. 

A ti o meu obrigado, não só por seguires o que escrevo, como também teres-me dado a oportunidade ( juntamente com a Lane Ferreira) de poder escrever no teu blog.

Um grande beijo e desejo de todo o coração que a felicidade, sucesso e transformação de sonhos e objectivos te acompanhem sempre!

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

PRENDAS INDESEJÁVEIS NO NATAL - MEIAS E BOXERS


Pois é amanheceu...estou à janela antes de ir trabalhar. Engraçado como neste espírito natalício, com ruas cheias de luzes, gentes embutida por uma simbiose de solidariedade tão verdadeira quanto falsa. O que me impressiona, é a música a pairar no ar através das colunas de som instaladas na rua com o estes novos hits de kisomba em pleno natal! Em vez de escutares "É natal, é natal" escutas " Encosta em mim, quero você todinha"! E ficas tipo: What a fuck? Estou no natal ou numa festa na Cova da Moura?

Hoje entrava ás 9:00, aliás como sempre, por isso levantei-me sossegado fui lavar os dentes (sinceramente não me apeteceu tomar banho, gosto de me sentir rebelde, enfim, nojices), olhei para o espelho e decidi que hoje era o dia de vir aqui falar no Blog do meu natal e das respectivas prendas. Ainda não chegamos lá, mas gosto de me antecipar, pois sei o que aí se aproxima. E é aterrorizante! Pessoalmente nunca liguei porra nenhuma ao natal. 

Sei que irei receber dois tipos de prendas, num universo de dezenas de amigos e familiares (fantástico não é? Só diz o quanto eu sou popular!) um par de meias e umas boxers, provavelmente compradas na feira dos ciganos da buraca ou a algumas tias de cascais.Enfim...
O importante é que hoje quero falar de um par de meias que recebi e boxers nos anos anteriores claro, fazem tanta falta! Meus amigos....minhas amigas ...a sério...porque raio nos dão como prenda um par de meias e boxers???  

What a fuck is that!!? "...Ahhhh e tal...a vovó comprou-te um par de meias meu netinho querido porque a vovó não tinha muito dinheiro para gastar! Mentira!!" É vaca!! Tem dinheiro sim senhor!! Velha forreta!!! Então dois carros para os netos, andares no Algarve, conta bancárias cheia de euros....e eu recebo umas meias e umas boxers que provavelmente foram roubadas e etiquetadas em alguma morgue??


What a fuck is that!?!? Fico indignado! A sério....eu trabalho, tenho a minha casa, compro as minhas coisas...ofereço ate coisas que me custam a oferecer, porque são caras porque, poderia até comprar drogas de fazer rir e ir ao casino estourar o dinheiro e faço esforços para ver alguém de sorriso no rosto. Mesmo que não tenha dentes. E meias ou boxers posso comprar todos os dias durante 365 dias como se não existisse amanha!


Quando me oferecem aquilo e ainda antes de me darem a prenda quando dizem: " E esta prenda é para o menino? Para o menino Bruno!" Toda a gente sorridente, feita parva a olhar para mim e a questionar-se "O que será que essa idiota vai receber?? Será que é melhor do que a minha prenda?" 

Vejo as pessoas todas sorridentes a dizer : "Muito bem!Uma prendinha!" Por educação....e repito...por educação eu sou obrigado a sorrir. Aquele sorriso de orelha a orelha que na verdade o que estás a querer dizer é tão simples como: "Dás-me umas meias, dou-te com o taco de basebol!"

E quando a prendinha...fofinha vem na minha direcção...quando ela se aproxima de mim e eu sinto...aquela textura do presente....fofo...fresco e leve...só penso com um sorriso enorme para toda a gente " E se fossem educadamente e de uma forma sensível ao toque, levar nas profundezas onde o cheiro não vem ao de cima?" -Isto claro..sempre num tom educado!

Depois perguntam quando abrimos " Então?? Gostas-te??? São giras não são" 

- E nós somos obrigados a responder : "A serio...são bonitas...então a textura...e o algodão, foi na loja das meias? E são quentinhas...gostei muito...obrigado, vá de cá um beijinho porca!" 

Depois lá vem a velha sem dentes, com a placa a cair e a babar-se dos cantos da boca: " Pronto meu netinho..agora já ficas quentinho" Que raiva!! 

Vovozinha querida...se eu tivesse aqui um paralelepípedo...é melhor nem dizer o resto, só me apeteceria perguntar: " Ta quentinho vovó? Tá a fazer dói-dói? Tá chora é? Ké fror?" - Nestas ocasiões gostava de torturar um pouco as pessoas, só um bocadinho...não ia doer nada...

Meias..ainda estou indignado! Dizem que o que conta é a intenção! Mas qual intenção qual carapuça! Isso é gozo! Mas por amor de Deus eu não vou oferecer meias ou boxers a ninguém! Quer dizer...o mesmo gajo ou gaja que me ofereça meias, dá ao familiar do lado a chave de um Mercedes, ou uma maquina de café...seja la o que for. E eu recebo Meias e Boxers?? 

Depois destes presentes optei por passar o natal sozinho e sossegado, quando me ligam e dizem: "Bruno, vem cá passar o natal...temos prendinhas..."

Sabem o momento em que se faz silêncio e o telefone , desliga-se...that s my perfect moment!


domingo, 6 de dezembro de 2015

A MINHA FORÇA CONSOME-SE DA TUA FRAQUEZA - A VISÃO RASCA DO AMOR.


Tolerância é uma das bases mais importantes de sustentação do nosso ser. É o que que nos impede de sermos tantas vezes impulsivos, repulsivos, imorais, insensatos ou na luta que temos entre amores e desamores que vamos encontrando é uma das chaves que leva também à compreensão. 

Compreensão essa que é a base com que sustentamos também vivências, defeitos, formas, olhares, indefinições, medos, receios dos outros. Somos muitas vezes e maioritariamente muito para os outros e os outros dão tão pouco deles para nós.

As visões, vivências riquezas ou pobrezas emocionais de cada um leva, muitas vezes a que morra o amor num deles, enquanto no outro, incumbe a triste sustentação de continuar a levar esse amor presente, mas inexistente. 

Não há pior coisa que amares sem ser amado e perceberes essas falhas de amor tão visíveis nas relações que vamos tendo, são uma incumbência inerente à aprendizagem que cada um deve ter para si.

Durante anos habituamo-nos a ouvir de uns e outros projetos de amor. Projetos da consciência na arte do desejo de ter para nós o que acalentamos. Segurança, amor, carinho, vivência, liberdade, transformação. 

Aquele amor que torne sustentável a visão que criamos para nós. A possibilidade de amar não é mais do que a infelicidade de poder vir a perder. É um risco que nunca é sustentado.

Até porque na sustentação que pretendes dar ao outro exige de ti mais do que aquilo que acalentas que o outro te pode dar a ti. Amar é um tiro no escuro de almas que são órfãs da aprendizagem na arte da tolerância e sustentação. Diferenciações de uns e outros que de repente se encontram e se perdem na ilusão de que tudo aquilo é o que se deseja. 

É o estado inicial do deslumbramento quando vens de situações complicadas no amor, quando estás vulnerável e queres tanto voltar ao estado inicial que te perdes nos braços de uns e outros nessa busca. A prostituição no amor, em tantos olhares trocados, em tantas camas diferenciadas, em tantas bocas beijadas não te ensinada nada a não ser mesmo o ato inicial da busca de nunca te teres encontrado em ti mesmo. 

Um looping invariável de cores e sabores que denominamos como aprendizagem quando na verdade é um conceito falseado pela falta de coragem de nos vermos verdadeiramente ao espelho. O medo de perder liberdade, o medo de enfrentarmos de frente quem somos, como somos define-se falsamente por "Busca pelo amor". 

Tive a sorte de ter tido uma relação onde pude constatar duas vertentes inegáveis no que toca ao amor. Tolerância perante traição. Amor perante humilhação, cuidado perante criticas, carinho perante mentiras. Joguei sempre no meu melhor dando o que de melhor sempre tive. De peito de frente às balas optei sempre em primeira mão pela felicidade do outro, pela liberdade do outro em detrimento da minha. Preferi sempre ver o outro de sorriso farto e "barriga cheia" do que me ver feliz com a infelicidade do outro. 

Por muito que sofras sempre tive para mim que no que toca a sustentação , tolerância, capacidade de amar, capacidade de sofrimento, saber aguardar os momentos da vida são sem dúvida o grau mais alto do amor. O que aprendes, o que define o teu carácter não são várias bocas, experiências, camas, pilas ou vaginas que nos dão a real dimensão do amor. 


Uns e outros agarram-se e tentam salvar-se de acordo com os ideais que tem para si e a diferentes tipos de amor. Eu mesmo já tive a visão do que é vivenciar diversos tipo de amor, com diversos tipos de consciência e da capacidade que cada um tem de entender para si o amor.

Tive namoradas que privilegiavam a família, a lealdade, a honra feita aos filhos, ao trabalho, profissão, educação. As primazias que cada uma dava à sua visão de amor alternava de consciência em consciência. Passei por todas as fases como todas as fases como tantos outros. 

A sede de conquista, o desejo de ter, o fogo, a paixão, o tesão, o carinho a busca pela eterna vontade de ser feliz com alguém que busca no essencial o mesmo, mas que difere nas formas e abordagens, na variação de feitios, na instabilidade do ser e nas falhas de amor e carácter interior. 

Costumo dizer sempre em tom moralista que não me fodam a visão de verdadeiro conceito de amor com explicações tardias e inconsequentes que amor subdivide-se em variações de estados financeiros, profissões, habilitações literárias ou outros. Já cheguei a ouvir: " Tenho azar porque se me apaixono por uma pessoa bacana é porque depois é pobre". 

Este tipo de amores, ou consciências de amores hierárquicos para sustentar a liberdade, o bem estar, o equilíbrio são definições que por muito que custe, é o desejo de cada pessoa tem como definição de amor para si. Por isso... não me fodam com definições rascas de amor...

No cerne de todo o amor vive a eterna liberdade de dar, receber, amar e fazer cultivar o amor. Apenas e só esse mesmo diamante que recebes e tens de cuidar. Já tive todo o tipo de pessoas. As apressadas no amor, as deslumbrantes que se perdem no seu próprio brilho e se deixam levar pelos prazeres do mundo, já tive pessoas que nunca quiseram saber de onde vinha ou o que tinha, já tive pessoas que por amar tanto criam o controle de todo o amor, como se ele tivesse um comando de "faz isto, ou aquilo". 

Já tive e tenho todos os dias de variadas formas provas de amor, de carinho, de sustentação daquilo que eu sou. Ou seja existe um equilíbrio nato entre a manutenção de me ver como sou e os outros me verem como eles são em tantas formas de me expressar que tenho em mim todos os amores do mundo, todas as amantes, todas as dúvidas e respostas e ainda assim...todas as dúvidas inerentes a tantas caras novas que nos aparecem.

E dar significado resume-se a ser tolerante, a saber esperar, a embarcar em mares calmos, sabendo que há tempestades que se avizinham. Caberá sempre aos mais fortes, destemidos, mais bem preparados conduzir com todas as forças quem aprendeu a amar-te, mas perdeu-se na tempestade em cores e sabores que não conhecia. 

E tu estás sempre lá com uma palavra, com uma oratória que leva a pessoa a encontrar-se. Estás sempre lá nem que seja para vestires os pés frios de quem amas com umas meias rotas. Estás sempre lá mesmo sabendo que não há mais amor, porque nunca duvidas que tu amas tanto que o cuidado que tens é libertar com amor quem te ama sem amor.

Não há pior coisa que entregares o teu coração nas mãos de outra pessoa e perceberes que o que faz com esse amor é coloca-lo numa prateleira. A dura realidade é que tu sustentas o amor, com todo o carinho, como se vivesses num reino de fogo, onde a única flor imaculável é aquele em que tu defendes com a tua vida. 

E mesmo percebendo que aquela flor não quer mais ser regada e tratada por ti, tu insistes de uma forma tão paciente para que a mesma se lembre que afinal aquele amor é o único amor sustententado, carinhoso e de sensibilidade extrema com o qual tu podes contar em todas as horas. Essa é verdadeira alegria do amor, o verdadeiro regozijo de quem sabe e entende que alguém que segura insistentemente será alguém que com toda a certeza jamais deixará que possas cair seja qual for o teu infortúnio. E essa é a sustentação do amor. 

Ninguém está preparado para as perdas, porque todos escolhem o seu caminho livremente, cada um morre sozinho por muita gente que haja à volta. Cada um adoece na cama de um hospital com a sua doença. Cada um fica e pinta o quadro das suas memórias com as suas vivências e apenas suas de si para si. 

"Nós, que somos fortes, devemos suportar as fraquezas dos fracos, e não agradar a nós mesmos. Suportar, não meramente tolerar ou “aguentar”, mas sustentar com amor." -  Paulo de Tarso

A questão que sempre em coloco é: Eu estou sempre preparado para ti...mas será que tu estás preparada para mim?