DIA DE SÃO VALENTIM OU O "WALL STREET DO AMOR"?


Tenho dormido mal nestas últimas noites. Não porque algo em particular me preocupa. Simplesmente porque a chegada do dia de São Valentim, mais conhecido como dia dos namorados, traz às memória aqueles que boas ou más apelido carinhosamente como "Meninas" da minha vida. Nunca tive um harém pomposo onde me pudesse degustar de todo o tipo de iguarias que as pessoas que fossem aparecendo eu as pudesse transformar em algum tipo de objeto para um fim próprio. 

Paixões, namoros, namoricos, promessas de vidas longas e duradouras foram sendo ditas umas atrás de outras. Perdemo-nos nos olhares, nos beijos, no desejo de vidas felizes que espalhem magia. 

Deparamo-nos no meio desta emancipação de tudo e todos, nesta onda de globalização, de efeito nefasto de desprendimento rápidos de amores feitos de olhos que brilham para desamores desfeitos e totalmente incompreendido, com as amarguras que advém também dos objetivos e formas de cada um.

Ao longo dos anos e as relações que fui tendo,seriamente percebi sempre a intensidade pessoal de cada um nos seus objetivos pessoais e individuais. Nas entrelinhas, nas conversas, nos debates, nas opiniões divididas, maioritariamente as pessoas nao procuram na verdade amores. Procuram escapes que na maioria das vezes possam ver um retorno para si. E quem procura retorno tem falhas de amor. É mal amado. Simples assim. Quem procura retorno numa relação não sabe o que significa viver de amor e por amor de forma genuinamente verdadeira. 

Com o passar dos anos e tempo, maturidade ganha-se, mas isso não impede que erros se cometam. Eu próprio tantas vezes moralista caí no pecado da imoralidade. Seja como for, neste nosso desbravar de emoções e constatações de uns e outros fica difícil nos tempos mais ditos modernos de conseguir encontrar um equilíbrio. Até porque esta força gravitacional da globalização, de casos e casinhos em cada canto à espera de um oportunidade leva tantos e tantas à perdição. 

O dia de São Valentim ou digo, dia dos namorados deveria ser o dia das verdades, O dia em que a alma se emancipa, que a consciência se dota de verdade, o dia em que as algemas da mentira se transformam em louros de vitória. De vitórias sobre as verdades de quem somos, como vemos os outros, como acolhemos verdadeiramente um amor. Prendas, jantares maioritariamente são apenas engodos de uma falsa segurança que as aparências reclamam para vidas desmembradas no seu âmago. 

No outro dia perguntavam-me porque não namorava verdadeiramente há mais de 2 anos. O que se passava com aquele Bruno que conseguia levar as relações a bom porto, com alguma durabilidade, que pela sua forma fazia crer que este Bruno era o predestinado à consumação de relações apenas e só pela sua forma. O Bruno nunca foi feito de seguranças, riquezas, estatutos ou outros objetivos delineados para a manutenção de relações que visam apenas "dar" como forma de suporte assistido ao amor. O que acontece com todos os Brunos e Marias da terra é a constatação de uma dificuldade inerente a todos. E isso passa pela desilusão. A falta de constatação e percepção da grande maioria para a dureza que tantas vezes é o amor, que requer um suporte emocional muito forte esbarra nos objetivos individuais de todos os seres que abrangem a nossa vida. 

Passei a ver o amor não como uma conquista, mas como um desejo lascivo de "tapa buracos" inerente à falta de amor próprio que tantos possuem, As falhas esperam ser correspondidas através da conquista de pequenas vitórias. Um trabalho melhor, trará mais dinheiro, mais dinheiro uma casa melhor, um carro, um filho, mais qualidade de vida e por aí fora. O problema não está em ambicionar-se. O problema está na invalidez da ambição transformada em ganância pessoal, individual. Irrita-me profundamente o jogo do "fiz e tu não fizes-te" o eu dou tudo de mim e tu pouco dás de ti. Eu pago as contas, eu trabalho para o sustento, eu estou sempre presente, este eu, eu, eu, não é amor, é sim desejo que seja creditado na minha conta pessoal o retorno do que eu faço ou fiz. 

Eu não passo a ser um amor, passo a ser denominado como devedor na banca do amor por um "empréstimo" facultado e não retornado. Estes jogos tantas vezes inadvertidos por uns e outros reflete-se na mentira que tantos vivem e que chamam de "segurança" e constatação de uma vida equilibrada. 

Não há vidas equilibradas onde não há verdadeiro empenho de amor. Não há vidas equilibradas quando se engana o amor, quando se olha para a pessoa e se pensa: "Hummm....esse(a)não vai longe comigo..." 

Dizem que o amor depende da segurança. Depende do que se conquista, das bases, da constatação de felicidade medida em conquistas monetárias ou de faculdades pessoais ricas em transformações rápidas de poder subsistir automaticamente alguma falha....não se vá perder o amor pelas falhas inerentes a isto!

Estes amores do "Wall Street financeiro", de medos, de inseguranças, de receios do futuro, levam depois e muitas vezes ao desequilíbrio emocional. As pessoas passam então desiludidas a dizer: "Ahhh agora vou ser feliz, agora vou recuperar o meu amor próprio". 

Ou melhor,  o amor próprio não passa de uma desilusão de amor. Não passa efetivamente da colocação de todas as fichas depositadas em alguém que vislumbramos nos possa suprir...amor ou amores que não tivemos...os tapa buracos!

Quando chega a desilusão de uma luta que muitas vezes nao mantemos com o outro, mas connosco mesmo, chegamos a uma fase de farrapo humano, onde nada mais é o que parece e nada mais merece da nossa parte o significado que é dado. A única pena que devemos ter não é das relações umas mais tóxicas que outras. Nao é de amores perdidos que poderiam cozer as feridas em  nós tidas. A única pena reside no fato de tantas vezes não residir em nós a autenticação de amor próprio. Nós temos de morar em nós mesmos, com as nossas algemas, com as nossas fraquezas, com as nossas ideias que boas ou más padecem muitas delas de curas interiores.

Só a nós cabe o tempo com que as podemos curar, alterar e esgrimar esforços, para  depois sim, com  argumentos suficientes estar preparado para a batalha do amor.

Antes disso...não é mais do que um looping de relações, de promessas infundadas, de sonhos desfeitos.  Não há uma cura especifica para amores, para desilusões, para conceitos de amor. A cura de um amor por outro, não é mais do que uma falácia subjetiva que não cura...apenas prolonga a dor não curada. 

Há uma frase que diz o seguinte: A vida é um calvário. Sobe-se ao amor pela dor, à redenção pelo sofrimento.

Já tive pessoas que tinham horror à imagem do sofrimento, e maioritariamente fazemos esforço pela manutenção de uma linha que não desça as escadas até ao limbo das dores e mágoas. 

Para mim a melhor forma de chegar à verdade, a melhor forma de nós nos conseguirmos vislumbrar de forma verdadeira no conceito de quem somos, como somos e o que desejamos é deixares-te,  nú de amarras e  conseguires ver-te a ti mesmo,  passa por três razões sublimes: Amor, Sofrimento e Conhecimento.

Maioritariamente quase todos vivem num patamar de aparências e de segregação falsa no que toca a amor. Enquanto houver esta globalização, capitalista, de emancipação de todos, de facilidades, de teimosias individuais e tantas vezes nefastas, haverá sempre um dia de São Valentim para se comemorar a instrumentalização do individuo, não pelo que conseguimos, mas pelo que consegui nos objetivos que tinha. 

O objetivo do amor não é uma mesa farta e um guarda roupa cheio de sapatos. O objetivo do amor é que ames o conceito de amar. 


Comentários

Claudia Dias disse…
Por vezes confuso, mas de um modo geral brilhante!

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