terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

REDES DE RELAÇÕES GERAM FALTA DE AMORES



ZYGMUNT BAUMAN: VIVEMOS TEMPOS LÍQUIDOS. NADA É PARA DURAR

Quando há pouco tempo acabei de ler o livro de "Amores Líquidos" de Zygmunt Bauman sobre as relações amorosas e a ténue linha existencial e tão frágil no que respeita à manutenção de relações dei por mim a fazer uma regressão tanto ao passado como o presente e de que forma podemos, devemos nortear a fragilidade que na verdade o amor comporta em si mesmo.

As definições de amor nos tempos atuais resumem-se a potenciais casos passageiros onde as definições de amor que usamos não são mais do que deduções do incrédulo esperançosas, que tentam a todo o custo depositar esperanças naquilo que não mais é, do que uma divina comédia de relações estonteantes. Deslumbramentos, paixões  E onde o amor se tornou na vulgaridade remanescente entre uns e outros na esperança de se fazerem ouvir como verdadeiro amor idealizado e desejado. 

Vivemos e tal como li, numa sociedade onde a definição de descartável tomou uma posição de grandiosidade efémera. Esperamos de uns e outros, colocamos os nossos sonhos, objetivos, tradução de sentimentos na realização de objetivos canalizados entre pares como de um só sonhando assim o possa ser. Perdemo-nos numa canalização de dissabores e descartabilidade que se tornou na verdade de uso e manuseamento fácil.
O tanto quero, como não quero não depende mais do amor. Depende e isso sim de quem me pode dar mais segurança e realização do meu "Golden Dream". 

Há uns dias uma amiga dizia-me: "Perdi a esperança no amor" Bruno. Dizia ela que não tinha mais paciência para sonhar o amor, vivenciar o amor, com as suas duras definições reais de momentos prazerosos e dores inevitáveis de possibilidades que pudessem aí vir de instabilidade. Não há mais paciência, porque hoje vivemos na verdade numa autêntica lobotomia geral e de real vegetabilidade de consagração do eu. Eu posso, eu defino, eu quero, eu desejo, eu escolho, eu realizo, eu organizo eu...sou totalitariamente eu. A paciência redescobriu-se e transformou-se em impaciência geral.

Há um submundo interior escondido naquilo que, realmente deduzimos que não possa ser, mas que na verdade é a consequência da promiscuidade latente que o amor por si só vitorioso,  tão cedo não sairá. Tão só, porque o amor vive na penumbra hoje em dia, do conceito outrora idealizado pelo mesmo.

Vivemos hoje numa sociedade consumista, irremediavelmente perdida no seu próprio conceito de montra de ganância, de desejos interiores e de conceitos de vida fácil e quanto mais rápido melhor. O amor não está ao bater da porta. O "amor" hoje vive numa rede social, num chat, vive nos programas de encontros, de buscas de caras metades para salvação das feridas expostas e não tratadas.

Hoje as relações são autênticas arcas do desconhecimento que se dão a conhecer no mundo contemporâneo com uma velocidade atroz e perdem-se tantas vezes na angústia do porquê de ter conhecido. Paradoxal...desejo de conhecer, vontade de ter, possuir versus pressa, desconhecimento, indesejado, descartável. Perder pessoas, maridos, namorados, amantes tem cura e terá sempre. Não é o mesmo que perder um filho ou pais. 

E mesmo querendo elevar o amor como um amor único e transversal a todos os níveis, não existe a não ser apenas e só a incondicionalidade existente em grau de parentesco. Porque o outro amor padece também do próprio feitiço que o homem carrega já em si desde os primórdios. O pecado. Não o pecado como forma religiosa apenas e só. O pecado que carregamos também como massa humana, um pedaço de ossos e carne totalmente sujeito às vicissitudes desta vida tantas vezes. Costumo dizer que apesar de apregoarmos a honra, fidelidade, conceitos de ética e moral, acabamos aqui e ali sempre ou quase sempre presos na corrente dos desejos.

De um lado contextualizamos isso como um apoio, recuperação de sentimentos perdidos face à desgraça que se abate nos nossos sentimentos por nos sentirmos mal alimentados, mal amados. Por outro debatemo-nos com a fraqueza, carater, personificação do nosso eu em relação ao outro. Quero com isto dizer que somos incomensuravelmente insatisfeitos com as feridas que residem em nós e que combatemos com a desculpa de que é o outro que tem a chave da salvação para todas as nossas fraquezas interiores. Apressadamente corremos em busca desse alimento que no seio do nosso lar tantas vezes não o fazemos por força da desistência e incapacidade de acreditação. Mantemos relações dúbias,porque dúbias são as feridas do nosso eu. 


Existe a primeira tomada de consciência que nos move perante alguém. A afinidade. Seja na música, seja na arte, leitura, trabalho, conceitos, humor, forma de estar, objetivos ou outros. É o passo para o possível vislumbre de "amor" . É o que chamo de amor cego, pois é complementado por uma verdade indesmentível. A dúvida!

A dúvida surge sempre na ante-câmera dos porquês: Será ela assim? Será sempre assim? Dizemos inúmeras vezes pessoa, atrás de pessoa que "Esta finalmente é tudo o que quero" Não sabemos na verdade o que esperar do outro. Sabemos apenas que o que nos enche os olhos, sentidos, será na mesma medida o preenchimento verdadeiro ao coração? Alguma vez nos auscultamos daquilo que somos? Quem somos? Como somos? Nós partimos para relações como um animal esfomeado atrás da sua presa. Não importa de que forma ela poderá ser comida. Queremos na verdade é comer. 

Queremos saciar a fome, queremos preenchimento, queremos sentir preenchimento. O problema está no deslumbramento, na pressa, na dedução de percepções que erradamente tomamos como factos anedódicos para o momento, pois vive em nós um tipo de amor que não é sentido com o devido paladar. A pressa é para amar, a pressa é para preencher lacunas, tristezas, feridas que urgem serem tapadas. O looping relacional que fazemos e temos deduzimos como "aprendizagem", conceito embrionário de suposta dedução sábia de quem na verdade nada sabe nada de amor. 

E só não sabe porque o tempo de paragem na box para abastecer emocionalmente, crescer conscientemente com quem é, o que é, como é e que passo a dar a seguir é substituído pelo eterno deslumbre e sistemático chamado: Insatisfação. A cura da insatisfação está no confronto que tantos se escondem e que é necessário ter com a aceitação de quem o próprio é , se deduz e vê perante si mesmo. 

Indo ao meu bloco de notas de memórias, ao meu baú de relações e tentando perceber estes conceitos inebriantes de casos, de namoros, de traições, de juras de fidelidade, de conceitos de honradez, de carácter, de personalidades diversas, de manipulações, de investidas falhadas, de investimentos sem retorno, de conceitos de moral e ética de uns e outros, de mim mesmo, de redes de namoros, amantes, amores ganhos e perdidos. Perco-me em mim mesmo na tentativa de perceber o verdadeiro conceito que sempre tive para mim como necessário para uma vida a dois .

Existe uma artificialidade que muitas vezes é difícil de lidar e captar até pela rapidez com que as relações andam de um lado para o outro. Hoje existe uma tremenda falta de intencionalidade para...pensar e repensar. 

Desencantamo-nos com tudo e todos muitas vezes por meros caprichos nossos. Ou não gostamos da forma como fala, como anda, como beija, como se comporta em público. Nao gostamos do jeito que agarra, se tem pegada ou não, se faz a coisa certa ou incerta. Desiludimo-nos e no que toca a amor, somos muito superficiais. Somos uma sociedade do espétaculo e para o espectáculo. Um circo de amores e desamores.

Cresce uma onda de impaciência no que toca ao conceito de amar. Hoje temos um botão de "On" e "Off" mais facilitado. Rapidamente saltamos de uma relação para outra, fazendo sempre querer a nós mesmos que nada mais será como antes. Na prática o resultado do que somos está sempre lá. Viajamos com a mesma intensidade e pressa tanto como amamos e nos desprendemos.

Acho graça quando no resultado do término de uma relação a frase que mais escuto é: Agora é partir para outro (a).


Eu tenho sempre definido para mim: Agora é partir para mim. Sempre percebi a velocidade com que os namoros correm, sempre ouvi, depreendi o que cada pessoa desejava para si, muito acima do que seria o desejável para o conjunto em si. 


O que acontece entre o que eu quero e o que a minha parceira quer é que à parte das devidas afinidades emocionais existe duas que são o expoente máximo de todas as relações. Segurança e liberdade. Uma como diria Zigmund Bauman não vive sem a outra. Não quer dizer que seja impossível encontrar este paralelo entre um par. O problema não reside no "encontrar". O problema reside em como cada um define o que é segurança e liberdade e como se aceita perante o caos tantas vezes instalado e luta para que esse amor dê certo.

Não é dos contos de fadas que nascem grandes amores...e também não é do caos que morrem todos. Caminhamos sempre de mão dada com inúmeras faces. As supostas face da salvação e engrandecimento interior.

Esquecemo-nos e isso sim de caminhar de mão dada com o nosso espelho e enquanto assim for veremos sempre a salvação no outro e nunca no nosso eu. 







2 comentários:

Claudia Dias disse...

"Eu tenho sempre definido para mim: Agora é partir para mim." - mais nada!!!
Eu parti para mim, e agora encontrei um par que me dá segurança e liberdade.

Bruno Fernandes disse...

Sem dúvida Cláudia! E é assim mesmo que tem de ser!