terça-feira, 29 de março de 2016

A MEMÓRIA É O ESPELHO ONDE OBSERVAMOS OS AUSENTES


"A MEMÓRIA É O ESPELHO ONDE OBSERVAMOS OS AUSENTES."

Alguém disse e parafraseando o mesmo que : O ontem é história, o amanhã um mistério e o hoje é uma dádiva. Tantos momentos na nossa vida que hoje não mais podemos fazer presentes. Pessoas, relacionamentos, momentos. Alegrias, tristezas andam de mão dada a vida toda. Pelo menos até a um último suspiro nosso. Esse então sim, será o nosso último sopro de vida. 

Tantos momentos únicos e tantas vezes queremos que os mesmos durem para sempre. Sejam perfeitamente eternos. Cronologicamente vamos tentando entender, quem, como e porquê, entrou e saiu da nossa vida. As nossas acções, as acções de outros. Colegas de escola, companheiros de trabalho, paixões, família, gentes do mundo, viagens, caras diferenciadas, companhias momentâneas. A durabilidade das sensações passam de pessoas para pessoas, de conexão em conexão. Entregamo-nos uns aos outros de variadas formas. 

Perdemos o rasto de uns, voltamos a ganhar de outros. De sentido em sentido, caminho em caminho, vamos guardando no nosso baú todas as pessoas. O que hoje foi...amanhã já não será. Porque tudo é diferente, porque tudo gira, tudo se recicla, porque tudo é efémero e no entanto, tudo é vida, tudo é lembrança, tudo é um momento.

Há momentos que gostaríamos de trazer para o nosso presente. Mas às vezes olhamos para trás e vemos a enorme dificuldade que temos em fazer presente o que não se encontra mais no presente. Aborrecimentos, dificuldades, caminhos escolhidos que podiam ter sido marcados de outras formas, com outros conceitos, atitudes. Quem se perdeu, o que se perdeu, porque se perdeu? Onde paira cada face? De quem me lembro e quem se lembrará de mim? E assim que a morte chegar? Teremos tempo para desculpas? Para o perdão de nós para os outros e dos outros para nós?

Projeto as memórias na parede da minha casa. Percorro ao mais ínfimo pormenor todas as sensações. Os risos, os beijos, o toque, os sentidos, as conversas, as ilusões e desilusões. As alegrias, as viagens, as tristezas. Os abraços, as promessas, as falhas.  Os amores retalhados, os amores vibrantes e desinibidos. As paixões momentâneas, o sentido de dar, estar, desejar e receber.

As vitórias alcançadas, as derrotas proscritas. Em cada ponto procuro reparar todas as más decisões. Mas confesso, já não consigo. Já foi o tempo que o tempo não me deu e eu nada quis com ele. O que podíamos ter salvo e não salvamos? Os vidros quebrados que já não podemos mais colar. Os olhares trocados, amados, sentidos. As longas juras de amores eternos, esses então já mortos...jazem na memória. Alguém grita: Já não está! Já não vive...alguém garantiu que o presente já não volta mais atrás. 

Vai-se trazendo os ausentes para a memória da vida, tentando ainda que façam parte do nosso dia a dia. Que se façam presentes. Passeio com as minhas memórias pelas ruas. Lugares, cheiros, recantos, encontros e desencontros. E pergunto sempre: Lembras-te? Névoas sobrevoam a minha memória. Já não são mais pessoas, são apenas fantasmas de pessoas. 

Criam-se conversas fictícias, procuramos pela presença de quem se fez presente em algum momento. Olhamos em redor tentando encontrar todos os pedaços que façam presente aquele que presente foi e não mais está. 

Esboçamos sorrisos tímidos. Percebemos pois...que de presente, nada mais existe do que a mera ausência. O dia de ontem que parecia durar para sempre já não existe mais. As semanas de repente transformam-se em anos. Alguém me pergunta:

-Lembras-te?
-Sim, nitidamente ainda...
-Porque és feito de memórias...
-Não! Porque sou feito de amor...


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