quarta-feira, 9 de março de 2016

PAIS CEGOS OU ADOLESCENTES SURDOS?


Ás vezes descia a rua e ia ao prédio ao lado chamar pelos meus amigos. Ficávamos na rua a jogar à bola, com os pais sempre atentos de vez em vez à janela. Hora de jantar, lá gritavam eles para irmos comer. Sujos, cansados, transpirados,  lá íamos de sorriso largo subindo as escadas apressados. Debatíamos, conversávamos até altas horas sempre ali por perto de casa. Também passamos pelos primeiros cigarros, as primeiras passas, os primeiros beijos. Os pequenos problemas de uns e outros.

Nós não tínhamos facebook, whatsapp, instagram, e sinceramente...ainda bem! Apenas um computador para jogos entre amigos, fosse um jogo de carros ou o "Fifa 98"ou até o famoso "Prince of Persia".  Ficávamos em casa uns dos outros, às vezes até altas horas a ver filmes ou de troca de olhares com as "pitinhas" das janelas da frente. Éramos tímidos e ousados. educados e brincalhões, malandros e foliões. Fizemos de tudo e mais alguma coisa, de várias experiências, de todas as cores e sabores. 

Havia um respeito diferente, uma forma de estar totalmente oposta ao que existe hoje. Lembro-me de irmos às matinés à tarde dançar e ouvir música. Todos aperaltados com as roupas que hoje passaram de moda. Altura houve que chegou a época das motos, todos tinham que ter uma moto. Andávamos para todos o lado, deitávamos olhares às miúdas, troca de bilhetinhos, cartas que escrevíamos, férias juntos e os namoros ou curtes eram conversas e temas para horas e dias a fio. 

Os tempos hoje são outros. Existe uma nova aldeia global que liga e interliga todos e mais alguns. Não se vê ninguém na rua a brincar ou a jogar à bola. Ruas inteiras em silêncio. Ruas inteiras vazias, janelas cheias de luzes, reflexos que se esbatem e saem dos ecrãs dos computadores. Está tudo interligado. 

Perdeu-se a bola, o jogo das escondidas, apanhada e substituiu-se por  Tablets,  Iphode, Iphone, os androids, os facebooks, os whatsapp, os instagram e afins. Perderam-se os álbuns de fotos, substituiu-se por emails, partilhas, dropbox, Icloud e tantos outros. A tecnologia absorveu a juventude e ela abriu os braços a esta nova magia tecnológica sem saber no verdadeiro "Matrix" que se envolveu.

Perdeu-se o conjunto familiar e substitui-se pelos grupos de Skype, grupos de Whatsapp. Não há tempo para ficar muito na conversa com os pais ou família. Fala-se rápido, decide-se rápido, estuda-se a correr. É urgente estar presente a determinada hora em frente a um ecrã. As selfies, os likes passaram a ser as novas armas de comunicação. Tornou-se tudo mais facilitado. Arrumar amigos, tirar amigos, falar com uns e outros instantaneamente.

Passaram a viver os problemas de uns e outros, alegrias e tristezas de uma forma estonteante e assustadora. Mais problemáticos os adolescentes de hoje, menos estudiosos, mais descompensados familiarmente, ainda mais munidos de armas de aprendizagem e apoio, mas muito mais preguiçosos. Noticias nos últimos anos de pais e pais que vão às escolas bater nos professores, mais alunos expulsos das salas de aula ( cresceu nos últimos 5 anos exponencialmente), alunos que batem em professores, que se viram aos pais. O mundo andou tão depressa tecnologicamente que perdeu-se o pensamento lógico e racional. Ficaram todos substituídos por chips viciados na desordem.

Os pais esses com crises, traições, desemprego, confusões optaram ainda que indiretamente servir de bandeja aos filhos as novas "prendas" tecnológicas. Esqueceram-se do seu papel de educar, de responsabilizar, de atitude, de amor, carinho e cumplicidade. A tecnologia acabou por criar também novos pequenos "monstrinhos" mal educados, mal formados, desrespeitosos. 

Há mais miúdos doentes, stressados, viciados, perdidos numa rede de doença viciante tecnológica. Não há tempo para ler, apenas para frases e contextos rápidos. Há uma maior taxa de suicido hoje nos adolescentes. A imagem, o estar sempre no top, o reconhecimento, o desejo de ser ouvido faz dos progressos tecnológicos também os seus mesmos cruéis assassinos. Namoros rápidos, acesso rápido a todo o tipo de informação. Baralhados entre o real e  o irreal. 

Não existe a ideia do ser e sim do querer sem ser.  Estão mais educados tecnologicamente e menos educados culturalmente.  É a geração dos três "Não" - "Não tenho tempo", do "Não quero ouvir", "Não sabes o que dizes". É a geração que pensa que sabe tudo e não precisa de nada. Google, noticias, blogs, vídeos, transformaram esta geração em falsos "Einsteins". 

Oitenta por cento desta geração não vai dar em porra nenhuma. O futuro de hoje vão ser os anarquistas e destruidores do amanhã. Tem dúvidas? Eu não tenho nenhumas. Só 10/15% deles irão marcar a diferença. Mas vem aí novos corruptos, assaltantes, assassinos, ditadores, ladrões, falsos profetas, pedófilos e afins. Tem dúvidas? Eu não! Nós supostamente seríamos ontem o futuro de hoje. Os padres pedófilos eram aquelas criancinhas lindas e fofas que iam marcar a diferença. Mães e pais que falavam: " O meu filho vai ser especial" - "Sim, foi especial a furar a bunda do outro em nome de Cristo!" Falamos todos, queremos todos, mas o caminho fazem eles.

E acreditem, maior parte das criancinhas que pegam ao colo orgulhosos pelos filhotes lindos, vão ser uns autênticos lobos e lobas que o mundo dispensa. Os senhores do Estado Islâmico eram as criancinhas do futuro...os soldados ( milhões) de Hitler eram os meninos do futuro da nação.  Portanto olhem bem para os vossos filhos...podem estar a olhar para um futuro pedófilo, serial killer, lunático, corrupto...

Na verdade sobrevaloriza-se em demasia os filhos. Pais que dão tudo na esperança que estejam a fazer o melhor. Só estragam os filhos com demasiada protecção. George Carlin dizia: " O que me chateia nesta geração é as crianças. Salvem as crianças, protegam as crianças, mas na verdade o que eu digo é: Fodam-se as crianças! Elas que se fodam!" -  E na verdade o que ele queria dizer com isto? 

Os pais passaram a exigir tanto das crianças, a proteger tanto as crianças que não deixam que o circulo natural da vida, a natureza, a lei do mais fortes, dos mais aptos possa vir ao de cima e correr o seu curso natural.

Não deixam por nada, seguir o ciclo. Por receio, por medo,pela exigência tremenda num mundo selvagem de intensa luta. Os pais passaram a armar os seus filhos de todas as formas e a tentar transformá-los nos melhores em tudo. Escolas de dança, guitarra, teatro, violino, hip-hop, pintura, escrita,  tudo e mais alguma coisa. Não podem levantar um dedo que o filho já passa a ser o possível novo Picasso. Protecção e sobrevalorização em demasia.  os miúdos estão amaricados, porque os pais os metem amaricados. Assustados com tudo o que se passa, sem noção da dura realidade do que é cair e fazer sangue. 


Hoje há psicólogos para tudo, terapeutas de traumas na tentativa de ajudar a miudagem a ultrapassar situações. A forma da minha mãe me fazer ultrapassar traumas era só mostrar o cinto e dizer: " Alguém vai saber o que é verdadeiramente sofrer.." Passava-me logo os traumas, até ia para a escola a cantar: "Paradise City" dos Guns and Roses. Hoje qualquer coisa é motivo de quebra emocional nos adolescentes e isso é assustador. Tremendamente assustados ficam totalmente mal preparados para o que se avizinha de futuro. 

Perdeu-se o Professor Pardal, o Tio Patinhas, o Mickey, a Margarida ou o He-Man versus Skelator. Ganhou-se o Justin Bieber, a Miley Cyrus a meter a mão no pito, com o dedo do meio levantado a fazer vibrar um público que acha esta rebeldia o novo conceito de mandar tudo às malvas. Toda a animação passou a ter outro sentido para esta nova geração. Eu sei...momentos diferentes no tempo.  Geração da imagem, dos ídolos, da asneirada, da falta de educação, da futilidade.

É uma geração mais fútil do que era a minha com toda a certeza e mais desorganizada emocionalmente! É uma geração que já nasce desgastada, desequilibrada emocionalmente, desestruturada e despreparada para a selva da vida. A força do progresso, de entender, procurar e interagir com todas as novidades. Tive-as e tivemos à nossa maneira no nosso tempo. Ainda assim não trocava nada do que tive no meu tempo por todas as novidades de hoje. Nada! 

A aldeia global tecnológica aproximou ainda mais uns dos outros, mas assassinou a arte de brincar. Saber brincar, estar, correr, fazer, entender. A arte de viver de ar puro, de risos plenos, de sentido de vida e sabor do vento. 

Perderam-se as meninas e meninos, as crianças. Roubaram a verdadeira identidade do ato de ser jovem. Tornaram-se todos robotizados, mecanizados, cyborgs desta nova geração.

Ainda assim...tento da minha parte no que me toca como pai fazer com que no meio de tantas dificuldades que vão surgindo que ela possa e deseje fazer parte da diferença seja no mundo dela, seja no mundo dos outros. Digo-lhe muitas vezes uma frase em tantas conversas que tenho com ela que diz: " Viver é enfrentar um problema atrás do outro. O modo como você o encara é que faz a diferença." E é apenas isto...a forma como encaras tudo e marcas a diferença com amor, respeito e carinho. Para conseguir ser...é preciso saber ser.








Um comentário:

Claudia Dias disse...

Ora bem... que dizer a isto?
Concordo com muitas coisas que dizes mas não com a ideia geral do "a minha geração é melhor que a de hoje". Sempre que leio textos deste género, com aquela entoação de "no meu tempo é que era", penso sempre.....mas no nosso tempo é que era, sempre! Achas que a geração dos teus pais não pensavam o mesmo que a tua? E a dos avós não pensavam que a geração dos teus pais não prestava para nada?!
Acho que todas as gerações têm coisas melhores e piores que a anterior, e não podemos fazer este tipo de generalizações, de que todos os miúdos de hoje em dia só sabem dizer swag e gostar da miley cirus. Trabalho com jovens e posso dizer-te que sim, há muitos assim (e agarrados ao Facebook e Instagram - mas também nós adultos! Por isso quem somos nós para criticar?), mas há também muitos que não são assim. :)