AINDA QUE NÃO TENHAS TEMPO EU ESTAREI SEMPRE AQUI



"Desculpa , mas agora não posso, estou sem tempo para isso!"

Há uns anos atrás num dos fins de semana, que a minha filha veio para minha casa, em determinado momento quis brincar comigo dizendo: "Papá vem brincar comigo" disse-lhe esta frase: " Não tenho tempo agora!" Embrulhado nas minhas coisas, distraído entre conversas e emoções fortes remeti-me ao meu egoísmo. Entre o quarto e a sala a distância era pequena.

Ao fundo sentada, aquela menina com uns 4 anos, brincava com uns legos, enquanto as lágrimas lhe escorriam pela cara, numa profunda tristeza que eu nunca tinha visto nela. Eu não tinha tido tempo para ela e tinha o tempo todo do mundo para mim.

Nesses segundos em que olhei para ela e nesse desejo de amor de partilha comigo, querendo contar com a minha presença perto dela, respondi com um total egoísmo. Apercebi-me do erro rapidamente. Sentei-me ao lado dela, limpei-lhe as lágrimas, pedi desculpa e aquele abraço tão sentido que me deu, jamais esqueci até hoje.

Isto tudo para dizer que o nosso tempo muitas vezes é mal utilizado. Crivados de trabalhos, estudos, amigos, família, gostos pessoais, algumas preguiça tantas vezes existencial, acabamos por nos esquecer de pequenos gestos. Um abraço sentido, a atenção dada a alguém que naquele momento necessite, um telefonema, uma palavra sentida, um ouvido apurado, uma perceção diferente é sempre necessário para que se combata também da melhor forma o nosso egoísmo.

O “Desculpa não posso, estou sem tempo para isso” fui ouvindo ao longo dos anos de diversas pessoas e que contrapõe com o “Quero todo o tempo do mundo para mim.” Os que eu chamo de “Sugadores de energias”.

Mal se lembram de ti, mas ligam-te, encontram-se contigo para debitar toda a energia negativa. Tão negativa que entras feliz na conversa e sais de rastos com a energia que te retiraram. E quando tentas falar de ti ou contar algo que possa ter acontecido, logo estabelecem um parâmetro parecido com o deles e voltam à carga, falando deles.

Há coisas que deduzo que as pessoas não se tocam na realidade. Tenho algumas amigas com as quais vou falando aqui e ali sobre vários assuntos. Já tinha percebi há algum tempo que quando estão muito aflitas ligam a debitar tudo, a pedir uma opinião. A opinião é dada, escuto pacientemente e está feito. Depois passam muitas vezes dias, semanas sem dizer nada. E quando o telefone toca…lá vem mais do mesmo:

-Bruno!?Oi!!! Tudo bem? Como é que estás!?
-Tudo bem…e tu?
-Aii amigo…nem te conto…

(Pronto…vai começar…)

Às vezes dá-me vontade de dizer: Desculpa, mas estou sem tempo para isso!

Mas não…infelizmente ou felizmente prometi que nunca mais iria não ter tempo para ninguém. Percebi que mesmo sugando energias, mesmo que eu não tivesse retorno nenhum, fosse de amizade contínua, de presença, de um amparo, que eu mesmo não podia desistir de escutar, de ouvir, de me fundir também nas dores dos outros. Fico de rastos às vezes, sem soluções a dar. Mas humanizar o meu egoísmo, educar o meu sofrimento, actuar como um pólo de equilibro com todos transforma a tua visão. Que os outros se utilizem de ti não é importante. Nunca foi e nunca será. Importante é como tu passas a ser um foco de importância para os outros.

Não sou médico emocional de ninguém, mas aprendi a ser enfermeiro de algumas feridas. Feridos, medos, receios, sofrimentos que já passei fazem com que outros que não tendo passado por isso busquem uma via de entendimento para si também em como ultrapassar os mesmos. Eu não sou essa via. Eu não sou esse caminho, não possuo na manga nenhum pó mágico de alteração de vidas ou visões. Ainda assim há particularidades em mim que ajudam a alterar alguns conceitos, que muitas vezes entendo estão completamente estagnados nos outros. 

Sempre percebi que as pessoas se enrolam nos seus próprios tempos. Não param para refletir, pensar e vivem numa ânsia de fazer do tempo uma corrida desenfreada de aproveitamento do mesmo, antes que a morte possa bater à porta. Enrolam-se em relações, loopings de vidas e conceitos que baralham profundamente a sua própria existência. Noto e entendo que tantas e tantos existem sem saber realmente o que são e quem são. 

Falando em tempo, uma amiga ligou-me há poucos dias e dizia:

-Desculpa Bruno, não te tenho dado muita atenção e tu dás-me sempre a mim...

-Não precisas de pedir desculpa…

-Claro que preciso! Tu ouves-me sempre…e eu nunca te dou o devido crédito no que sentes ou possas estar a passar. Não é justo!

-Amiga…a cruz que eu possa carregar no ato de te ouvir a ti ou a outra, comparado com a cruz que o outro carregou…eu não carrego nada. Não sou justo tantas vezes para mim, como poderás dizer que és injusta comigo? Quando na verdade somos injustos com todos?

-É o tempo Bruno…o tempo não nos dá margem de manobra. Ando cheia de coisas.

-O tempo consome-te...mas o amor relembra-te da existência dos outros...

-E ainda assim, falho contigo...

-Não amiga...não falhas.

-Porquê?

-Ninguém falha na lembrança do outro...

-Mas só me lembro de ti quando em acontece algo ou preciso de algo...

-Ótimo!

-Ótimo?? Como assim?

-Por te lembrares de mim...

-Mas não é o tempo que precisas da forma que te devia dar.

-Enganas-te! Não é do teu tempo que me alimento. É do amor da tua lembrança.









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