sexta-feira, 1 de abril de 2016

O MEU PASSADO É TUDO O QUANTO NÃO CONSEGUI SER.


"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto." - Fernando Pessoa

Não poderia de forma nenhuma não deixar de subscrever o eterno e saudoso Fernando Pessoa. Ao recordar-me do passado lembro-me essencialmente dos caminho que me levaram até ao que sou hoje. O que foi e já não é, não deixa de ser irremediavelmente redutor. Muitas vezes surgem os questionamentos dos porquês. Porque é que  foi assim? Porque não fiz de outra forma? Pensamos sempre que há tempo. Mas passado esse mesmo tempo, tempo é coisas que não existe, quando delineamos objetivos e brincamos com o tempo. O tempo não tem pena de nós, não se compadece connosco.  Quando era mais novo tinha dois grandes objetivos: O primeiro era ser piloto da força aérea. O outro seria entrar na universidade, fazer o curso de relações internacionais. Pasme-se que ainda em determinado momento quis ir para o seminário, para seguir a carreira de padre. Padre...cada vez que penso nisso hoje, digo em voz alta: Really?

Nenhuma das coisas fiz. Profissões, empregos, relações, algumas más decisões e outras a velha máxima do "Há tempo!". De namorada em namorada, fui fazendo juras de amor. Aquela que foi, seria sempre aquele amor eterno. Que já não é mais. As namoradas que tive foram sempre o desejo de outro homem, amores iludidos, líquidos, desmembrados e refletidos na ilusão. Ainda assim...amores! Há uma hierarquia emocional, de aprendizagem, de estrutura mental que define de uns para outros o que realmente se viveu, aprendeu e caracteriza o nosso eu. O que está lá atrás, terá sempre de ficar, jamais se perde. O quero esquecer, quero tirar na vida, não quero pensar mais, são apenas frases ilusórias de quem tudo pensa e tudo vive, ainda que esteja tudo morto.

As sensações que desejávamos sentir, não sentimos mais. Outros sentiram, outros vivenciaram, outros viveram de outras formas e nós também. Nós carregamos um passado como um tronco pesadíssimo tantas vezes. Lutamos bravamente dia após dia para nos centrarmos no presente. Carregamos essa ideia do que foi e já não é, e do que poderia ter sido. Ninguém nasce com um manual de instruções de como se comportar em diversas situações. De como fazer as escolhas certas ou que faça bater certo de acordo com os desígnios pensados. De como subir sem cair. De como rir sem nunca chorar. De como escolher a nossa cara metade e ficar com ela,  sem ter de passar por outras relações desastrosas tantas vezes mas totalmente válidas em tantos sentidos para a construção de quem somos. Não ter de passar pela mágoa, tristeza, infortúnios, traições, mentiras, apegos desnecessários, sensações que cada um teve para si como forma de colmatar sofrimentos. E na realidade às vezes pergunto-me: Que raio de sofrimento às vezes pensamos nós que passamos? Fiquei à fome? Sem casa? Sem cama? Sem amigos? Fiquei sem amor?  Carinho? Abraços ou beijos? Tudo tive! Essa é o principal segurança interior que carrego de fazer para ter e de ter tido, exatamente por ter feito.  Não tive tudo! Mas alguém terá sempre tido tudo?

O passado é uma escrita necessária. É um livro pelo qual te reges no que aprendeste, de forma a não cometeres os mesmos dissabores. E são tantas as vezes que ainda assim nos perdemos nesses loopings de erros. Na verdade somos como as crianças, temos de aprender mais de uma vez, para perceber o conceito da verdadeira essência do erro. Eu adoro o meu passado. Tive amigos, companhias, namoradas, amizades fantásticas. Foram um suporte em muitos momentos. Viajei, diverti-me, conheci inúmeras caras, internacionalizei o meu espírito, o meu saber, o meu conceito de vida e percepção de realidade diferenciadas de tantos outros, como os mesmos de mim.

Erros? Cometi tantos! Deixei tanta coisa por fazer! Mas não era suposto fazer parte? Não era suposto aprender a ser humano, crescer num corpo e espírito sem nenhum manual de instruções? E continuamos a correr, a sonhar, a desejar, a experenciar, porque o momento é exatamente este. O que fazes hoje é o mais importante do que aquilo que fizeste ontem. Ontem já morreste em muitos aspectos. Vives no exato momento, sem saber se este dia virá a ser o teu último dia. E sendo assim...o teu último momento. 


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