quinta-feira, 12 de maio de 2016

BRUNO - O MENINO QUE TINHA DE ENTENDER....




Fiz exatamente 40 anos em dezembro do ano passado. A idade dos 40 para mim foi o momento em que o tempo parou. Fiz praticamente metade de um século. Costumo dizer que a partir dos 40 é como se fossemos ao encontro da morte. Não que antes não pensássemos nisso. 

Mas, torna-se ainda mais evidente quanto percebemos que nos aproximamos de uma idade que não nos permite fazer certas coisas que estão para trás e que fazíamos e numa idade que percebemos que começamos a ser de certa forma descartáveis. Seja para empregos, seja amores, seja os conceitos diferenciados onde não nos enquadramos mais. 

É uma idade que começas a perceber que não tens mais nada a perder. Não engoles mais sapos, não te subjugas mais, não tens mais paciência para imaturidades, para estar à mercê de patrões idiotas, de gente que só pensa em lucro e que lucra tantas vezes à tua custa. É uma idade que começas a pensar: " Quero é que se foda, não tendo necessariamente que se foder tudo. Mas a tua paciência percebes, já não é mais a mesma. 

Há um cansaço emocional de uma vida tantas vezes dura e sofrível. Durante este 40 anos, conheci e vivenciei todo o tipo de histórias de vida. Conheci todo o tipo de conceito de vida. De formas, estratégias, momentos, estruturas, sonhos, objetivos, fui ouvinte, dei-me a conhecer e fui conhecendo os meandros, tanto das alegrias como sofrimentos inerentes ao meu crescimento e ao dos outros.

Durante mais de 13 anos vivi em pensões com a minha mãe. O andar onde vivi tinha 12 quartos, cada um deles com todo o tipo de família que se possa imaginar. Privei com indianos, chineses, africanos, portugueses. Num único corredor em cada uma das 12 portas existia um historia intensa de vida. Retornados do ultramar, pessoas acabadas de chegar para tentar uma nova vida de países diferentes . Pude vivenciar de perto partilha de alegrias, como imensas dores, tristezas, sofrimentos, desesperos.

Naquele quarto, o quarto número 8 vivia uma mãe com o seu filho. Um quarto pequeno, com uma cama, uma pequena televisão ainda a preto e branco e ao canto do quarto um pequeno fogão eléctrico para fazer pequenas doses de comida.  

Em 13 anos presenciei todo o tipo de momentos,  todo o tipo de situações que se possa imaginar. Desde o meu 1º ano de vida até aos meus 13 anos formei na verdade a minha identidade. A minha mãe dizia-me sempre: Não quero que estudes para ser médico ou advogado. Antes de tudo quero que entendas...

E eu perguntava-me sempre: "Entender o que?? Mas não tenho de estudar??" 

Naqueles 13 longos anos, desde violência entre vizinhos que não se suportavam, pessoas alcoolizadas, geradores de problemas entre as diversas culturas naquele andar, desde o primeiro grande amigo que com 3 anos caiu de um 4º andar para a morte, desde semana sim e semana não com queixas para a polícia, era um verdadeiro inferno às vezes viver naquele andar. 

Vivenciei tentativas de suicídio, gente desesperada com a vida de faca na mão a tentar acabar com a sua própria vida, com os seus sonhos. Gente perdida de amores não correspondidos, pessoas solitárias agarradas num quarto apenas à espera de uma morte anunciada para elas. Mas eu tinha de entender, tinha de perceber...

Naqueles 12 quartos ouvi tantas histórias, vivenciei também, bons momentos, sorrisos, alegrias. Era o menino que corria de quarto em quarto à procura de uma alegria, de uma história, de um abraço. Procurava uma mãe, um pai, um tio, um avô em tantas faces, algo que me pudesse abraçar em momentos de maior solidão e aperto. Porque eu tinha de entender, tinha de perceber...

-Lá vem o "meu" Bruninho! - Diziam os vizinhos dos quartos. Pequenino corria sempre alegre de um lado para o outro, de porta em porta. Era um menino educado, simpático, sempre de sorriso largo. Todos me recebiam bem. Lá vem o filho da Dona Fátima. 

Todas aquelas famílias me adotavam como o "seu" menino. A minha mãe chegava cansada do trabalho e perguntava sempre: " O que aprendes-te hoje?". Para além da escola e deveres, o mais importante para ela era saber como eu lidava emocionalmente com tudo. Ela queria saber todas as histórias, o que eu pensava. Tudo detalhadamente. Ao contrário do que se possa pensar, eu não tive uma infância péssima ou má. Não sofri abusos, maus tratos ou era considerado alguma espécie de criança de risco. 

Se estava alegre perguntava sempre, o que me tinha alegrado e como me sentia com isso. Se estava triste tinha de dissecar  e transpor cá para fora os meus sentimentos. Ela era um verdadeiro guru emocional comigo. Tirava de mim o melhor e dava o melhor dela para que eu não olhasse apenas, mas soubesse olhar. Isto nunca me esqueci. Não basta olhar...há que saber olhar. 

Eu não sei se conseguem imaginar o que é viver numa pensão anos a fio. Talvez não consigam. Não sendo a mesma coisa, imaginem viver num hostel durante 13 anos.

A primeira vez que vi um apartamento com 2 quartos, cozinha, sala, casa de banho, já com os 14 anos, fiquei maravilhado. Chorei de alegria por ver aquilo que hoje achamos tão banal. Era o meu palácio. O meu castelo. Mas o meu primeiro pensamento não foi para a casa em si. E sim, para todos aqueles que continuaram a viver num quarto apenas. Alguns quartos tinham 5/6 pessoas, famílias num pequeno cubículo. Nem eu me achava merecedor de uma casa tão grande.

Quarenta anos não me deram nenhuma profissão abastada tal como a minha mãe previra, não conquistei nada demais. Não que ela não quisesse ver o filhote dela de bem na vida, mas o conceito primordial que acatei foi dedicar-me profissionalmente ao mundo dos sentimentos. Das cores, sabores, formas.

Não tenho heranças, carros, dinheiro na conta, poupanças reforma, seja o que for. Se morresse hoje nada de nada deixaria. Já fui acusado de não ter nada. Até por ex namoradas de ser um "Pé rapado".

E uma profissão? E estudos? E dinheiro? E estrutura? E segurança para o futuro? Calma, antes que pensem que sou algum tipo de anarquista que vive debaixo da ponte, não é assim. Trabalho, tenho casa, carro, uma filha. Ainda assim, tenho uma casa humilde, carro velho  e antigo e uma filha absolutamente fantástica.

Ás vezes olho para o alto e penso que não tendo sido reservado para mim todas as alegrias e equilibrios, estruturas necessários, o que ganhei eu nestes 40 anos? Que conquistas? Será que poderia dizer a uma mãe: Entendo perfeitamente....hoje entendo?

Claro que hoje entendo. Não comprei as melhores casas, mas vivi nas melhores casas, não tive os melhores carros, mas guiei os melhores carros. Não tive a melhor profissão, mas trabalhei nas melhores empresas.

Tive e conheci os melhores amigos, tive as mais fantásticas namoradas, viajei por três continentes, conheci inúmeras pessoas,culturas, levei comigo o meu legado emocional e mesmo não tendo impressionado as pessoas seja com o meu charme, com uma carteira recheada, com algum tipo de status, na frase daquela senhora que ainda pequeno me dizia: "Quero que entendas...", hoje entendo na perfeição. 

Quando alguma amiga me telefona ou amigo, mesmo que por trás nada saibam do meu passado ou vida o que mais me dá prazer é ouvir do outro lado:

-Preciso de falar contigo, só tu me consegues entender.

E quando me perguntam hoje:

-O que ainda desejas ser?
-Mais humano do que fui ontem...
-Esse é o teu objetivo de vida?
-É a minha vida...com um objetivo.






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