terça-feira, 3 de maio de 2016

MANTA DE RETALHOS




Há poucos minutos uma amiga ligou-me a chorar. Perguntei o que se passava, porque estava assim.
-Nada dá certo Bruno.
Todo o resto da história percebi e vivi como se fosse a minha. Peço desculpa pela indelicadeza, na tentativa de entrar no mundo do outro, mas é a minha forma de estar. Estar é vivenciar tanto do que já passamos e sabemos. Todos os sorrisos, alegrias, tristezas, lutas, vitórias e derrotas. Formamos pois através das vicissitudes da vida uma manta intensa e cheia de retalhos, recheada em cada cor das mais diversas histórias.
É a minha manta mágica. É desta manta, deste meu santo graal que bebo o que sei, que estendo a mão para aqueles que menos afortunados com a sua manta, ainda pouco trabalhada, que tento indicar que tipo de cor usar nessa linha da vida.

Ahhh...desculpem pela indelicadeza, não tento mostrar que sou sábio ou que possuo todas as respostas para as mais diversas perguntas. Toca-me e sentes o que eu sinto? Talvez não. Toca-me e vês o que eu vejo? Talvez não. Como poderás saber não é?

Mas ouve-me...e se escutares com atenção talvez o teu coração possa sangrar como o meu e assim juntos, possamos encontrar soluções, caminhos, sorrisos e então sim....motivos.
Os meus retalhos, são os livros onde me agarro com unhas e dentes e os abro na tentativa de encontrar uma espécie de salvação para os outros. Que história queres? Que cor ou sabor me apraz servir-te? Ainda que não vejas todas as cores o meu quadro ainda é arte que em ti não mora.

Desculpa a indelicadeza....talvez possas presumir que temos caminhos diferenciados. Talvez possas achar que temos vivências diferentes, modos e estratégias delineadas opostas. É normal que assim seja. É natural que os percursos sejam dispares.

Ainda assim posso dizer-te ao ouvido que eu vejo, eu oiço e faço-me presente perante ti. Sempre! Ainda que seja sugado, subjugado a todas as incontingências da vida, terei forças sempre para dizer: " Em que posso ajudar?"

Desculpa a minha indelicadeza, talvez eu não seja quem mais necessites. Posso não ser quem mais desejavas, a cara, o abraço ou beijo que esperas. Mas no exato momento sou apenas tudo o que nos resta. Não só a ti, como a mim.

Desculpa a indelicadeza, não serei e nem sou a tua salvação. Que pertinência, persistência a minha em prestar-me a ouvir todos os dissabores da tua vida. Mas tenho necessidade de rasgar um pouco da cor da minha manta. Não fico mal. Não presto é vassalagem à tua tristeza. Troco o meu sorriso pelas tuas lágrimas.

Desculpa a presunção...e não te preocupes por me tirares do meu aconchego para ouvir as tuas suplicas. Eu não vivo de eternas alegrias e por isso mesmo suporto infindáveis tristezas. A minha manta é leve...mas espessa como ferro.

Sei que todos os meus livros, todos os escritos, diferem dos teus. Os meus passos, os teus passos podem encontrar-se em algum caminho, mas na sinistralidade de cada caminho, de cada lágrima derramada, dor incontida, amores perdidos, esperanças perdida ou marginalizadas, podes ter a certeza que estive lá contigo.

Nunca deste por mim e que ninguém se culpe, porque são tantas as vezes que realmente damos nos encontros e desencontros uns com os outros.

Perguntas-te sempre quando passas-te: "Estás bem?" Que bom seria que quanto a essa pergunta, que os olhos que vêem pudessem ser os ouvidos que se destapam. E com isso se pudesse ouvir e acreditar ferozmente num "ESTÁS BEM" recheado de vontade.

Desculpa a indelicadeza ou até mesmo pressupores que sei mais do que tantos. Não é isso. Não passará por isso. Passa apenas pela ideia de que a minha biblioteca de vivências, ser um mundo recheado de todo o tipo de sensações, dissabores, caminhos diversos.

Uma manta intensa de retalhos, trabalhada, definida em tantos pontos e indefinida ainda em tantas pontas soltas de pequenas doses de alinhamentos de linhas, cores e ornamentações.

-O que dizem os retalhos nessa tua manta?
-Em cada cor há uma história, cada linha um caminho e o conjunto...o seu livro.
-Sentes-te infeliz nessa manta?
-Inúmeras vezes...
-Porque não te desfazes de todos esses retalhos??
-Como me podes pedir uma linha...se não te puder dar uma cor?


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