sábado, 23 de julho de 2016

AMIGOS DE PLÁSTICO...


Aquela velha frase de que : "Nem sempre quem está do seu lado está com você", remete-nos, nisto das relações de amizade para determinados recantos que nos fazem pensar e repensar, em quem realmente podemos ou não confiar, com quem podemos ou não contar e quem finca o pé, para estar do nosso lado, preocupar-se e cuidar desse selo da amizade, tão importante nas relações que vamos criando.

Quem sabemos nós, que estará do nosso lado e em quem perceberemos nós que apenas situações, interesses falam mais alto para o momento, em que poderemos ou não servir de algum modo os mesmos interesses dessa mesma pessoa. 

Para mim não há diversos tipos de conotações a amizades. Há apenas os que são e os que importam ser e simplesmente os que não são e que naturalmente também não importam ser.

Ao longo dos anos fui conhecendo pessoas que foram ficando marcadas, foram se tornando necessárias e fomos crescendo sabendo que seja nas boas ou más ocasiões, nos maus momentos, nos excelentes momentos sempre dignificaram o sentido de de tornarem presentes, sendo e tornando-se parte de nós e das nossas dores como um só. 

De contrário já conheci. E na verdade as melhores pessoas que conheci foram nas piores fases da minha vida. Sabem, isto de fazer amigos quando tudo está bem e a vida corre às mil maravilhas, muitas vezes não passa apenas de uma ilusão satisfatória de amizades. Onde dizemos umas piadas, comemos em almoçaradas e jantaradas, divertimo-nos ao som de músicas inebriantes e vamos dando umas tapinhas nas costas dizendo " Epá és mesmo fixe!"

Este "Epá és mesmo fixe" serve apenas para consolo momentâneo, inebriados muitas vezes em jogos de interesses de toma lá, dá cá, vamos percebendo no rolo da vida a verdadeira concepção de amizade. 

Com o tempo foi percebendo onde se situa e como se situa um amigo. Aquele que te liga, aquele que se preocupa, aquele que se faz presente, aquele que chora e ri contigo. Aquele que move montanhas para te ver bem mesmo que estejas no teu pior momento. Aquele que tira de si para dar o que nunca tiveste. Aquele que personifica todo um sentimento de solidariedade, de paciência, de carinho, de amor, de sensibilidade. O simbolismo da amizade carrega em si todas as amarguras, intensidades, inerentes ao mesmo como razão principal de ser denominada como amizade.

E nisto reside também a conotação entre quem é e quem não é. Conheci muitos lobos em pele de cordeiro ao longo da minha vida. Aqueles que para proveito próprio procuram uma escapatória para si mesmos. Aqueles que fingem se compadecer com a tua dor, mas que arrumam as malas dos teus problemas e partem sem ti. 

Fui vendo ao longo do tempo as pessoas mais egoístas, mais centradas em si. O que conseguem conquistar, como podem conquistar, formas de se apoderar da tua amizade, do teu eu, para se deleitarem com concessões de proveito próprio criadas através da tuas boas vontades e acessibilidade como amigo momentâneo.

Há uns anos atrás tinha um amigo chefe de empresas, que esteve praticamente a perder tudo. Meu Deus...como ele tinha tudo. Amigos à volta, sorrisos a rodos, tapinhas nas costas, murmúrios ao ouvido do que pudesse fazer pelo outro face ao seu estatuto.  Em três tempos esteve quase a perder tudo. E nesse momento questionou-se num pequeno rol de amizades de infância: " Quem eram aqueles amigos??" Simplesmente não eram.

Vejam...maioritariamente as pessoas movem-se por interesses. Uns comuns, outros pessoais. Todos estes interesses tem como objetivo natural tirar algum proveito dessas mesmas amizades como forma de garantir ganhos momentaneos. Tal como no mundo empresarial e das negociatas, amigos do alheio nas relações também aparecem.

Fui ganhando a percepção ao longo do tempo com as relações que fui tendo. Algumas percebi que o interesse base não se posicionava totalmente em mim. Mas sim e muitas vezes o fato de servirem-se de mim para atingir fins pessoais, próprios. Fosse para magoar alguém, fosse para meter ciumes, fosse apenas para "uso" momentâneo ou habilidosa experimentação, como se de algum tipo de cobaia de uso cientifico eu próprio o fosse.

E é exatamente aqui que entramos no rol dos amigos do alheio. São os supostos amigos que vem pé ante pé, que face à sua própria dinâmica de vida, desejos, interesses, mudanças que queiram operar , procuram na energia do outro uma força mais ativa para os mesmos. Ou caírem em si e na sua própria realidade ou com isso darem o salto de Ipiranga.

Quando somos adultos temos uma facilidade muito grande de perdoar as crianças seja lá por o que quer que seja que possam fazer. Não há jogos de interesses, não há más disposições, não existem falsidades, não existe medo de errar. E é dentro dessa facilidade, desprovida de sentimentos de vinganças que aprendemos a olhar para o mundo, pessoas em redor com uma certa complacência também. E nesse mesmo sentido tentar ajuizar tudo à nossa volta com um olhar também complacente das coisas.

Muito raramente ou quase nunca, encontrei isso nas pessoas. As pessoas movem-se por vinganças estúpidas, juízos de valores errados, verdades invertidas, amuos, testas de ferro, amizades transformadas em inimizades. O diz que disse, o fez que não fez, as palavras trocadas, os dedos apontados, as feridas carregadas de dores, sangue, lágrimas que transformam as ditas pessoas em animais tantas vezes irracionais.  Os justiceiros incorruptíveis com as suas espadas da justiça que vergam amizades, ditam plenos poderes de sentenças de prisão em que as amizades são votadas ao abandono para sempre. E com isso não se perde só uma amizade, às vezes, perde-se isso sim, o conceito de saber ser amigo.

Te um amigo que se apresse a saber de ti, um amigo que se preocupe contigo, que te ligue nem que seja para dizer um disparate. Ter um amigo que se preste a ser o que muitas vezes nem tu és para ele (ela). Os amigos  não te dececionam, gritam, esperneiam, são chatos tantos vezes, dão-te a mão inúmeras vezes. Cais, levantas-te, e vês sempre aquele sorriso presente de " Calma...eu estou aqui". 

Nâo é fácil ser amigo. É preciso um conceito de amor de contextualização muitas vezes histórica da tua vida, do enredo dos teus pensamentos, do teu olhar para uma percepção perspicaz tanto daquilo que tu és como da simbiose, da fusão inerente aos dois, como forma de serem um só. É necessário ser-se presente não só pela presença em si, mas presente no ato de amar como pedra chave da necessidade que tu tens e sabes em poder contar com aquela pessoa. 

Não é fácil ser amigo, porque abarca em ti todas as forças necessárias para saber como contornar o mal, como o bem. Para saber que utilização podes ter para a salvação de um amigo, muitas vezes com um simples abraço ou sorriso. Não é simples ser-se amigo, porque não é fácil repartir-se felicidade. Não é fácil desejar-se que um tenha a mesma felicidade do outro. Invariavelmente vivemos de espasmos de egoísmos latentes. De mentiras, de omissões, muitas vezes regozijamo-nos da infelicidade do outro: " Bem feito..é merecido" pensamos talvez muitos de nós. 

Há uma frase que diz: A amizade não se busca, não se sonha, não se deseja...ela exerce-se...

E esta arte de exercer sistematicamente ( e eu por mim falo que sou falho nisso muitas vezes) é a maior prova de amor de uns pelos outros.

A amizade serve para quem está...mas não serve para quem na verdade nunca quis estar. Porque na realidade só quem é desprovido da arte da imbecilidade é que é capacitado para a arte da doação...e a doação muitas vezes carrega em si muito sofrimento, feridas, egocentrismos, vinganças, bem estar pessoal, que só é totalmente liberta com o verdadeiro significado da amizade e primazia ao principal fator que nos devia mover uns e outros como um só...o amor. 

E só não acontece tantas vezes...porque somos descrentes uns nos outros...

E sendo descrentes no nosso jardim plantamos apenas a ilusão de nos sentirmos aconchegados com flores de plástico...

E assim são tantas amizades...












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