segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A MALA


Sempre soube que  o bilhete da vida que compraram para nós, neste caso os nosso pais com a sua decisão de virmos ao mundo,  tem apenas um carimbo de ida e não de volta. Sempre tive desde muito novo a perfeita noção da finitude da vida, desta nossa temporalidade.

Não sabemos na verdade de quanto tempo dispomos. Sabemos que temos um relógio onde existe a praticidade do tempo para nós é quase sempre uma marca imortal. Mas não sabemos em que momento a pilha deste nosso relógio poderá, por fim marcar apenas o momento em que tudo cessará para nós. 

Pensar no último adeus, foi sempre o que mais me custou e custa. De certa forma desejaríamos, não diria viver eternamente, mas centro-me apenas no desejo de não morrer. 

Quando era mais pequeno e antes de ter conhecimento de todas as coisas, a minha mãe contava-me sempre que no nosso sistema solar, havia outros planetas e que nesses planetas haviam outras pessoas. 

E dessa mesma forma assim que o nosso trabalho de vida estivesse concluído aqui, começaríamos de novo em outro planeta, ajudando outras pessoas com o que tínhamos aprendido aqui. Mas dizia sempre: "Tenta dar sempre o melhor pelas pessoas, sê cuidadoso, trata bem, sê educado, bom rapaz, humilde e pratica sempre em tudo o que puderes o melhoramento, porque de outra forma será mais complicado entrares." 

Claro que com o tempo descobri que os outros planetas não são habitados ( ao que se sabe...) e que saindo daqui no mínimo o meu corpo vai para debaixo da terra. Existe a finitude e essa mesma finitude a ideia de morte sem volta, dá-nos ou pelo menos deu-me a mim a percepção do quanto a vida tem e terá sempre de ser vivida e maximizada a todos os níveis.

Sempre achei o máximo a forma como ela tentava de certa maneira,  dizer-me que a morte não era um fim catastrófico de tudo, mas sim algum tipo de  preparação...

Olhando para trás, recordando um pouco nos flash s de memória antiga e poeirenta que ainda carrego tento entender se tenho conseguido seguir os conselhos dela. 

Tenho todas as minhas conquistas resumidas a uma mala de viagem. Digo sempre isto à minha filha. 
É a mala da liberdade. Uma mala sempre pronta para a mudança, para novas viagens, novos conhecimentos, novas aprendizagens. Ela está desfeita, vazia...mas não sabem o quanto de histórias carrega nela. É a mala que te permite não estar agarrada a raízes, a histórias eternas e rebobinadas sistematicamente no mesmo filme. É a mala da esperança, dos sorrisos, feita e desfeita conforme desejas e queres. Não é uma mala que te aprisiona aos bens, que te rouba da liberdade de viveres e decidires rumos distintos. Não é uma mala que te pressiona para ficar ou ir.  

Quarenta anos de vida simplificados em termos de provas concretas apenas numa mala. Não tenho álbuns de fotografias espalhados pela casa, não tenho quadros caros pregados na parede com a assinatura de algum pintor de renome. Não possuo carros na garagem ou contas avultadas no banco. Não fiz por isso e sinceramente nunca me preocupei em fazê-lo. 

Ainda bem que a minha mãe não em deixou heranças, jóias, presentes ou caminhos que fossem mais estáveis para a construção do meu futuro. Deixou-me uma mala de viagem, onde percebi todas as diretrizes a ter, onde aprendi como conquistar, como lutar, como sofrer, como caminhar num oceano de lama e de almas sofredoras gritando por " Fica, fica com a nossa dor, fica connosco". 

Sempre tive ao meu lado a minha mala que em surdina dizia: "Ou optas por ficar e sofrer ou sofres caminhando". A última foi sempre a minha opção. Porque sabia que podia não ter nada de relevo, mas tinha a minha mala...e a minha mala carregava a minha força.

Não interesse que tipo de luz material ou imaterial carregamos, porque cada um toma para si as decisões que desejar para a sua vida. E muito menos tenho contra quem possa possuir o mundo. Eu possuo o mundo numa mala. 

E neste caminho que vamos fazendo, vamos encontrando outras pessoas com as suas malas, as suas vidas feitas e desfeitas. Umas dão-nos a mão e vão caminhando até vários entroncamentos da vida connosco, outros ficam-se pelo caminho órfãos de si mesmos ou das malas que carregam consigo.

-Não te pesa essa mala?
-Pesa todos os sonhos do mundo...
-E porque a carregas?
-Porque ela não me conseguia carregar a mim...






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