O VELHO E A SOMBRA...



Conto os dias e as horas, não faço mais nada senão mesmo esperar que o espectro da morte chegue o quanto antes. Doente e acabado, eis como estou. Eis como me apresento...eis o que sou. Sem nada, sem ninguém, despojado das cores e sabores que me alimentavam no tempo e na vida. 

Não há mais necessidade de correr, de ir atrás de amores perdidos e desaparecidos, fortuitos ou inconsequentes. Não há mais brilho no olhar. Não há sentido num sorriso.

 Não tenho nem forças para tentar saber o que fiz, o que fui e o que sou. Sou fruto do caminho que tracei para mim, das vitórias, dos filhos, das guerras, dos momentos, das insanidades, das intempestividades. sou o comandante de um barco sem tripulação nenhuma. Ai de mim! Que lástima! Sou um cachorro abandonado, sou uma fénix sem direito ao seu renascimento. Não há farol que me guie rumo às aventuras incertas. Não existe o onde, o como ou o porquê. Quem abandonei, que mal fiz para acabar aqui? 

Que caminho tracei? Que inimigos arrumei? Que histórias inacabadas me trouxeram aqui? Ai de mim! Que lástima! Que sonhos perdidos foram esses? Que objetivos inacabados que eram tão imaculados! Que amor não encontrei? Quem abandonei? Que forças não tive para dar vivas à vida? Que sonhos desperdiçados, oportunidades perdidas, que mágoas guardadas? O que é a vida? E que vida é esta...sem o mínimo de vida? Que lástima! 

Quem me odiou? E quem eu odiei? Que grito de menino mantenho para que forças tenha para que o meu sopro não termine hoje? De quem eu me lembro? E quem me guardou em si? Em que caminho me perdi? Em que miséria vivi? Ai de mim! Que lástima! Quem eu não ouvi? Quem eu não amei? Quero tanto voltar atrás! Deixa-me correr! Deixa-me viver os meus sonhos de novo! Que dor de viver num corpo que não aguenta mais! 

Mas ainda sou eu! Ainda sou eu aquele menino, que ria desalmadamente, que vivia por amor, que brincava em todos os recantos. Ainda sou eu! Por favor, deixa-me voltar! Dá-me uma nova oportunidade! Aii de mim! Que lástima!

Não há mais ninguém a quem pedir perdão! Quem me ouve? Quem me socorre? Quem me dá de novo o cálice da vida? Ai de mim! Que lástima! Porque não posso voltar atrás? Porque me negam o prazer de poder ainda viver?

Ai de mim...que lástima! Que morra então! Que me deixem aqui! Que vivam vocês...

Sombra : De que te lamentas meu velho? 
Velho : Mas tu...ainda vives?
Sombra: Eu sou parte de ti!
Velho: Ai de mim meu bom amigo...ai de mim! Que lástima eu estou! Deixa-me morrer aqui!
Sombra: Se tu morres aqui...por fim eu morro também...
Velho: Meu bom amigo...meu único amigo...peço-te, vive por mim...
Sombra: Não posso...já tudo vivemos...
Velho: Abraça-me então...meu amigo...meu único amigo... 

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