sábado, 10 de setembro de 2016

CRIANÇAS - MONSTROS QUE OS ADULTOS FABRICAM COM MÁGOAS


"Eu era uma criança, esse monstro que os adultos fabricam com as suas mágoas." - Jean Paule Sartre

Naquele dia de Outubro, coloquei umas roupas na mochila, deixei um bilhete à minha mãe e decidi ir em busca da fábrica dos meus sonhos. A fábrica que revia em mim, como tradução de vida feliz, onde no meu imaginário criara o castelo dos meus sonhos.

A fábrica da intensa felicidade, da harmonia, da família feliz, repleta de risos, carinhos e intensos momentos que me iriam capacitar para uma vida desprovida de mágoas, pesadelos ou intencionalidade de caminhos obscuros que pudessem ou fizessem com que eu caísse num limbo distante. Limbo esse onde sozinho, assustado, infeliz me afogasse eu mesmo nas minhas lágrimas.

Nesse dia de outubro com 14 anos, tinha em mente ser um fardo para uma mãe que sozinha tinha dado tudo de si para a criação do seu filho. Não queria impedir o seu próprio crescimento, reduzir os seus sonhos a pó. Não queria ser o fardo pesado, inibidor de sonhos, objetivos. Não desejava ser peso na balança financeira.

Num pequeno bilhete no alto dos meus 14 anos, apenas disse: " Obrigado por tudo! Agora vai ser feliz porque bem o mereces. Decidi procurar um caminho onde possa mais tarde ajudar-te, porque hoje, não o consigo. Desculpa."

Não tive noção do que tinha escrito. Na altura não tinha. Não me via como um sonho tornado realidade para ela. Não me via como o foco principal de luta, de sobrevivência. Não me via como um legado, onde todos os erros possíveis de serem cometidos por ela, não o seriam por mim. Não queria aprender, não sabia como aprender. Não queria viver enclausurado numa panóplia de indecisões, medos , receios, tristezas, sofrimento, onde apenas uma mãe que do alto da sua luta tentava dizer-me: "Ajuda-me meu filho a suportar o meu sofrimento".

Não! Eu queria sair, queria viver, queria poder ver um mundo, onde tinha quase a certeza que não era assim. Que sofrimento queria eu ou poderia eu suportar? Que egoísta fui! Na ideia existia o sentimento de que a sofrível marca de um pai, mãe ou família, não podia, não devia repassar para os seus filhos.

Não era obrigado a sofrer, a viver o que não queria. Que culpa afinal tinha eu? A comer o que não gostava, a ver amigos que tinham o que eu não tinha? A ouvir o que não queria? Choros, tristezas de uma vida de insucesso? Porquê dessa injustiça? Porque não era tudo igual? Porque não era tudo repartido? Porque uns sofriam choros intermináveis e outros sorrisos eternos?

Deixem-me ser feliz! Era apenas o intuito! Quero brincar, gritar, sair, divertir-me, correr, saltar, sonhar, ter direito a tudo o que outros outros tinham! Eu não pedi nada disto para mim! Não pedimos separações, gritarias, confrontos, jogos de poder, joguetes que somos nas mãos desses adultos, os monstros que do alto dos seus interesses, calculismos, nem se lembram ou relembram que vidas humanas dependem de si. Somos objetos de transferências, de jogos intensos, de ciumeiras de mumificações da alma. Que merda!!! Gritamos nós! Só queremos ser felizes!

Com uma mochila nas costas, pensava eu que fugindo poderia conquistar o mundo. Tinha ouvido falar da felicidade, de amores intensos, de carinhos eternos, de vidas cor de rosa. Cada um no seu quadrado e  no seu mundo e tudo ficaria bem. O meu destino era ser feliz. Esqueci-me eu, que um destino sem aprendizagem era um destino também ele incerto e vazio. 

Nada mais foi como antes. E o antes nunca foi igual ao depois. Dois dias apenas fora de casa e percebi que o mundo não era aquilo que eu idealizava. Dois dias apenas fora de casa e percebi no desespero de uma mãe, que para além da mágoa, dos sofrimentos, das lutas intensas travadas em prol da protecção de um filho, de tristezas, das lágrimas de alegria e da constatação do reencontro, significava que a perda jamais seria ou poderia ser substituída por algum tipo de felicidade, em que a mesma sozinha se pudesse finalmente deleitar sem o seu mais que tudo.

Os caminhos inerentes a pais e filhos são absurdamente para o bem e para o mal sortidos de emoções várias. Sonhamos de uma forma mas somos confrontados com realidades diferentes. Emoções, idealizações, sonhos ou objectivos são brutalmente diferenciados de uns para outros e com isso existe um pagamento crucial, que define muitas vezes quem somos e como somos. Cresces sem querer, de uma forma que nunca pediste. Mas cresces mais forte e a tua abrangência emocional mais diversificada. 

Vivemos de diferentes estados, formas socais, familiares, criações e estados diferenciados de alma e educacionais. Aprendemos a crescer com gritos de revolta, carências, inibições, momentos prazerosos e outros que podemos considerar verdadeiramente diabólicos. 

Somos direta e indiretamente fruto da vida, das vivências, dos problemas, dos sofrimentos. Somos produtos de fábricas autenticamente e em tantas famílias da falta de estrutura, da incapacidade, das falhas, de marcas que não são nossas, mas que carregamos no sangue, mas mais do que isso, na alma e muito mais do que isso nas dores que , invariavelmente nos dotam de outro tipo de olhar. E foi esse olhar que permitiu ser melhor. Permitiu não fugir mais. Permitiu crescer mais forte. Permitiu continuar a viver,  mas acima de tudo permitiu saber perdoar, permitiu que se aprendesse a definir melhor a  humildade, a gerir a bondade, permitiu a estruturar as caixas do teu pensamento com bom senso.

Permitiu conhecer-me melhor os outros e conhecer-me melhor a mim mesmo. O que faço, o que dou, o que sou, como sou é fruto de todos os monstros, mantidos, combatidos, com suor, lágrimas, alegrias e tristezas. Permitiu-me entender que não existem castelos adornados com cores e sabores de intensa felicidade.

Ahhh...que monstros esses de mágoas, de garantias de insucesso, de negatividade, de plena inveja e convicção de que a vida é um antro de incapacidades onde estás condenado a um infortúnio. Que nos permitamos ser gentes das gentes que não souberam ser gente. Que nos permitamos ser e entender que não existe uma obrigatoriedade de ser adulto sem nunca ter podido ser criança. Porque é preciso, é necessário é fundamental aprender a amar os monstros...para sentir o pulsar do mundo como gente.
-Desculpa se não consegui ser a melhor mãe...
-Não chores! Foste sempre a melhor!
-Não fui....não fui...não dei tudo o que desejavas ter! Não tinha bases para que tivesses um crescimento melhor! Desculpa, desculpa....
-Mãe...fizeste o mais importante!
-Como assim?
-Todos os monstros na sua intensa dor são passíveis de retorno com amor...

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