quinta-feira, 13 de outubro de 2016

DETESTO A HIPOCRISIA...MAS AMO A ARTE DE SER HIPÓCRITA



Sempre detestei hipocrisias e ainda assim em tantos momentos temos de lidar e fazer o papel de hipócritas em vários momentos. Não engula sapos, diga o que tem a dizer, faça o que tem a fazer, seja você mesmo. Seja confiante, seja alegre, seja verdadeiro, seja coerente, esteja predisposto, mantenha o sorriso, etc, etc. Sempre detestei hipocrisias. Falinhas mansas,adornar verdades, ser cúmplices de mentiras, fingir soluções, encetar lutas de falsas esperanças, adornar os sentimentos com gotas de veneno.
E ainda assim, muitos de nós prolongamos a estadia desta máscara de durabilidade. Porque gostamos? Não! Pelo menos...digno-me a responder por uns quantos. Essencialmente porque precisamos de ser hipócritas. A hipocrisia na verdade existe para o equilíbrio das sociedades. Falhas de carácter? Sem dúvida! Seria inconcebível ser-se hipócrita num estado onde sentimentos negativos não existissem. Depois da maça de Adão, tudo é possível e necessário no percurso da vida. O percurso exigente que a vida te oferece assim te obriga. Nesta selva quem não se faz de predador...morre presa.

Quantas vezes não temos de fingir sorrisos com quem não nos sentimos bem? Ir a um almoço ou jantar que seja impreterível a tua presença, mas que sabes que não irás gostar? Quantas vezes não é necessário ter jogo de cintura com um patrão? Um colega de trabalho? Quantas vezes para evitar situações melindrosas até numa relação se é hipócrita? Quantas vezes não são as vezes que nos adornamos desta máscara para evitarmos cair numa espécie de limbo ou esquecimento? De uma salvação? De um entendimento? Como diria Fernando Pessoa, dizemos tudo pela metade. Ou pelo menos...adornamos verdades com palmadas nas costas, beijinhos, sorrisos amarelados. Não deveria ser! Mas é necessário para o equilíbrio, para a tu manutenção!

Não me venhas com palavras mansas de que tu és "bonzinho", que o amor tudo salva, que a plenitude de sentimentos positivos agraciam-te em todos os momentos! Somos uns merdas na verdade! Não há um único justo no mundo que se digne a dizer que não erra. Não induzas em erro quem errático já anda. Porque todos os somos! A verdade apenas nos salva de momentos onde a necessidade dela se reagrupa com o sentido de necessidade da tua manutenção. Somos uns hipócritas e deleitamo-nos com a sensação de que o estado de simpatia momentânea é a verdade mais pura e gratificante que temos.

Ainda assim detesto essa hipocrisia. Esse estado letárgico onde nos corroemos de sorrisos que não passam de gritos silenciosos que apenas ecoam em ti. Adoro a hipocrisia, as frases por metade, a irresponsabilidade que carregamos ao dar votos à nossa própria desumanização.  Adoro ver que a boca que se abre em consolação  por ti é a mão que eleva o punhal da tua desgraça.  Detesto hipocrisias, mas amo a arte de ser hipócrita. Do "está tudo bem" quando não está. Do " Não faz mal" quando faz exatamente mal. Adoro a arte do fingimento no conforto, quando o desconforto é por demais evidente. Mas adoro essencialmente a mentira porque todos nós somos adornados, o fingimento latente, a preocupação inócua, vazia, desprovida de sentimento verdadeiro.

Amo a arte de ser hipócrita porque te eleva ao desequilíbrio, ao desconsolo, à desumanidade, à descrença, à destituição de nunca seres verdadeiramente quem és. Amo a arte de ser hipócrita pela criminalização e constatação do pior que podemos ter. 

E ainda assim quando me vejo distante de mim, forçado pela mentira, preso pela omissão, resguardado no equilibro que a sociedade tantas vezes obriga...é quando me lembro: Que bom seria que a hipocrisia...não fosse uma cortesia...





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