segunda-feira, 7 de novembro de 2016

COMEÇAS POR DIZER NÃO E ACABAS POR DIZER SIM



Não sei se tu que estás desse lado, tanto como eu, já passas-te por aquelas alturas em que querias na verdade dizer "NÃO!", mas terminas sempre por dizer..."SIM". 


Eu não devo e nem posso aglomerar aqui na escrita todas as situações possíveis. Porque são realmente muitas. Mas a titulo de exemplo....

Imagina que hoje, estando tu no teu trabalho , a escassos minutos de saíres pensas:

"Nunca mais chegam as 6 horas, hoje não posso deixar passar aquele assunto importante que tenho de resolver! "
Mas eis que alguém no trabalho se aproxima:

-Bruno, posso pedir um favor?
-Sim, claro, diz!
-Preciso que trates destas contas, porque é necessário entregar sem falta isso no final do dia.

O  primeiro pensamento? Simples: " Fónix...já me lixou!"

E tu ficas entre a espada e a parede. Entre o sim e o não! Por um lado o que apetece dizer é a verdade. Por outro é esconder a verdade com um sorriso amarelo de orelha a orelha.

Por norma e supostamente a valorização do nosso eu, da nossa qualidade de vida, do tempo que deixamos de dar a uns e mais importantes e passamos a dar a outros de menos importância deveria resumir-se a uma breve resposta, tal como:

-Escuta e para que fique bem claro. Eu não começo a trabalhar às 9:00 da manhã efetivamente! Eu começo a trabalhar no momento em que me levanto! Exatamente às 6:30 da manhã. Falo rapidamente com a filha (o), despeço-me rapidamente da mulher ( para quem a tenha), desço a rua rapidamente, tento apanhar o comboio à hora marcada rapidamente, bebo o café rapidamente antes de entrar e ainda assim muitas vezes , 2|3 minutos depois das 9, ainda tenho o patrão rapidamente a perguntar: Então atrasado? O trabalho esse, tem de estar sempre pronto rapidamente, os atrasos tem de ser rapidamente solucionados. Entre as 6:30 da manhã, até às 18 horas da tarde,sem contar com o tempo que levo a chegar a casa, extenuado, mas rapidamente, para jantar, estar com as pessoas que gosto, continuo a trabalhar para ter rapidamente um momento de alguma qualidade de vida, alguma! E perguntas tu...se te posso ajudar? Fizeste mal a pergunta! Eu é que pergunto...em que me podes tu ajudar? Como é que tu podes valorizar o meu esforço,  enaltecer a minha qualidade de vida, desvalorizando o teu pedido?

Mas é exatamente aqui que ligas a sirene da "Mariquice emocional". Pensas uns milésimos de segundos e rapidamente respondes:

-Claro que sim, tudo bem!

O tudo bem é sinónimo da ligação ao " Que se foda...", ajuda-se aqui, ajuda-se ali, acata-se um sim aqui, um sim ali. Pode ser que tenha mais um aumento, pode ser que o patrão veja o meu esforço,  pode ser que perca mais um amigo mas que se lixe, pode ser que perca uma oportunidade de conhecer alguém, mas que se lixe, de estar com alguém que amo, mas que se lixe, de fazer algo que gosto, mas que se lixe.

Como é que assumimos ser donos da liberdade, da própria vida, se passamos a vida a dizer sim, quando queremos dizer não? Como ajeitamos o tempo de dar tempo a quem suplica por tempo? O sim como forma de padrão de equilíbrio de forças, de ajuste de tempo é um sim fruto da auto-análise num todo, que não deixa ninguém deficitário. É um sim que sabe viver o tempo da vida. Mas um "não", transformado num sim é uma vertente submissa, ilógica,  que combate a tua verdade, a tua liberdade, a tua necessidade de voar, de viver e de intensificar a tua vida. Abandonas-te a ti e aos outros quando na presunção do Não, derrotas o mesmo com um Sim.

A tua responsabilidade deixa de ter valor quando desvirtuas a tua verdade e passas então a ser não só irresponsável por ti, como pelos outros.

Há uma certa conotação ao "Sim, sempre" como se fossemos alguma espécie de super heróis que com isso pudéssemos salvar o momento. E é por isso mesmo neste gracejar intenso de nos sentirmos impelidos a fazer o bem, porque não sabemos dizer não, que muitas vezes dizemos em surdina: " Fiz tanto por ele (a) e agora olha o pontapé que levei".

Esse desejo de reconhecimento pelo "SIM", de fazer chegar a bom porto a mensagem do "bonzinho", do salvador, do tapete por baixo dos pés dos outros, que faz de nós, não reconhecidos como salvadores, mas sim, reconhecidos, como submissos, fracos, carne para canhão, exatamente por olharem para nós como os "Construtores e reconstrutores do SIM". É que o nosso prédio do "SIM" nunca vem abaixo aos olhos dos outros. E habituam-se tanto ao sim, às batidas nas costas do "Gajo ou gaja" fixe que somos, que quando abrimos a boca para dizer um sonoro não, passamos a "Filhos da Puta...". Os maus, os vilões, os sacanas. Os destruidores dos sonhos, dos momentos, das necessidades, dos famosos construtores que agora nada valem momentaneamente.

Reparem...a questão principal quando queres dizer não e dizes sim, não tem a ver com o tamanho da tua bondade, tem a ver com a sonoridade do teu caráter. Quando habituas as pessoas ao SIM as pessoas habituam-se a uma não existência do NÃO e passam a ter como produto efetivo e sistemático na sua vida o SIM.

A sonoridade do teu carater expressa a musica que os outros desejam ouvir para si mesmos. São os "Lambe Feridas", os necessitados, os deficitários, os apressados, os preguiçosos, os dominadores, os capacitados, os egocêntricos, os fazedores de sucessos, os pró ativos. Eles alimentam-se do sim. Do sim que ofereces para o polimento e desvanecimento do seu próprio não. Muito cuidado com o SIM de quem realmente precisa e com o NÃO de quem se aproveita.

Tu educas os outros a serem mais fortes, astutos, sacanas, aproveitadores. Dás armas para a insensibilidade e desvalorização e ofereces-te como mártir para o seu alimento. Tornas-te uma presa fácil quando deixa de existir um intermédio entre o sim e o não. Porque ainda que deduzas que o talvez seja uma mera hipótese a ter em conta, o mesmo não passa de um oásis, onde são raros os que param para beber do equilíbrio que faz da sabedoria "mundana" uma paragem necessária de equilíbrios entre necessidades adequadas a cada momento. Uma tentativa falhada de colocares um STOP exatamente nessa paragem, quando te perdes na tentativa de ser uma heroína ou super herói do SIM. O mesmo se passa nas relações, nas denúncias que proliferam nos ataques do quer e não quer, pode e não pode, no sim quando não quer e no não quando na verdade ostenta a necessidade de ouvir o contrário.
Carlos Drummond de Andrade dizia e aplica-se na perfeição ao "NÃO" e acabas por dizer SIM: "A minha vontade é forte, porém minha disposição de obedecer-lhe é fraca.

E acrescento mais...que a tua disposição seja forte, de forma que a tua vontade reconheça a força que a liberdade que em ti vive, seja merecedora da tua verdade.

See you...





Um comentário:

Claudia Dias disse...

Muito bom! Não diria melhor!!! E a frase do Carlos Drummond de Andrade a rematar tudo... perfect! na mouche :)