sábado, 12 de novembro de 2016

QUEM NÃO OUVE O AMOR DESCLASSIFICA A DOR



Quantos e quantas não se questionam com a mesma pergunta: "Porque não deu certo?" O que aconteceu para que aquela brisa da manhã que chegou de rompante possa hoje ser um quadro negro, indesejado, onde levantamos as mãos ao alto seja para a consagração do milagre de não ter mais ou seja para a injustiça sofrida de ter perdido sem nada ter feito para que tal acontecesse? 

Em que momento erra o amor? Em nenhuma momento! O amor não é validado com erros, não é apontado como a causa da monstruosidade sofrida. O amor nada tem a ver com erros humanos. O amor está como esteve e sempre estará firme no seu propósito de amar. Na verdade não sabemos quantificar e qualificar o amor como arte suprema e consagrar o mesmo da melhor forma. 

O que não dá certo, o que não corre da forma como pretendíamos não é o amor como forma de canal de utilização. O que falha na tentativa de trabalhar esse amor que temos em mãos é a comunicação. Não sabemos comunicar muitas vezes o amor da melhor forma. O amor nunca veio falar connosco e nos disse: " Senta-te aqui perto de mim, vou te ensinar tudo sobre mim". Nós aprendemos sobre o amor. Ele nada tem a aprender connosco! 

Quem não ouve o amor, quem não se prontifica a escutar cada palavra, cada frase, quem se perde em si mesmo ouvindo apenas o que de si concebe....desintegra o amor. Desclassifica, injúria, mal trata, despreza, desconecta o amor do ser amado. Há que demonstrar o amor. Há que abrir as portas do amor, despirmo-nos da desgraça que tantas vezes somos, da pequenez que carregamos. 

Apontamos dedos, insinuamos, batemos no peito sobre todas as acções que tivemos em nome do amor! E o amor grita contigo: "Nada me digas! Não me julgues, nada me tens a apontar porque a consequência da tua dor não é fruto do que sou!" Nós somos frutos do analfabetismo, da surdez e da cegueira que nos classifica e nos dota da imperfeição que carregamos.

Somos feitos de migalhas que apanhamos no chão. Um pouco de bondade, um pouco de solidariedade, um pouco de amor próprio, um pouco de amizade, um pouco de amor, um pouco de alegria, um pouco de tristeza, um pouco de tudo onde residam partículas que nos levem a colocar os louros e certificado na arte de amar.
Mas também apanhamos migalhas de desprezo, de vinganças, de ódios, de traições, de snobismo, de egos, de insensatez, de invalidez da alma. 

Bebemos da porta do conhecimento do bem assim como bebemos e usufruíamos da porta do conhecimento do mal. Alteramos conceitos, juntamos todas as migalhas e tentamos dar azo a uma comunicação onde pretendemos que sejamos ouvidos e amados exatamente da forma que achamos que devemos e merecemos ser. 

Muitas vezes o que é concebível para na nossa moralidade amorosa, não é concebivel para o outro. Terá o outro apanhado as migalhas certas? Terás tu errado na apanha das migalhas erradas? Quando assim é o amor é surdo, porque o mesmo se faz de surdo. Não lhe diz respeito esta luta de interesses onde os egos nada tem de benéfico na arte de ser amor e de se fazer a ponte construtiva e comunicativa que o amor requer que assim seja feita. 

A surdez do amor vive num intenso vazio de campos de batalha de soldados sem armas. É a guerra da inércia. A batalha solitária onde muitos agarram na espada da sua justiça por se sentirem injustiçados. A comunicação falha, o amor esse, resguarda-se num canto expressando em viva voz: "Essa batalha não me pertence" Os gritos que ecoam tentando dar voz ao amor sentido, ao amor não correspondido, às injustiças que se desdobram em acesas discussões de como e porquê são espelhos apenas do analfabetismo e da insegurança na plenitude de amar. 

As dores essas das migalhas apanhadas onde deduzimos serem as suficientes para definir o amor na sua totalidade. Amamos um conceito nosso, uma ideia nossa de que seguindo esse trajeto do nosso desejo do que queremos para nós, talvez assim consigamos atingir o pico do amor. Conhecemos pessoas que nunca vimos até ao momento que nos aparece à nossa frente. Com cargas emocionais diferentes, gostos e intenções diferenciadas, formas e coneitos de educação muitas vezes díspares. Amamos detalhes que transformamos em ilusões amorosas de que o nosso correto...é o certo do outro. Amamos o nosso conceito, amamos a nossa cegueira, a nossa surdez e desclassificamos a dor dos outros e as nossas. Somos uns seres iludidos principalmente pela falha comunicativa que o amor necessita.

Sempre tive de acordo com Fernando Pessoa que dizia:


"Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor."

Só existe uma forma de amar...só entendida quando esquecida. 

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