sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

NÃO CALES O CORAÇÃO COM A AMBIÇÃO DA SOLIDÃO





Uma única coisa é necessária: A solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só. - Rainer Maria Rilke

Ontem passeei pela multidão. Pelas faces encantadas da vida, pelos desencantados encontrados em cada esquina. Passeei por sorrisos abertos de fácil sedução e por rostos fechados de vidas madrastas. Queria eu que a vida fosse um grande eclipse de alegria, onde as dores não pudessem morar nestes cantos e recantos de sonhos perdidos e vidas vazias.

Encontrei todos os sorrisos silenciosos
, todas as lágrimas que não vi, todas as faces que não toquei, multidões de pessoas simplesmente paradas na berma da estrada. Como se me acenassem numa alegria invisível, sentida, onde me diziam: " Eu estou aqui meu amigo...". Elas, absortas com a sua vida, num mundo só seu, onde a preservação, manutenção dos seus sonhos e caminhos são imprescindíveis seguiam então calmamente no seu caminho. Cegas pela mesma cegueira de dores e traumas que outrora as desfizeram, marcaram...acentuaram a sua cegueira interior. Silêncio...

Olhando em redor sussurrava a todos: " Não me deixem aqui...não partam sem mim, quero beber dessa alegria, quero sentir desses momentos". Grito neste intenso vazio de solidão que nos incapacita de sorrisos, de fogo intenso que nos corra nas veias. De vida sentida...e então finjo. Silêncio...

Finjo que me junto à multidão entre abraços, entre sorrisos onde não sou bem vindo, mas que quero ter como meus. Finjo ser parte integrante de constelações de estrelas onde a minha, ainda que solitária tenha a capacidade de brilhar. Silêncio....

Quero partilhar a dor, para que chore menos. Quero partilhar as feridas, para que o meu grito de dor seja, amansado pelos abraços sentidos. Quero distribuir lágrimas para que não me deixem ir ao fundo sozinho. Salvem-me do meu poço fundo, peço eu à multidão. Quero viver nos braços de um Deus que nunca vi? A que chamam de Pai? Onde paira? Onde guardo a minha fé? Onde deposito a minha esperança? Onde agarro o meu paraíso? Onde está o anjo salvador? Que asas me me recolhem na sua paz? Quem me ouve? Silêncio...

Quem se distingue entre a multidão? Quem me resgata com o seu amor deste meu mundo negro, insensato e volátil? Quem me ouve? Quem me quer? Quem me deseja vivo? Quem se preocupa? Quem me limpa as lágrimas das vidas perdidas, de amores deixados, de guerras trocadas? Quem me agarra na mão e confessa a minha verdade? Quem me açoita com as suas mentiras e me crava de dores na minha inocência? Quem se aproxima sem que voe para longe deste meu destino? Quem me trás o conforto que que em vão procuro? Quem me tira da solidão ou quem a intensifica querendo brilhar às custas da minha dor?  Silêncio...
Procurei então deixar que a multidão seguisse o seu caminho. Sem memórias, sem ajudas, sem peças de puzzle, sem encaixes da vida. Nada...nada...fazia sentido. Que procurava eu? Quem procurava eu? Que humilhação era esta por migalhas de amor? Sofrer pela falta de amor, rodeado de sortidos de amor, reflexos do ontem, desafios vazios do amanhã.  Amor perdido, não tido. Amores rascas, indecisos, fracos, insensíveis, voláteis, imprecisos. Silêncio...

Feridas rasgadas, sonhos desfeitos, lágrimas intensas, dores penetrantes. Defeitos nunca desfeitos, almas sem garra, vozes sem ecos. Que melodia o coração pode tocar para que se possa ouvir, para que me possa ouvir? Que inicio sem fim se procura ter? Quem na multidão ouve as tentativas do que me vai na alma? Quem me diz sim em vez de não? Tu que deverias ouvir, ler, saber, escutar, sentir, mover montanhas para que a salvação venha por fim, nunca por ti, nunca por mim...por nós! Silêncio...

Silêncio...porque quero que o meu amor viva. Viva enfim...por fim. Viva dos afetos das minhas dores, da vigilância do meu olhar, do fino sabor da melodia que canto, do sentido que sou. Silêncio pela morte que em mim carrego, pela vida que em mim transporto. Silêncio pelo réstia de pó que sou, pela imagem esbatida que fui. Silêncio pela solidão que escuto, pelos pedaços que refaço, pela escultura que construo de novo, pela estrutura que completo num puzzle de memórias sentidas.

Silêncio...eis que morri na ambição da solidão......eis que vivo no bater doe um novo coração... eis que vivo...por fim...sem fim...por mim....




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