sábado, 30 de abril de 2016

A VOZ DOS MIL (DES)ENCANTOS...


Sempre fui dono e senhor de uma beleza indescritível no que toca à minha...voz. É isso mesmo! A minha voz ao telefone foi e é ainda um quebra corações das mulheres. Durante anos mal dizia algo ao telefone era sempre ou quase sempre mais ou menos isto o que ouvia:

-Sim? Olá...estás boa?
-Olá...Olá...que voz tu tens!!

(Pronto! Era então o início de uma grande jornada de amor entre a ilusão do que era e a realidade do que nunca seria.)

Eu sempre fiz questão de frisar que a beleza da voz não acompanhava a beleza exterior que eu poderia eventualmente ter. Que não tinha. Magro, nariz comprido, não sendo um rapaz possuidor de beleza externa de uma forma que as fizesse ficar de quatro, costumava dizer: "Deus ao fazer a minha pintura deixou cair a tela ao chão e desci assim mesmo à terra" - "Ops...foi mal amigão..." -Deve ter ele pensado...

Deixei-me ir iludindo na alusão à frase: "Hummm...que voz....que homem!". Quase sempre que me disponibilizei a ir conhecer alguém fazia questão de dizer antes: " Olha...já percebi que gostas muito de falar comigo, mas a minha voz não acompanha a minha beleza exterior, portanto cuidado com as tuas expetativas!!"

Respostas eram sempre as mesmas:

-Estás parvo? Não ligo nenhuma a isso! Tu és fantástico!

Neste: "Não ligo nenhuma a isso" aconteceu várias vezes perderem-se pela minha voz e perderem-se de mim também. Houve momentos à porta de algum centro comercial, de algum bar que de longe já me tendo tirado as medidas, ligavam e diziam:

-Bruno...desculpa, não deu para ir ter contigo, fica para a próxima.

Isso e tantas vezes depois de trocas de emails, conversas telefónicas intensas, chegar ao vivo e veres aquele sorriso amarelo do estilo: "Ohhhh...não era bem aquilo que esperava..." é algo muitas vezes de aterrador. Quantas vezes as inúmeras conversas e partilhas não acabaram em 5 minutos num simples café e : "Olha...tenho de ir...foi um prazer conhecer-te!"

Falava com os amigos muitas vezes sobre isto  e dizia:

-Já viste isto? Falo durante semanas quase todos os dias...andam perdidas com a voz, chego ao vivo e piram-se! Não entendo! Não percebo o que as mulheres desejam realmente!
-Pois...o espelho da tua realidade é a imagem da ilusão delas...

Eu vou concentrar-me no ponto do: "Não ligo nenhuma a isso!" Não é bem assim! Por muito que tu sejas fantástico, tenhas uma beleza interior ao nível de um Deus Grego, o que marca sempre inicialmente é  o impacto exterior. Não há como fugir disto. Durante anos ouvi de amigas, namoradas, conhecidas, casadas, solteiras e afins sempre a mesma ladainha. 

-Bruno, eu não consigo encontrar uma pessoa de jeito! Só sacanas, doidos, aventureiros, traidores, gajos parvos, ciumentos, preguiçosos, cheios de manias...estou cansada! Quero um amor de verdade! 
-E que tipo de pessoa anseias?
-Ahhh....tem de saber ouvir, ser cavalheiro, saber amar da melhor forma, entender-me...é só isso que nós precisamos!!
-Então....mas se é assim, estou eu aqui..
-Bruno..se ainda fosses bonito....não fazes bem o meu estilo...
-Ah....sorry....desejo-te a melhor sorte para o looping de relações que vais ter de futuro...

Gordos, magros, bonitos, atléticos, negros, brancos. Caras estonteantes, formas de físico de deixar uma mulher à beira do colapso....de tudo existe. Não nego e nunca neguei que o impacto físico ainda é o cartão de boas vindas que fazem os olhos brilhar. Não há como negar isso. 

Com os passar dos anos fui-me adaptando aos diferentes tipos de pessoa que fui encontrando. Sempre fui tímido,  reservado, "low profile", no entanto e com o passar da idade fui subindo os patamares da auto-estima e da ousadia. 

Principalmente por ter conseguido adquirir uma visão mais humorística sobre a concepção humana, entre o que se espera e não se espera. Hoje sinceramente não ligo patavina aos conceitos de beleza que cada um possui ou possa possuir por mim.  Não é isso que faz ou traduz amores felizes e está mais do que provado! Já sou macaco velho nesse estereótipo de visão. E na verdade acabou por nunca me faltar nada, no que toca a amores. Com o tempo aprendi o equilíbrio entre a voz "gostosa" e a face menos bonita.

E o que me valeu esse equilíbrio?

Já namorei pessoas de todo o tipo. Aquelas em que muitos denominam de gordas, as magras, as menos bonitas, as mais bonitas, corpos delineados e menos delineados. Nunca olhei com ar de reprovação para quem via no olhar, no interior as pessoas fantásticas que com o tempo aprendemos a amar para sempre.  Já namorei pessoas de cores diferentes, estados de alma diferenciados. Já curti, fui traído e traí, Já caí, já me levantei.

Já esperei, já sofri, já acreditei e sobrevivi. E nisto das diferenciações, ilusões, aprende-se tanto! Estes conceitos de beleza em que mulher ou homem bonito, gorda ou magra só pode ou deve namorar hierarquicamente no seu patamar com quem se lhe assemelha é na verdade uma total falácia. Uma ideia de união completamente idealista e que na verdade é mais do que provado que beleza...caros amigos (as) não se põe na mesa.

Uma amiga há uns anos dizia-me:

-Bruno, conta com os sorrisos que te iluminam, com os abraços que te recebem como se fosses único no mundo. Conta com as lágrimas de quem deseja uma voz para se ouvir. Cresce com o descrédito dos outros, cresce com a dualidade de critérios, mesmo que seja ou vejas em tom negativo.

E foi exatamente isso que de há uns anos para cá fiz. Embelezei-me de todas as formas interiormente. Apanhei todas as dores dos outros, todas as dúvidas, receios, escolhas, deduções interiores. Peguei em todos os olhares de desaprovação e vesti-me de todas as vozes, para tornar a minha ainda mais forte. Nunca quis fazer parte do barco que parte e sim sempre, do porto de abrigo.

Hoje quando me ligam , finalmente deixei de ouvir:

-Que voz é essa!!?

E passei a ouvir:

-És a voz que precisava.

O que muda no padrão de beleza é a necessidade de saber ao invés de querer. Quem sabe, encontra. Quem não sabe...só vê partir. E quem vê partir não constrói portos de abrigo...perde-se em castelos de areia.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

CRIE UNICÓRNIOS MAS NÃO CRIE EXPETATIVAS?



-As pessoas desiludem-se não é Bruno?
-Normal...expetativas quando frustradas a terminologia recai sempre na frustração...
-Não devíamos criar expetativas de nada...as pessoas desiludem-nos!
-Pelo contário...deves criar expetativas de tudo!
-Isso ainda te leva à morte emocional...
-O que seria a nossa história sem expetativas?

Sempre escutei de inúmeras pessoas: "Apostei as minhas fichas e foi uma desilusão" ou "Namorei tanto tempo para isto?"; ou " Ele (ela) não me entende! Cansei-me!", fosse em trabalho, profissão, relações, amizades feitas ou desfeitas as expetativas criadas levam muitas vezes ao sofrimento em muitos casos extremo.

As expetativas aumentam exatamente na mesma proporção com que se deseja tapar as feridas, as necessidades, os desejos incontidos de que, aqui, ali, algures possas encaixar o puzzle necessário para a consumação da nossa necessidade. Os olhos brilham com o aproximar e com o acalentamentoi de novidades que possam vir dar um rumo diferenciado à nossa vida.

As pessoas são ornamentadas ideológicamente de objetivos, de expetativas inerentes ao foco que tem na sua condição humana sobre algo. Eu quero, eu necessito, eu anseio. O que poderei ganhar, o que poderei ter, virá mais felicidade? Seremos mais protegidos? Seremos salvos? Será desta?

Não há como não criar expetativas. Não há como não sofrer, não nos desiludirmos, não levantarmos os pés do chão voarmos alto e vermo-nos tantas vezes a cair. Porquê? Simples! Porque somos humanos! Pensamos, deduzimos, ansiamos. Ansiamos transformção, aventura, equilibrio, mais amor, mais partilha,mais cumplicidade e acima de tudo, mais humanização.

Culpamos maioritariamente sempre o outro por tudo, quando nada sabemos de ninguém. As paixões servem quentes aquilo que o amor nunca manterá aquecido.

Gostos, likes, são apenas ornamentações que deduzimos através das mesmas que os outros são parte de nós ou do nosso equilibrio. Somos apenas figurinhas de banda desenhada onde tentamos encontrar as parecenças. Criamos a expetativa de deduzir perante gostos similares encaixes que são meramente figurativos.

As histórias uns de outros são sempre diferenciadas. Assim como vivências, estados de alma, cultura emocional e modos de estar perante a vida. Ainda assim perdemo-nos na verdade apenas pelos pontos que são comuns a todos os humanos. Musica, cinema, arte, leitura, literatura entre tantos outros.

Quando conhecemos alguém a expetativa aumenta à medida que palavras se vão soltando, formas de debate que vão caindo no goto, deduções de frases que encarnamos como nossas.
As concordâncias sistemátáticas, os sorrisos em conjunto vão transformado tanto o olhar de um como de outro na metade da face que nos falta. Conhecemos na verdade ilusões. Maioritariamente a expetativa é a ilusão do acaso que se casa com a necessidade do momento.

Quando tudo não corre como o esperado, apontamos o dedo egoísticamente e gritamos: " Foste tu, és tu o maldito que me deixou neste estado! Eu que acreditava em ti! Eu que fiz de ti parte de tudo o que queria para mim!"

Tantas vezes esperamos dos outros aquilo que na verdade nunca somos para nós. Nunca ninguém pára no tempo para se ver realmente como é. Existe um medo silencioso que nos tolda a verdade sobre o que somos e quem somos.

Por isso e dessa mesma forma procuramos incessantemente idealizar no outro tudo o que desejamos para nós. É uma fome desenfreada de alimentar o nosso estado emocional. Daí que a carência também resulte num facilitismo de relações desenfreadas em busca do Santo Grall.

Quantas vezes e incessantemente ouvi: “ Bruno, estou apaixonada! Fiquei arrebatada!” Quantas vezes de amigas não ouvi esta frase. Perdendo eu a conta às faces que de anjos caídos nos braços apaixonados hoje não passam de sepulturas onde apenas jaz o nome do que foi e já não é.

Espelhamos no outro a cura que que desejamos para nós. E nunca damos ao outro a cura que ele deseja para ele. Expetativas geradas culminam muitas vezes numa pressa emocional de abarcar todos os pontos que desejamos num piscar de olhos.

Diferentemente da paciência a expetativa se não for equilibrada é geradora de tremendos conflitos emocionais que culminam maioritamente num poço escuro, onde reside a frustração a braços com a tristeza. Passamos tantas vezes por esse poço não?

Nós aproximamo-nos por paixões. Cargas emocionais, gavetas vazias que se encontram nas aberturas de uns e outros com formas de encaixes corretos para necessidades dúbias e tantas vezes crivadas de futuras frustações.

-Gosto de cinema, arte, cultura, teatro e musica!
-Sério!?!? Eu também!! Meu Deus, nós somos iguais!!Gostamos das mesmas coisas!! Namoras comigo?!?


Não há como não entender que expetativas depositadas, expetativas tidas, são e fazem parte do conceito da humanização entre todos. Há o lado que deseja, o lado que espera e o lado que nos pode oferecer todas as prendas emocionais que ansiamos. É uma luta entre o comprados e o vendedor.

DIGA SIM ÀS EXPETATIVAS

Neste embate de forças oiço inúmeras vezes dizer: Não tenha expetativas! Não espere nada! Assim não irás sofrer!

Quanto a mim, que vida mais sem graça, não tentar traçar um caminho da vida enchendo-nos de vida!De vida corrida, vida de sonhos, vida de aprendizagem.

Vida de sofrimento, de lágrimas, de esperas, de anseios. Vida de bloqueios, de abraços e rompimentos. De namoros tidos e desfeitos. Vidas de fé, de acreditação, de poder, de sonhos e objetivos. Vida de guerras e paz de lutas e batalhas. De choros incontidos, de solidões, de abraços de multidões.

Lamento, sou ateu no que toca a unicórnios. Tenho toda a fé do mundo depositada nos meus batimentos, tenho toda a fé do mundo depositada nos meus gritos internos, nas lágrimas, nos sorrrisos, nas trocas, nas partilhas, nas vivências, nas minhas viagens, nos perdidos, nos esquecidos, nos encontros e desencontros. Lamento mas tenho todas as expetativas do mundo na arte de viver, na arte de aprender. Porque é assim que se cria também a expetativa de poder ser melhor, de poder dar o melhor.

É preciso ter expetativas sim! É preciso, é necessário criar expetativas! O conceito de vida, de troca, de partilha, de dedução de necessidades, a busca, o sentido inerente à nossa condição humana não se coaduna com falta de intensidade com falta de brilho. Que vida pode ser vida se não for pintada de todas as cores? O que nos consome é a vida! Sim! Cheia dee frustrações, de debates, de perseguição de objetivos! De dedução de porquês, de caras diferenciadas, de amores diferenciados. É preciso expetativa sim...sempre!

É preciso lutar, tentar, acreditar, melhorar, percepcionar melhor o que temos à volta para combater expetativas demasiado altas, que muitas vezes se devem ao nosso total desconhecimento. É preciso não desistir, para entender como podemos fazer. Para entender o que devemos fazer e como o fazer! É preciso ter expetativas para limpar a alma. É preciso ter luz para combater a escuridão onde tantas vezes estamos. É preciso sonho, para cumprir. É preciso foco, para chegar!

É exatamente no mundo da intensidade, do fogo, das paixões com profissões, amizades, amores, na intensidade temporal onde a ânsia vive, onde o desejo se abre, grita, onde a alma se expande, onde a consciência se renova por novas ideias, conceitos e necessidades que vive a grandeza de ser humano...

Só podemos perder tempo com os outros...quando aprendermos a perder tempo connosco. Que não se mate a arte de viver antes de se aprender a viver.


terça-feira, 26 de abril de 2016

AINDA QUE NÃO TENHAS TEMPO EU ESTAREI SEMPRE AQUI



Há uns anos atrás num dos fins de semana, que a minha filha veio para minha casa, disse-lhe esta frase. Embrulhado nas minhas coisas, distraído entre conversas e emoções fortes remeti-me ao meu egoísmo. Entre o quarto e a sala a distância era pequena.
Ao fundo sentada, aquela menina com uns 4 anos, brincava com uns legos, enquanto as lágrimas lhe escorriam pela cara, numa profunda tristeza que eu nunca tinha visto nela. Eu não tinha tido tempo para ela e tinha o tempo todo do mundo para mim.
Nesses segundos em que olhei para ela e nesse desejo de amor de partilha comigo, querendo contar com a minha presença perto dela, respondi com um total egoísmo. Apercebi-me do erro rapidamente. Sentei-me ao lado dela, limpei-lhe as lágrimas, pedi desculpa e aquele abraço tão sentido que me deu, jamais esqueci até hoje.
Isto tudo para dizer que o nosso tempo muitas vezes é mal utilizado. Crivados de trabalhos, estudos, amigos, família, gostos pessoais, alguma preguiça tantas vezes existencial, acabamos por nos esquecer de pequenos gestos.
Um abraço sentido, a atenção dada a alguém que naquele momento necessite. Um telefonema, uma palavra sentida, um ouvido apurado, uma perceção diferente, é sempre necessário para que se combata também da melhor forma o nosso egoísmo.
O “Desculpa não posso, estou sem tempo para isso” fui ouvindo ao longo dos anos de diversas pessoas e que contrapõe com o “Quero todo o tempo do mundo para mim.” Os que eu chamo de “Sugadores de energias”.
Mal se lembram de ti, mas ligam-te, encontram-se contigo para debitar toda a energia negativa. Tão negativa que entras feliz na conversa e sais de rastos com a energia que te retiraram. E quando tentas falar de ti ou contar algo que possa ter acontecido, logo estabelecem um parâmetro parecido com o deles e voltam à carga, falando deles.
Há coisas que deduzo que as pessoas não se tocam na realidade. Tenho algumas amigas com as quais vou falando aqui e ali sobre vários assuntos. Já tinha percebi há algum tempo que quando estão muito aflitas ligam a debitar tudo, a pedir uma opinião. A opinião é dada, escuto pacientemente e está feito. Depois passam muitas vezes dias, semanas sem dizer nada. E quando o telefone toca…lá vem mais do mesmo:
-Bruno!?Oi!!! Tudo bem? Como é que estás!?
-Tudo bem…e tu?
-Aii amigo…nem te conto…
(Pronto…vai começar…)
Às vezes dá-me vontade de dizer: Desculpa, mas estou sem tempo para isso!
Mas não…infelizmente ou felizmente prometi que nunca mais iria não ter tempo para ninguém. Percebi que mesmo sugando energias, mesmo que eu não tivesse retorno nenhum, fosse de amizade contínua, de presença, de um amparo, que eu mesmo não podia desistir de escutar, de ouvir, de me fundir também nas dores dos outros.
Fico de rastos às vezes, sem soluções a dar. Mas humanizar o meu egoísmo, educar o meu sofrimento, actuar como um pólo de equilibro com todos transforma a tua visão. Que os outros se utilizem de ti não é importante. Nunca foi e nunca será. Importante é como tu passas a ser um foco de importância para os outros.
Não sou médico emocional de ninguém, mas aprendi a ser enfermeiro de algumas feridas. Feridos, medos, receios, sofrimentos que já passei fazem com que outros que não tendo passado por isso busquem uma via de entendimento para si também em como ultrapassar os mesmos. Eu não sou essa via.
Eu não sou esse caminho, não possuo na manga nenhum pó mágico de alteração de vidas ou visões. Ainda assim há particularidades em mim que ajudam a alterar alguns conceitos, que muitas vezes entendo estão completamente estagnados nos outros.
Sempre percebi que as pessoas se enrolam nos seus próprios tempos. Não param para refletir, pensar e vivem numa ânsia de fazer do tempo uma corrida desenfreada de aproveitamento do mesmo, antes que a morte possa bater à porta. Enrolam-se em relações, loopings de vidas e conceitos que baralham profundamente a sua própria existência. Noto e entendo que tantas e tantos existem sem saber realmente o que são e quem são.
Falando em tempo, uma amiga ligou-me há poucos dias e dizia:
-Desculpa Bruno, não te tenho dado muita atenção e tu dás-me sempre a mim...
-Não precisas de pedir desculpa…
-Claro que preciso! Tu ouves-me sempre…e eu nunca te dou o devido crédito no que sentes ou possas estar a passar. Não é justo!
-Amiga…a cruz que eu possa carregar no ato de te ouvir a ti ou a outra, comparado com a cruz que o outro carregou…eu não carrego nada. Não sou justo tantas vezes para mim, como poderás dizer que és injusta comigo? Quando na verdade somos injustos com todos?
-É o tempo Bruno…o tempo não nos dá margem de manobra. Ando cheia de coisas.
-O tempo consome-te...mas o amor relembra-te da existência dos outros...
-E ainda assim, falho contigo...
-Não amiga...não falhas.
-Porquê?
-Ninguém falha na lembrança do outro...
-Mas só me lembro de ti quando em acontece algo ou preciso de algo...
-Ótimo!
-Ótimo?? Como assim?
-Por te lembrares de mim...
-Mas não é o tempo que precisas da forma que te devia dar.
-Enganas-te! Não é do teu tempo que me alimento. É do amor da tua lembrança...

A GORDA E A GOSTOSA - ENTRE O CÉU E INFERNO NÃO VIVEM PEDAÇOS DE CARNE....


Vi-te passar naquele dia na rua. O trânsito praticamente parava. Elegante, corpo violão, uma tentação em cada passo que davas. Na forma como te mexias e deixavas os homens de queixo caído. Em cada canto e recanto, o teu perfume deixava um rastro de destruição no coração dos homens.
Dizias-me ao ouvido sobre a tua amiga:
...."Coitada, está encalhada, não se cuida, não se trata, está gorda, ninguém dá um centavo por ela. Não entendo como há homens com fetiches por gordas. Já viste? Aquelas banhas na cama a saltarem de um lado para o outro gelatinosas? Quem é que gosta daquilo e sente tesão? Deduzo que os desgraçados que não tem sorte ao amor acabam por ficar com estes restos."...
Rias desalmadamente em tom jocoso. A tua auto estima competia com os Deuses. Estavas num momento único, adorada, venerada, brincavas com o corpo, pois sabias que ele era um pedaço de pecado de perdição seja de solteiros, víuvos ou casados. Tinhas todos na mão. Mas mal sabias tu que no fundo nada tinhas.
Anos passaram e em cada ano notava-se que eras como o vinho do Porto. Quanto mais velha, ainda mais apetecível.
A amiga gorda, encalhada, sem esperança no amor, destruída por dentro e com a sua auto estima em baixo, foi virando chacota das amigas, um pedaço de carne em grande escala que se arrastava pelas mesmas ruas e becos que tu.
Iam-se encontrando de vez em quando aqui e ali. Não podias ser vista com a gorda, fugias normalmente para o outro passeio, para não seres conotada como próxima daquele monumento em larga escala que em nada abonava em teu favor.
Entre sorrisos e acenos dizias de bem longe: " Oi amiga? Tudo bem? Estou cheia de pressa, tenho uma sessão fotográfica. Bj grande"
Ela virava as costas numa tristeza impenetrável. Que só ela mesma, com o espelho da sua alma poderia enfim segredar.
Sozinha, sentava-se à beira da cama, olhava para o alto e perguntava-se: " Porquê? Porque é que eu sou assim? Porque ninguém me quer?" Chorava desalmadamente sozinha agarrada às suas almofadas. Gritava com os Deuses: " Quero morrer!! Porque não me levas! Leva-me por favor!!"
Continuava e pensava para si: "Tanto sofrimento, tanta tristeza nestas lutas dos egos da carne. Uns tentam viver e outros sobreviver. Eu só quero ser feliz!Só isso...apenas isso. Enche-me de luz, mostra-me o caminho! Uns procuram amores fáceis outros amores para a vida toda. E o que tenho eu deste mundo? Todos me renegam! Mas porque eu não encontro? Não me amarás tu meu Deus, ou quem seja que esteja aí!? Abandonas-me tu também? Livra-me deste sofrimento! Por favor....por favor...livra-te de mim!"
Anos passaram, e quanto a ti, deixas-te de ter sessões de modelo fotográfica. Os homens já mal olhavam para ti. Descuras-te os estudos os problemas que foram advindo de uma vida mal programada levaram-te a trabalhar em pequenas lojas do espaço público.
O dinheiro era pouco e homens...bom...homens esses não queriam mais nada contigo.
Lembras-te da gorda triste, em sofrimento? A gelatinosa que mal sabia fazer sexo? Foi promovida a Diretora, de uma das novas lojas de roupa de marca a nível internacional. Viajou, casou, dois filhos lindos. Sim...continua gorda! É bem verdade, e na verdade ainda mais uma gorda. E ele, a quem a quem ela pedia, bom esse...nunca a abandonou...
Encontrou-se por acaso contigo numa das lojas. Reconheceu-te...aproximou-se e de sorriso aberto de tão feliz por te ver, deu-te um enorme abraço.
Não percebeste...hesitas-te e perguntas-te:
-Mas porque me abraças se eu te tratei tão mal tantas vezes...e foram tantas essas vezes, que até‚ me envergonho só de pensar.
-Nunca me tratas-te mal querida! Cumprimentavas, acenavas, estavas sempre apressada para as tuas sessões...mas não me tratavas mal.
-Mas eu tratava...disse coisas horríveis a teu respeito...
-Disseste diretamente a mim?
-Não...claro que não! Sabes bem disso!
-Mas tu...ficavas tão triste. Eu vi os teus olhos...eu sei que ficavas triste pela forma arrogante e fugida como te falava...
-Não ficava triste pela forma como me falavas...
-Não?
-Claro que não! A tristeza não era pelo que dizias...foi sempre pelo que tu pensavas. Olha, mas aproveito e como nova gerente desta loja, soube que estás a passar dificuldades dei-te um aumento de 30% para que possas refazer e melhorar a tua vida e desejo-te um resto de dia feliz....
-Porque fazes isso por mim?
-Porque uma mão...pode lavar as lágrimas de outra face...
-Tu és fantástica...
-Não querida...eu sou simplesmente humana...

sexta-feira, 22 de abril de 2016

AINDA QUE NÃO TENHAS TEMPO EU ESTAREI SEMPRE AQUI



"Desculpa , mas agora não posso, estou sem tempo para isso!"

Há uns anos atrás num dos fins de semana, que a minha filha veio para minha casa, em determinado momento quis brincar comigo dizendo: "Papá vem brincar comigo" disse-lhe esta frase: " Não tenho tempo agora!" Embrulhado nas minhas coisas, distraído entre conversas e emoções fortes remeti-me ao meu egoísmo. Entre o quarto e a sala a distância era pequena.

Ao fundo sentada, aquela menina com uns 4 anos, brincava com uns legos, enquanto as lágrimas lhe escorriam pela cara, numa profunda tristeza que eu nunca tinha visto nela. Eu não tinha tido tempo para ela e tinha o tempo todo do mundo para mim.

Nesses segundos em que olhei para ela e nesse desejo de amor de partilha comigo, querendo contar com a minha presença perto dela, respondi com um total egoísmo. Apercebi-me do erro rapidamente. Sentei-me ao lado dela, limpei-lhe as lágrimas, pedi desculpa e aquele abraço tão sentido que me deu, jamais esqueci até hoje.

Isto tudo para dizer que o nosso tempo muitas vezes é mal utilizado. Crivados de trabalhos, estudos, amigos, família, gostos pessoais, algumas preguiça tantas vezes existencial, acabamos por nos esquecer de pequenos gestos. Um abraço sentido, a atenção dada a alguém que naquele momento necessite, um telefonema, uma palavra sentida, um ouvido apurado, uma perceção diferente é sempre necessário para que se combata também da melhor forma o nosso egoísmo.

O “Desculpa não posso, estou sem tempo para isso” fui ouvindo ao longo dos anos de diversas pessoas e que contrapõe com o “Quero todo o tempo do mundo para mim.” Os que eu chamo de “Sugadores de energias”.

Mal se lembram de ti, mas ligam-te, encontram-se contigo para debitar toda a energia negativa. Tão negativa que entras feliz na conversa e sais de rastos com a energia que te retiraram. E quando tentas falar de ti ou contar algo que possa ter acontecido, logo estabelecem um parâmetro parecido com o deles e voltam à carga, falando deles.

Há coisas que deduzo que as pessoas não se tocam na realidade. Tenho algumas amigas com as quais vou falando aqui e ali sobre vários assuntos. Já tinha percebi há algum tempo que quando estão muito aflitas ligam a debitar tudo, a pedir uma opinião. A opinião é dada, escuto pacientemente e está feito. Depois passam muitas vezes dias, semanas sem dizer nada. E quando o telefone toca…lá vem mais do mesmo:

-Bruno!?Oi!!! Tudo bem? Como é que estás!?
-Tudo bem…e tu?
-Aii amigo…nem te conto…

(Pronto…vai começar…)

Às vezes dá-me vontade de dizer: Desculpa, mas estou sem tempo para isso!

Mas não…infelizmente ou felizmente prometi que nunca mais iria não ter tempo para ninguém. Percebi que mesmo sugando energias, mesmo que eu não tivesse retorno nenhum, fosse de amizade contínua, de presença, de um amparo, que eu mesmo não podia desistir de escutar, de ouvir, de me fundir também nas dores dos outros. Fico de rastos às vezes, sem soluções a dar. Mas humanizar o meu egoísmo, educar o meu sofrimento, actuar como um pólo de equilibro com todos transforma a tua visão. Que os outros se utilizem de ti não é importante. Nunca foi e nunca será. Importante é como tu passas a ser um foco de importância para os outros.

Não sou médico emocional de ninguém, mas aprendi a ser enfermeiro de algumas feridas. Feridos, medos, receios, sofrimentos que já passei fazem com que outros que não tendo passado por isso busquem uma via de entendimento para si também em como ultrapassar os mesmos. Eu não sou essa via. Eu não sou esse caminho, não possuo na manga nenhum pó mágico de alteração de vidas ou visões. Ainda assim há particularidades em mim que ajudam a alterar alguns conceitos, que muitas vezes entendo estão completamente estagnados nos outros. 

Sempre percebi que as pessoas se enrolam nos seus próprios tempos. Não param para refletir, pensar e vivem numa ânsia de fazer do tempo uma corrida desenfreada de aproveitamento do mesmo, antes que a morte possa bater à porta. Enrolam-se em relações, loopings de vidas e conceitos que baralham profundamente a sua própria existência. Noto e entendo que tantas e tantos existem sem saber realmente o que são e quem são. 

Falando em tempo, uma amiga ligou-me há poucos dias e dizia:

-Desculpa Bruno, não te tenho dado muita atenção e tu dás-me sempre a mim...

-Não precisas de pedir desculpa…

-Claro que preciso! Tu ouves-me sempre…e eu nunca te dou o devido crédito no que sentes ou possas estar a passar. Não é justo!

-Amiga…a cruz que eu possa carregar no ato de te ouvir a ti ou a outra, comparado com a cruz que o outro carregou…eu não carrego nada. Não sou justo tantas vezes para mim, como poderás dizer que és injusta comigo? Quando na verdade somos injustos com todos?

-É o tempo Bruno…o tempo não nos dá margem de manobra. Ando cheia de coisas.

-O tempo consome-te...mas o amor relembra-te da existência dos outros...

-E ainda assim, falho contigo...

-Não amiga...não falhas.

-Porquê?

-Ninguém falha na lembrança do outro...

-Mas só me lembro de ti quando em acontece algo ou preciso de algo...

-Ótimo!

-Ótimo?? Como assim?

-Por te lembrares de mim...

-Mas não é o tempo que precisas da forma que te devia dar.

-Enganas-te! Não é do teu tempo que me alimento. É do amor da tua lembrança.









domingo, 17 de abril de 2016

IT IS NOT TIME TO DIE - ERGUE-TE E VIVE!



O tempo voa depressa demais, eu sei. Pergunto-me inúmeras vezes se o sentido que dei à minha vida foi o correto? E tu? Estou onde quero? Amo o que faço? Estou com quem quero? Já se questionaram sobre isso? Será que conheço quem sou? Tenho a vida que desejo? Conheci todas as pessoas que quis? Quem deixei mal ou em sofrimento? E porque não deu certo? Tanto por fazer, tanto por dizer...mas espera! Ainda não é tempo de morrer...

Porque as pessoas se afastam e porque nos afastamos? Criamos amizades reduzimos amores a inutilidades, debatemos connosco quem merece e quem não merece. Somos senhores de razões tantas vezes egoístas como injustas. Será que dominas o tempo? Ou o tempo domina-te a ti? Aguarda...ainda não é tempo de morrer. 

Assim como os outros o são para nós. Temos tantas vezes uma vaidade inutilmente orgulhosa. O nosso ego tantas vezes é o principal fio condutor da nossa própria destruição de consciência. Mas podes mudar, alterar consciências, modificar o status da tua alma. Porque sabes? Ainda não é tempo de morrer...

Bem sei,  bem sei que algum dia deixarei este mundo. Mas não hoje e nem agora. E bem sei que não fiz tudo o que desejava. Fizeste tu? Momentos há que pensamos: "Será que há tempo!?". 

Caras ficam por conhecer, pessoas ficam por beber do nosso conhecimento e nós dos outros.Cumplicidades e partilhas ficam por estabelecer, momentos vazios que ficam por preencher. Mas ainda não é tempo de morrer.

Nem sempre conquistarás o que desejas, não serás o melhor, não terás o amor que desejas, a vida que desejavas viver, os sonhos desfeitos. Não serás conhecido ou até reconhecido.

Entre tantos milhões muitas vezes o teu eu será entre muitos apenas mais uma placa no cemitério com a frase final: " Aqui Jaz". Sim...alguém chorará por ti é certo! Depositará flores que o vento tratará de levar, como a vida o fez. Mas não te desiludas...ainda não é tempo de morrer. 

A vida continua, os passos, os sonhos, os desejos, as trocas, os sorrisos ou lágrimas. A luta continua. Uns irão, outros virão. O sol continuará a nascer, assim como a lua continuará a aparecer todas as noites. Um dará sempre lugar a outro. Mas não chegou ainda o teu tempo...

Coisas ficarão por dizer, não houve tempo, não se criaram pontes de soluções, ódios  ficaram encarcerados, feridas abertas, costas viradas, as vidas continuam seguindo. Mas ainda não é tempo de morrer...não agora. 

Ainda que a morte te espere, o sorriso desapareça, as tristezas se amontoem, os momentos desejados nãos sejam vividos, ainda não é tempo de morrer.

Ainda que caias, ainda que te falte amar na plenitude, ainda que vivas dentro de ti com as marcas do passado ou presente e ainda que sucumbas de joelhos perante a vida e a vejas sem sentido....ainda não é tempo de morrer. 

O tempo não pára...tens de continuar. Tens obrigação de viver ainda o que tens de viver. Ainda que o teu castelo sonhado, esteja em ruínas. Ainda que abras a porta em roupas rasgadas, feridas marcadas, tens de continuar. 

Sossega...porque ainda que a morte te espere, aperta-lhe a mão, entrega-lhe um sorriso e diz-lhe:

-Por favor....volta mais tarde.
-E porque o faria? Isso tu não decides...
-Tu decidirás a vinda da morte, mas eu decidirei a manutenção da vida...

quarta-feira, 13 de abril de 2016

PAIXÃO É UMA INFINIDADE DE ILUSÕES


" Paixão é uma infinidade de ilusões que serve de analgésico para a alma. As paixões são como ventanias que enfurnam as velas dos navios, fazendo-os navegar; outras vezes podem fazê-los naufragar, mas se não fossem elas, não haveriam viagens nem aventuras nem novas descobertas." - Voltaire

Certas para não dizer praticamente todas as paixões são passageiras. Tanto os fatores internos como externos acabam por ditar aqui e ali os finais já de si contemplados nos olhares, nas frases, nas mudanças comportamentais, nas distâncias que aos poucos percebemos que mais não são vividas. Tudo se apressa a passar demasiado rápido quando percebes que o tempo não pára para poderes travar tantas vezes eternamente aqueles momentos.

Quando te dás conta já nada mais é como foi. De repente as paixões mudam de rumo, de caminhos, de olhares, de mãos. As cores alteram-se, os beijos mudam, o toque modifica-se. O mundo auto-regula-se pela alteração que damos ao mesmo.

Mudam-se os batimentos, alteram-se as cadências naturais na forma de querer e sentir. É velha máxima de uma despedida pré-anunciada e de uma forma carinhosa de um: "Já foste..."

Embarcamos felizes, vestidos com a nossa melhor roupa nestas paixões da vida. E tantas vezes desembarcamos, despidos, solitários, de mãos vazias mas ainda assim, de sorriso aberto.

Descobre-se novos conceitos a dar, entende-se a vida no ar, o sentido, que se descobre de um para o outro e dos outros para nós. Paixões também são eternas. Não se deixa ao acaso e nem linhas em branco no livro individual da nossa vida.

Entendemos que é chegado o fim, ainda que para tantos esse fim se traduza como uma perda tantas vezes insubstituível, como se de um amor se tratasse.

Embarcamos de novo rumo aos vários caminhos. Passamos por cidades chamadas de dias, de semanas, de meses e anos. Olhamos para trás, onde não mais chegamos com as mãos, onde não mais vislumbramos pessoas que foram e não mais são. 

Tentamos encontrar um afago , um carinho, uma lembrança, um toque...gritas com o desejo de voltar a sentir. Mas como resposta apenas te resta a tua própria sombra que se padece contigo através da contemplação do vazio.

No baú das tuas memórias, pesquisas a tua história, as tuas paixões e quando te deparas com as mesmas, percebes então...que nos barcos onde navegas-te, onde tantas vezes naufragas-te, o mais importante: O que em ti vive...em ti jamais morrerá.

terça-feira, 12 de abril de 2016

PAIS SEPARADOS - FILHOS AMORDAÇADOS



(O que Poderia ser uma carta de um filho(a))
"Queria tanto que aqui estivesses. Eu entendo, ainda que nunca esteja pronta a perceber o porquê de tu não estares. Mas isso não é importante. Eu amo-te. O que mais posso dizer se é a única coisa que importa realmente dizer? Fazes-me tanta falta pai. Oiço as discussões com a mãe, a forma como se tratam. Cada um esgrime opiniões. Ameaças, irresponsabilidades, tentativas de dizer quem e porquê um ama mais do que o outro. Engraçado...nunca pensei que o vosso amor fizesse de mim uma bola de futebol. Ando de um lado para o outro numa luta de desejos, de sentimentos, onde todos definem as suas regras.
O que merece mais e o que merece menos. Eu percebo a vossa separação, não entendo simplesmente é a ostentação dos egos no amor por mim. Não deveria ser incondicional? Eu não quero o vosso dinheiro, não preciso das vossas discussões. Eu não carrego ainda desonras, traições, palavras desmedidas. Eu não sou ainda irresponsável, não sou dente por dente, olho por olho. Eu não sou a vossa irresponsabilidade, eu sou a vossa responsabilidade.
Entendam...foram vocês que nos idos tempos do "Bem Bom", me trouxeram ao mundo. Não pedi discussões, maus tratos, gritarias. Não pedi nem mais e nem menos daquilo que vocês levaram avante para vir ao mundo. Eu estou, eu sou e nada mais peço do que a limpeza das lágrimas, a manutenção dos sorrisos, a alegria de estar com quem amo. Não me interessa que façam, os dramas ou criem as dores. Não posso recriar amor, fingir amor ou crivar-me das vossas feridas! Ainda assim o faço! Todos os dias, a todas as horas!Seja com bonecas de farrapos, carrinhos ou olhares no vazio recriando os pais que desejo para mim. Substituo doses de amor não tidas ou dadas.
Não porque eu vos queira mal, não porque necessito mais do que vocês do que mim mesma. Uma ausência vossa é um grito de dor para mim. Uma lágrima vossa é um oceano infinito de bondade minha. Tenho para mim todas as vossas dores. Pena é.. ter para mim, migalhas de amor. Ainda assim...o meu amor por vocês difere numa coisa. Dispo-me de de dores e angústias. A minha liberdade reside no conceito de amar. Não carregam nem mais e nem menos da cruz que eu carrego pelos dois...e ainda assim...ainda assim...todos os dias tento correr para os vossos braços. Não amo o que são para mim, mas amo o conceito do que dou a vocês. 
No meu quadro a vossa pintura é reles, mas no meu amor, o vosso abraço é arte.
Bruno Fernandes

domingo, 10 de abril de 2016

EXISTENCE


Eu ouvi-te gritar. Ainda assim fingi não ser comigo. Não me leves a mal, não entendo o teu grito e o porquê de gritares. Não entendo o teu choro e o porquê de tantas lágrimas. Sopras ao ouvido em desespero. Gritas tu por amor ou atenção? Gritas por revolta? De vida perdida? De sonhos desfeitos? De amores impossíveis? Eu sei...eu ouvi-te gritar. Ainda assim não entendi. Desafias os meus sentidos, saíste de armas em riste gritando: "Eu existo!!" Revoltaste-te! Eu vi...mas não quis olhar. Eu percebi, mas não quis ouvir. Não entendi que querias respirar vida. E eu ainda assim quando percebi, entendi que do tanto de vida em ti...afinal eu estava morto em mim.

Bruno Fernandes

quinta-feira, 7 de abril de 2016

TRANSFORMA-TE EM QUEM ÉS...


É necessário porque é fulcral. O que é define o ser é simplesmente o que ele é. Vive por si mesmo. Mas às vezes, vive de mentiras, de regras, falseamentos de identidade, de vidas alegremente fingidas do que se pensa querer viver e nunca do que se quer ter realmente. Medo, anseios emocionais, perdas, apegos, regras de moralidades ou éticas transformam o ser em não ser. Aquele que vive parte de si mesmo na vida e parte de si mesmo na morte.
-Quem és?
-Sou!


sexta-feira, 1 de abril de 2016

O MEU PASSADO É TUDO O QUANTO NÃO CONSEGUI SER.


"O meu passado é tudo quanto não consegui ser. Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto." - Fernando Pessoa

Não poderia de forma nenhuma não deixar de subscrever o eterno e saudoso Fernando Pessoa. Ao recordar-me do passado lembro-me essencialmente dos caminho que me levaram até ao que sou hoje. O que foi e já não é, não deixa de ser irremediavelmente redutor. Muitas vezes surgem os questionamentos dos porquês. Porque é que  foi assim? Porque não fiz de outra forma? Pensamos sempre que há tempo. Mas passado esse mesmo tempo, tempo é coisas que não existe, quando delineamos objetivos e brincamos com o tempo. O tempo não tem pena de nós, não se compadece connosco.  Quando era mais novo tinha dois grandes objetivos: O primeiro era ser piloto da força aérea. O outro seria entrar na universidade, fazer o curso de relações internacionais. Pasme-se que ainda em determinado momento quis ir para o seminário, para seguir a carreira de padre. Padre...cada vez que penso nisso hoje, digo em voz alta: Really?

Nenhuma das coisas fiz. Profissões, empregos, relações, algumas más decisões e outras a velha máxima do "Há tempo!". De namorada em namorada, fui fazendo juras de amor. Aquela que foi, seria sempre aquele amor eterno. Que já não é mais. As namoradas que tive foram sempre o desejo de outro homem, amores iludidos, líquidos, desmembrados e refletidos na ilusão. Ainda assim...amores! Há uma hierarquia emocional, de aprendizagem, de estrutura mental que define de uns para outros o que realmente se viveu, aprendeu e caracteriza o nosso eu. O que está lá atrás, terá sempre de ficar, jamais se perde. O quero esquecer, quero tirar na vida, não quero pensar mais, são apenas frases ilusórias de quem tudo pensa e tudo vive, ainda que esteja tudo morto.

As sensações que desejávamos sentir, não sentimos mais. Outros sentiram, outros vivenciaram, outros viveram de outras formas e nós também. Nós carregamos um passado como um tronco pesadíssimo tantas vezes. Lutamos bravamente dia após dia para nos centrarmos no presente. Carregamos essa ideia do que foi e já não é, e do que poderia ter sido. Ninguém nasce com um manual de instruções de como se comportar em diversas situações. De como fazer as escolhas certas ou que faça bater certo de acordo com os desígnios pensados. De como subir sem cair. De como rir sem nunca chorar. De como escolher a nossa cara metade e ficar com ela,  sem ter de passar por outras relações desastrosas tantas vezes mas totalmente válidas em tantos sentidos para a construção de quem somos. Não ter de passar pela mágoa, tristeza, infortúnios, traições, mentiras, apegos desnecessários, sensações que cada um teve para si como forma de colmatar sofrimentos. E na realidade às vezes pergunto-me: Que raio de sofrimento às vezes pensamos nós que passamos? Fiquei à fome? Sem casa? Sem cama? Sem amigos? Fiquei sem amor?  Carinho? Abraços ou beijos? Tudo tive! Essa é o principal segurança interior que carrego de fazer para ter e de ter tido, exatamente por ter feito.  Não tive tudo! Mas alguém terá sempre tido tudo?

O passado é uma escrita necessária. É um livro pelo qual te reges no que aprendeste, de forma a não cometeres os mesmos dissabores. E são tantas as vezes que ainda assim nos perdemos nesses loopings de erros. Na verdade somos como as crianças, temos de aprender mais de uma vez, para perceber o conceito da verdadeira essência do erro. Eu adoro o meu passado. Tive amigos, companhias, namoradas, amizades fantásticas. Foram um suporte em muitos momentos. Viajei, diverti-me, conheci inúmeras caras, internacionalizei o meu espírito, o meu saber, o meu conceito de vida e percepção de realidade diferenciadas de tantos outros, como os mesmos de mim.

Erros? Cometi tantos! Deixei tanta coisa por fazer! Mas não era suposto fazer parte? Não era suposto aprender a ser humano, crescer num corpo e espírito sem nenhum manual de instruções? E continuamos a correr, a sonhar, a desejar, a experenciar, porque o momento é exatamente este. O que fazes hoje é o mais importante do que aquilo que fizeste ontem. Ontem já morreste em muitos aspectos. Vives no exato momento, sem saber se este dia virá a ser o teu último dia. E sendo assim...o teu último momento.