terça-feira, 23 de agosto de 2016

O VELHO E A SOMBRA...



Conto os dias e as horas, não faço mais nada senão mesmo esperar que o espectro da morte chegue o quanto antes. Doente e acabado, eis como estou. Eis como me apresento...eis o que sou. Sem nada, sem ninguém, despojado das cores e sabores que me alimentavam no tempo e na vida. 

Não há mais necessidade de correr, de ir atrás de amores perdidos e desaparecidos, fortuitos ou inconsequentes. Não há mais brilho no olhar. Não há sentido num sorriso.

 Não tenho nem forças para tentar saber o que fiz, o que fui e o que sou. Sou fruto do caminho que tracei para mim, das vitórias, dos filhos, das guerras, dos momentos, das insanidades, das intempestividades. sou o comandante de um barco sem tripulação nenhuma. Ai de mim! Que lástima! Sou um cachorro abandonado, sou uma fénix sem direito ao seu renascimento. Não há farol que me guie rumo às aventuras incertas. Não existe o onde, o como ou o porquê. Quem abandonei, que mal fiz para acabar aqui? 

Que caminho tracei? Que inimigos arrumei? Que histórias inacabadas me trouxeram aqui? Ai de mim! Que lástima! Que sonhos perdidos foram esses? Que objetivos inacabados que eram tão imaculados! Que amor não encontrei? Quem abandonei? Que forças não tive para dar vivas à vida? Que sonhos desperdiçados, oportunidades perdidas, que mágoas guardadas? O que é a vida? E que vida é esta...sem o mínimo de vida? Que lástima! 

Quem me odiou? E quem eu odiei? Que grito de menino mantenho para que forças tenha para que o meu sopro não termine hoje? De quem eu me lembro? E quem me guardou em si? Em que caminho me perdi? Em que miséria vivi? Ai de mim! Que lástima! Quem eu não ouvi? Quem eu não amei? Quero tanto voltar atrás! Deixa-me correr! Deixa-me viver os meus sonhos de novo! Que dor de viver num corpo que não aguenta mais! 

Mas ainda sou eu! Ainda sou eu aquele menino, que ria desalmadamente, que vivia por amor, que brincava em todos os recantos. Ainda sou eu! Por favor, deixa-me voltar! Dá-me uma nova oportunidade! Aii de mim! Que lástima!

Não há mais ninguém a quem pedir perdão! Quem me ouve? Quem me socorre? Quem me dá de novo o cálice da vida? Ai de mim! Que lástima! Porque não posso voltar atrás? Porque me negam o prazer de poder ainda viver?

Ai de mim...que lástima! Que morra então! Que me deixem aqui! Que vivam vocês...

Sombra : De que te lamentas meu velho? 
Velho : Mas tu...ainda vives?
Sombra: Eu sou parte de ti!
Velho: Ai de mim meu bom amigo...ai de mim! Que lástima eu estou! Deixa-me morrer aqui!
Sombra: Se tu morres aqui...por fim eu morro também...
Velho: Meu bom amigo...meu único amigo...peço-te, vive por mim...
Sombra: Não posso...já tudo vivemos...
Velho: Abraça-me então...meu amigo...meu único amigo... 

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

AGÊNCIAS DE EMPREGO: BUSCA E PROCURA DE NAMOROS - CURRICULUM DE RELAÇÕES AMOROSAS


Ontem fui a uma entrevista a uma agência para uma entrevista de emprego e enquanto esperava juntamente com alguns rapazes e raparigas que por ali estavam lembrei-me: Isto seria giro, se houvesse agências para empregar, juntar, alicerçar almas e sentimentos a uns e a outros, mediante obviamente o curriculum que mais se aproximasse do desejo daquela e daquele que procura alguém para si? Como seria?

Fiquei ali sentado enquanto não me chamavam a esquematizar todo o quadro na minha cabeça. 

Entrevistador: Bom dia Sr. Bruno, como está?
Bruno: Bem obrigado!
Entrevistador: O Bruno enviou ontem um email para concorrer a uma senhora que se encontra disponível. Vamos falar um pouco acerca desta oferta e porque o Bruno decidiu concorrer. Se eu perceber que o Bruno pode ser a pessoa indicada, teremos depois um ou dois testes para perceber como o Bruno encaixa nesta oferta. Pode ser?
Bruno: Sim, claro! Plenamente de acordo!
Entrevistador: Então Bruno, vamos falar um pouco sobre a oferta que tenho aqui para si. A Tânia é uma pessoa que já trabalha em conjunto com esta agência há algum tempo, já está no mercado há vários anos e teve a necessidade de nos contatar na perspectiva de encontrar um novo amor. A Tânia tem 32 anos, mede 1,67, olhos castanhos claros, pesa cerca de 57 kilos e é solteira. Assim, para uma rápida primeira impressão agrada-lhe?
Bruno: Bom...de momento, claro que sim. Aliás estou aqui exatamente por isso. Tenho estado parado e dessa mesma forma achei que esta seria a pessoa com a qual eu pudesse ter algo ou começo de algo importante.
Entrevistador: Muito bem! Bom Bruno...eu vi o seu curriculum e reparei que o Bruno tem experiência internacional. Teve namoradas brasileiras, andou a mordiscar por angola e vejo incrivelmente que na Arábia Saudita o Bruno só ia a festas mas...não teve ninguém. Quer falar um pouco sobre estas experiências?
Bruno: Bom...verdade seja dita que estas experiências nos dão, no nosso requisito emocional uma abrangência cultural e forma de estar e lidar com diversas emoções de forma mais ampla não só de conhecimento como de experiência com formas de estar.

Entrevistador: Muito bem. O Bruno Entre 2011 e 2016 vejo aqui no seu curriculum que passou por várias relações. Sabe que efetivamente isto pode dar a parecer alguma instabilidade no que toca aos relacionamentos. 

Bruno: Bom...não vejo essas situações como instabilidade, antes porém como experiências e conexões que por diversas razões, feitios e formas não se conseguiram agregar da melhor forma. 

Entrevistador: Certo! Bruno, vamos também ao que interessa, que é a vertente financeira. Devo dizer ao Bruno que a Tânia por força de uma vida de estudos e equilíbrio profissional, tem um salário de cerca de 1200 euros, além da vantagem de viver sozinha, tem carro próprio. Não sei se será um handicap para si...mas a mãe da Tânia, que eventualmente poderá ser a sua sogra, ainda está viva. O que acha o Bruno disto?

Bruno: Bom...não tenho nada a apontar, acho que as condições são boas. Tem as suas bases o que também é o mais importante.

Entrevistador: Gostava de saber da parte do Bruno e mediante o seu curriculum que apresentou se esta experiência efetiva no plano sexual é para manter. Pergunto isto, porque o Bruno tem 40 anos e sabe que às vezes aquela força, fogo, lúxuria tem tendência a diminuir com o passar dos anos.

Bruno: Ahhh...nesse sentido sou completamente ninfomaníaco! Estou à vontade nesses requisitos.

Entrevistador: Muito bem Bruno. A nível de beijo e toque como o Bruno está? Vejo que está parado pelo seu CV há mais de 2 anos e a Tânia procura alguém que não perca de certa forma essa atividade. Digo...de andar de mãos dadas, de beijar na via pública, em casa, de poder estar sempre em forma digamos assim. 

Bruno: Bom...é como andar de bicicleta penso eu. Certas coisas não se esquecem. 

Entrevistador: Claro. Pergunto isto porque a Tânia é efetivamente uma pessoa muito centrada, perfecionista que não gosta de monotonias. Vejo que o Bruno pela experiência que tem pode ser a pessoa certa para o cargo. Ainda assim e tal como disse vai ter de fazer um pequeno teste de 10 minutos. O teste consiste apenas e só durante 10 minutos na prática de sexo oral com uma assistente nossa que virá ter consigo assim que eu a chamar. O Bruno sente-se preparado?

Bruno: Sim, perfeitamente.

Entrevistador: Bom Bruno, se me permite vou chamar a assistente para o teste e daqui a 10 minutos volto.

Bruno: Se me permite, só tenho uma questão a colocar. A nota deste deste é dada na hora?

Entrevistador: Não sei se reparou mas nesta sala onde nos encontramos existem vários aparelhos de som que estão ligados a uma outra sala onde estarei. Quando eu ouvir do outro lado: " Aii tão bom...continua...estou a vir-me..." é sinal que o Bruno naturalmente passou.

Bruno: Muito bem...

Dez minutos depois...

Entrevistador: Bom Bruno, penso que poderemos dar por terminada esta entrevista por aqui. Vamos entrar em contato com a Tânia e apresentar a conclusão desta entrevista. Se a Tânia concordar em ter o Bruno ao lado dela, passará depois para uma segunda entrevista com os Pais...pode ser?

Bruno: Claro! Fico à espera e desde já agradeço também a oportunidade.




terça-feira, 16 de agosto de 2016

GOSTAS? AMAS? OU NÃO PERCEBES NADA DISTO?



Já tinha escrito em outras oportunidades da verdadeira mensagem que carrega o sentido do amor. Gostar, amar ou não percebes nada disto, resume na perfeição a quantidade infindável de relações que vamos vendo nuns e noutros como verdadeiras histórias de príncipes e princesas de não passam de um engodo. 

Cada vez mais as pessoas estão a optar pela simplicidade de um "gosto de ti...então fico contigo!". Não existe uma tempestade em que se tenha de caminhar em direcção ao amor com todas as minhas forças. Não! Não há tempo a perder com sofrimentos, vidas sofríveis, limpeza de lágrimas, capacidades de superação e vontade extra de caminhar juntos em direção à fortaleza do futuro.

O passado, presente e futuro juntam-se numa fusão rápida de sentidos, de emoções, onde jogamos as cartas rapidamente da nossa vida, numa tentativa apressada de demonstração das nossas "Skills" perante o outro. Não há tempo a perder com conhecimento profundo, com debates à mesa agarrados a um copo de vinho que o possamos saborear em conjunto. Não! É dia de tomar a garrafa toda, deixar as problemáticas para trás e apenas viver. Ahhh que vida saboreada de forma tão fácil!

Viver na existência de um objetivo sonhado de um rumo certo, na tentativa de fazer desse caminho, dessa propensa caminhada para a vitória não passa de uma ilusão recheada de garrafas vazias deitadas ao redor na esperança de se explicar o que aconteceu e como aconteceu? E no fim a pergunta de: " Quem és afinal tu?"

Esta pressa intensa de saborear bocas e bocas, traduzir sentimentos distintos, visões alicerçadas às ilusões de que estamos no caminho certo com o gosto certo, o amor certo é a mais pura visão de mentiras antecipadamente encetadas por força da pressa de termos alguém o quanto antes. 

Gostas? Amas....ou não percebes realmente nada disto? Cada vez mais esta sobeja, este egoísmo de subirmos patamares rumo à vivência de uma vida que se quer bem referenciada, experimentada e muito bem sentida dá cada vez mais o sabor de que estamos mais perto da solidão do que propriamente de um amor. 

Gostas, amas...ou não percebes nada disto? Hoje preparamos contratos a curto prazo, gerimos emoções de forma rápida e concisa, Denominamos , alteramos, pronunciamos e deduzimos apressadamente os gestos, as palavras, os conceitos e mostramos  novas possibilidades de existências de amor. Não há tempo a perder com auto conhecimento, com o desejo da salvação, da mudança do outro. Não há tempo a perder com mixórdias de temáticas que deixam de interessar. 

Gostamos de algumas coisas, desgostamos de outras, fingem-se amores, fingem-se orgasmos, fingem-se e tingem-se consciências e almas de resquícios de passagens onde a solidez do querer, do desejo, da força ou capacidade é meramente teatral. Não há tempo a perder com limpeza do passado, com presença efetiva no presente e batalhar em todas as frentes rumo ao futuro. Como cansa...como é desajustado, como é demasiadamente desolador e desanimador. Gostas, amas...ou não percebes nada disto?

Andamos todos doentes numa tentativa de normalização do ser, amores de plástico, bonecos de plasticina lá vamos nós tentando adaptarmo-nos ao inadaptável. É insuportável a possibilidade de luta a dois quando há um sem número de possibilidades com contratos a curto prazo. Não se quer, não se deseja dores de cabeça. Queremos ir ao encontro das preparações rápidas. De vidas feitas, de finanças equilibradas, de profissões sustentáveis que possam provir todo o amor. Ahhhh...como se tudo isto fosse uma nova "Wall Street" de cotação em bolsa de valores do quanto valemos realmente.

Gostas, amas ou não percebes nada disto? Há um equilíbrio que se busca na tentativa da sustentação do amor. Os desequilibros da vida não providenciam o tão desejado ceptro da vitória, de um amor incontestável porque, são raras e raros aqueles que tornam humanamente possível a possibilidade de transformação da liquidez de um amor à sua solidez e capacidade de competência na manutenção do mesmo.

Não nos tornamos guerreiros no amor...lutadores de excelência, exímios no comportamento, no debate, no conhecimento, na arte de dar, receber, entender  e ajudar...."That s bullshit" não há tempo a perder....

Tornamo-nos nulos, inconsequentes e perdidos em bocas desconhecidas deduzindo que com isso, com isso caminhamos a uma rápida ascensão emocional de cura, de sentido de melhoramento e capacidade de solidificar...mas quem? Mas quem!?

Quem gostas afinal? Quem amas afinal? Ou simplesmente...não percebes nada disto?



segunda-feira, 8 de agosto de 2016

SEM NAMORADA? SEM PROBLEMA...


Acho que aos 40 anos bati o record de estar sem namorada. Precisamente 2 anos, 4 meses e 3 dias. Tenho pensado seriamente neste ponto. Porquê? Afinal, se algo não me poderei queixar é de ter tido pessoas do meu lado ao longo dos últimos anos. Serei eu que estarei errado nas minhas escolhas? Ou serão os caminhos escolhidos por demais evidentes como falhos na consagração de aquele amor "Forever and Ever"?

Já tive as minhas doses de percepção do quanto é tão fácil ter alguém como tantas vezes é insuportável. Vamos fazendo aqui e ali concessões , mas a dificuldade está realmente no encaixe que se deseja ter e é tão difícil ao mesmo tempo. As ideias, percepções, formas, ciumes, como cada um se movimenta, se abre ou fecha emocionalmente requer na realidade um jogo de cintura que não é fácil.

A bem dizer esta reestruturação, este encontro de duas pessoas que nunca foram ensinadas como conviver a dois com diferentes estruturas ou pontos de vista elevam a fasquia ao mais alto nível de forma a que a compensação que haja de um e outro seja realizada e tida como um foco de equilíbrio e manutenção das relações. Como é tão difícil às vezes conseguir realizar e traduzir estes objetivos  nos equilíbrios amorosos. 

Este tempo sozinho não me deixou amargurado. Não se trata de sexo, beijos na boca, abraços ou saídas. Não se trata de ciúmes, de discussões, de alterações de humor ou de decisões. Não se trata de carinho, tristeza ou alegria. Este tempo sozinho é a necessidade que existe para tapar as feridas, crescer mais forte, criar armaduras especificas do foro emocional que te possam criar melhores defesas, mais estrutura, maior capacidade de te encontrares e entenderes mais ainda. 

Sempre tive como necessidade e deveriam ter todos um olhar que se quer critico também sobre nós. Sobre os sonhos, objetivos, amores, realidades fictícias ou fantasiosas, percepção do tipo de pessoa que desejas sem te perderes liminarmente e novamente andares em loopings. 

É certo e sabido que fácil é falar, difícil é sentir. Perdemo-nos tantas vezes por paixões que deduzimos serem amores e logo ali....bem ali na praia morrem tão rapidamente como surgiram.

Somos tantas vezes tão prisioneiros de amores como da própria solidão. Inquietamo-nos por não ter, assim como por ter. Procuramos, ansiamos, desejamos, desesperamos com o que aparece e não aparece. O que faz sentido ter e o que não faz nenhum sentido ter para a nossa vida. 

Dizia uma amiga que ficando em casa não conseguia encontrar amor nenhum. Era preciso sair, estabelecer contato visual, falar, procurar, pesquisar, traduzir as necessidades que posso ter ( como tantos outros) em "Social Marketing of Love". Socializar. Sair para beber um copo, dançar, meter conversa, aceitar os convites ( recuso quase sempre a maioria) para sair. Não sou anti-social...não é isso. Fácil é entrar num chat, ir a um bar, instalar aplicativos e "Let s find a new love".

Mas na verdade esta necessidade que em tempos já foi intensa, esta busca, esta vontade de partilhar o meu eu com outra alguém fez uma pausa depois de tantas viagens partilhas, conhecimentos, namoradas, ficantes e afins. 

A solidão nunca me afetou de forma a que eu pensasse que não mais teria a oportunidade. A solidão, a manutenção do meu eu como valor máximo e mais importante no caminho a escolher sempre foi o principal objetivo de parar por momentos e ver os pontos necessários que precisam de equilíbrio.

Traço sempre cenários de ciumes, omissões, mentiras, criticas, possessividades, apegos entre tantos outros, como forma de me visualizar em tantos outros momentos que senti na pele e fiz sentir estas mesmas emoções. Não é uma ciência exata e nunca será, porque somos todos falhos. A vida é uma caixinha de surpresas com todas as suas inevitabilidades. 

Mas conta essencialmente a intenção que existe de  um STOP em ti mesmo como forma de repensares no que és, no que podes dar e necessitas também na tua vida. 

São inúmeros os momentos em que nesta jornada em que a escolha tem sido namorares contigo mesmo, no meu caso, um casamento perfeito.  Cortares laços emocionais de apego, de raivas, de ódios, de ciúmes sem sentido e de poderes lançares o teu eu num oceano de equilíbrios leva muito tempo, Porque realmente apesar de fazer sentido para muita gente os ciumes, as raivas, as pieguices, as criticas, o apontar do dedo, o guardar rancor e afins...para mim nunca fez sentido nenhum, principalmente num namoro a dois. 

Esta liquidez de amores tão voláteis, estas pressas de amar perdidamente como se fosse a última vez, a sede de conquista, o desdém às vezes pelas emoções que hoje em dia são tão distantes e dispares tem transformado o amor num produto falho e facilmente comercializado   por um indiano qualquer como se de uma venda de flor barata se tratasse. 

E a principal razão indubitável de permanecer mesmo sem um amor, é saberes sentir o amor com a inexistência efetiva do mesmo. 

Daqui a pouco vou a caminho dos 3 anos sem namorar ( acreditem não foi por falta de não aparecer), porque sempre foi aparecendo...o problema é que a moeda nunca coube na ranhura por muito esforço que se pudesse fazer.

E eis a principal consequência do tempo que passa e vês-te deitado sozinho, entras em casa e só ouves os teus passos, olhas para o teu telemóvel e não tens uma mensagem da tua cara metade. E no outro dia acordas exatamente da mesma forma, como foi produzido o teu dia anteriormente. E esta consequência reside na arte da tua própria mudança e necessidade de entenderes que o caminho é o correto da tua mudança quando te deparas com amores líquidos e apressados. A falta de solidez engrandecem ainda mais a tua necessidade e acutilância e percebes que para teres o que queres necessitas de voltar a ser menino. 

E para que esta volta se dê existe uma necessidade óbvia que enquanto não aparece é mais do que necessária, é mais do que precisa. A necessidade de te apaixonares. 

E para te perderes num mundo onde a tua ciência de melhoramento possa entrar em ação é necessário que tenhas aprendido a morrer de amor...

Não te disseram? Só encontras no outro o que queres, quando deitares fora o que não desejas em ti. 

Até lá este "Marketing Social Media of Love" não passará de um sensacionalismo puro onde os loopings de amor de tão batidos que estão, de tão usados, feridos que estão, serão novamente para ti um puzzle de cacos, de feridas não fechadas e inquietude intensa. 

Não procuro acordar pela manhã na cama, virar-me e questionar: " Quem é esta?", antes porém, nada melhor do que acordar e dizer; " Sempre foi esta".

BM





sábado, 6 de agosto de 2016

AS GAVETAS DA INSATISFAÇÃO


"E como a felicidade pode se transformar na insatisfação, assim o desespero pode sumir no despertar de uma nova primavera.

Com cada dia, pode nascer um outro entendimento de nosso estado, nossos laços e objetivos." - Sun Tzu


Nós somos reconhecidamente insatisfeitos. Desde sempre, ontem, hoje e sempre. Não podemos fugir e nem devemos fugir à ideia de que um ser insatisfeito pode e também deve ser um ser em constante evolução. Deveria ser assim, mas nem sempre é assim. 

A insatisfação carrega também consigo ou particularidades de esperança no melhoramento ou particularidades de egoísmo no que concerne ao que o outro pode ter e nós não temos. Podemos ser sempre insatisfeitos e devemos estar insatisfeitos face aos vários acontecimentos da nossa vida.

Seja num trabalho, numa relação, nas amizades ou tendencialmente o que consideramos a nossa própria vida, o nosso eu, o nosso estado que permanentemente procura formas de poder estar melhor do que aquele que por norma se apresenta e nem sempre se contenta.

Os graus de insatisfação dividem-se por várias caixas. Umas mais cheias outras menos cheias e outras ainda totalmente vazias. Em algumas caixas carregamos uma insatisfação tão pesada que não conseguimos passar para a outra caixa de forma leve, tal o tamanho de forças que não possuímos dentro de nós para que a vida se possa tornar mais equilibrada e fácil de suportar.

Outras existem que conseguem, preencher as suas lacunas facilmente aqui e ali, deixando essas mesmas caixas de insatisfação perfeitamente equilibradas e então sim...fáceis de suportar.

Porque temos tantas caixas de insatisfação? Porque uns conseguem colmatar as suas insatisfações facilmente e outros demoram décadas tantas vezes? Há uma diferença tantas vezes abismal entre aquele que suporta toda a insatisfação vivendo e o outro que suporta esse mesmo grau de insatisfação clamando que a morte chegue o quanto antes. A diferença está entre o suporte da dor e o suporte da esperança. 

O problema muitas vezes com os graus de insatisfação é a vã comparação com uns e outros. O desejo de atingir o que o outro tem, de ter o que o outro tem. Essa insatisfação pode ter para nós tanto de um lado como de outro vários prismas. Cada um suporta as caixas que carregamos dentro de nós com o selo da espera de melhores dias e a capacidade de lutar contra a insatisfação, melhorando o que está à nossa volta e outros há que não conseguem preencher essa insatisfação por si mesmos e subjugam a energia dos outros para preenchimento dessas caixas.

Thomas Edison disse que a insatisfação é a principal motivadora do progresso. E tem de ser mesmo! Não basta ser apenas o progresso físico e quando me refiro a algo físico é no sentido material. Não basta ter dinheiros, carros, mulheres, sermos e termos o mundo aos nossos pés. É uma vitória terrena, cheio de benesses e apologia para uns de como a vida deve ser vivida e tida recheada de todos os merecimentos.

Mas na maioria das caixas se eu as encher com a caixa dos carros, terrenos, dinheiro, vontades e desejos de colmatar todos estes desejos materiais como forma de produtividade terrena e alcançar com isso a projeção de mim mesmo carregado com o selo da vitória da vida...não passará de um marco de nulidade e reconhecimento vão...

O caos em que as gavetas se encontram tantas elas desmotivadas, tantas elas assoberbadas de questões, dúvidas emocionais, feridas não fechadas, maus preenchimentos de espaços, requerem que o uso, que a bebida que tenhas para ti, que o enchimento do teu copo passe essencialmente pela sede de melhoramento de ti mesmo. Melhora-te a ti...melhoras tudo à tua volta...o que ganhas para ti...ganharão todos os outros contigo. 

Dignifica-te a ti como arma principal de vitória e darás sentido a todas as insatisfações conseguindo fechar as gavetas de tão equilibrado que vais estando com o mundo...

Colhe todas as tuas lágrimas, sorrisos, memórias que tenhas, quadros que idealizas-te para ti, colhe todos os amigos, os que fizeram bem, os que fizeram mal. Todas as relações que te fizeram andar para trás e outras até para a frente. Percebe todos os caminhos, alguns sinuosos, outros menos. Entende as gavetas, percebe o que carregas dentro delas...

No final...faz todas as contas que tiveres que fazer, enterra todos os teus machados de guerra se necessário...
Deixa apenas uma única gaveta aberta e que a essa possas sempre chamar a gaveta da esperança.





segunda-feira, 1 de agosto de 2016

A MALA


Sempre soube que  o bilhete da vida que compraram para nós, neste caso os nosso pais com a sua decisão de virmos ao mundo,  tem apenas um carimbo de ida e não de volta. Sempre tive desde muito novo a perfeita noção da finitude da vida, desta nossa temporalidade.

Não sabemos na verdade de quanto tempo dispomos. Sabemos que temos um relógio onde existe a praticidade do tempo para nós é quase sempre uma marca imortal. Mas não sabemos em que momento a pilha deste nosso relógio poderá, por fim marcar apenas o momento em que tudo cessará para nós. 

Pensar no último adeus, foi sempre o que mais me custou e custa. De certa forma desejaríamos, não diria viver eternamente, mas centro-me apenas no desejo de não morrer. 

Quando era mais pequeno e antes de ter conhecimento de todas as coisas, a minha mãe contava-me sempre que no nosso sistema solar, havia outros planetas e que nesses planetas haviam outras pessoas. 

E dessa mesma forma assim que o nosso trabalho de vida estivesse concluído aqui, começaríamos de novo em outro planeta, ajudando outras pessoas com o que tínhamos aprendido aqui. Mas dizia sempre: "Tenta dar sempre o melhor pelas pessoas, sê cuidadoso, trata bem, sê educado, bom rapaz, humilde e pratica sempre em tudo o que puderes o melhoramento, porque de outra forma será mais complicado entrares." 

Claro que com o tempo descobri que os outros planetas não são habitados ( ao que se sabe...) e que saindo daqui no mínimo o meu corpo vai para debaixo da terra. Existe a finitude e essa mesma finitude a ideia de morte sem volta, dá-nos ou pelo menos deu-me a mim a percepção do quanto a vida tem e terá sempre de ser vivida e maximizada a todos os níveis.

Sempre achei o máximo a forma como ela tentava de certa maneira,  dizer-me que a morte não era um fim catastrófico de tudo, mas sim algum tipo de  preparação...

Olhando para trás, recordando um pouco nos flash s de memória antiga e poeirenta que ainda carrego tento entender se tenho conseguido seguir os conselhos dela. 

Tenho todas as minhas conquistas resumidas a uma mala de viagem. Digo sempre isto à minha filha. 
É a mala da liberdade. Uma mala sempre pronta para a mudança, para novas viagens, novos conhecimentos, novas aprendizagens. Ela está desfeita, vazia...mas não sabem o quanto de histórias carrega nela. É a mala que te permite não estar agarrada a raízes, a histórias eternas e rebobinadas sistematicamente no mesmo filme. É a mala da esperança, dos sorrisos, feita e desfeita conforme desejas e queres. Não é uma mala que te aprisiona aos bens, que te rouba da liberdade de viveres e decidires rumos distintos. Não é uma mala que te pressiona para ficar ou ir.  

Quarenta anos de vida simplificados em termos de provas concretas apenas numa mala. Não tenho álbuns de fotografias espalhados pela casa, não tenho quadros caros pregados na parede com a assinatura de algum pintor de renome. Não possuo carros na garagem ou contas avultadas no banco. Não fiz por isso e sinceramente nunca me preocupei em fazê-lo. 

Ainda bem que a minha mãe não em deixou heranças, jóias, presentes ou caminhos que fossem mais estáveis para a construção do meu futuro. Deixou-me uma mala de viagem, onde percebi todas as diretrizes a ter, onde aprendi como conquistar, como lutar, como sofrer, como caminhar num oceano de lama e de almas sofredoras gritando por " Fica, fica com a nossa dor, fica connosco". 

Sempre tive ao meu lado a minha mala que em surdina dizia: "Ou optas por ficar e sofrer ou sofres caminhando". A última foi sempre a minha opção. Porque sabia que podia não ter nada de relevo, mas tinha a minha mala...e a minha mala carregava a minha força.

Não interesse que tipo de luz material ou imaterial carregamos, porque cada um toma para si as decisões que desejar para a sua vida. E muito menos tenho contra quem possa possuir o mundo. Eu possuo o mundo numa mala. 

E neste caminho que vamos fazendo, vamos encontrando outras pessoas com as suas malas, as suas vidas feitas e desfeitas. Umas dão-nos a mão e vão caminhando até vários entroncamentos da vida connosco, outros ficam-se pelo caminho órfãos de si mesmos ou das malas que carregam consigo.

-Não te pesa essa mala?
-Pesa todos os sonhos do mundo...
-E porque a carregas?
-Porque ela não me conseguia carregar a mim...