terça-feira, 27 de dezembro de 2016

ESCRAVATURA BRANCA - O LEGADO DAS CORES SEM OBRA




Quando me foi pedido para escrever sobre escravatura branca, um dos primeiros pensamentos que me veio ao de cima, foi questionar-me sobre : "O que é a escravatura branca?". Sendo que acrescentar algum tipo de ideologia indefinido ao cariz da escravatura, separando os seus meandros e teias existentes, pecaria por ferir susceptibilidades. Até porque na sua grande maioria todos nós somos alguma espécie de escravos. Motoristas dos sonhos dos outros. Somos escravizados em todas as cores por um legado de um quadro sem obra. 

Desde sempre que o tema escravatura sempre mexeu comigo. Escravatura negra, escravatura branca, escravatura moderna, escravatura infantil, escravatura sexual, escravatura da classe trabalhadora e escravatura amorosa. Há uma imensa panóplia de deduções, teias ancestrais que impedem o homem de se soltar nos meandros de uma liberdade que é escrava dos mesmos.

Escravatura deduz-se como qualquer pessoa que esteja sobre o domínio de outra não tendo para si como resultado um final que se conclua como liberdade. É a perda da sua liberdade, a perda do seu grito de estatuto como humano. É a perda da ordem que deseja para a sua vida, sendo assim serviçal de uma desordem requerida por outro.

Eu já experenciei como talvez vocês desse lado alguma forma de escravatura. Ainda que seja encapotada em tantos casos, não nos livra de estarmos destinados a ser marionetes daqueles que não se privam de si e adoram privar os outros de si mesmos e da sua eterna liberdade. Já experenciei isso no Brasil , Arábia Saudita e Portugal.

Há uma hierarquia, um conjunto, uma denominação de empresas, das quais homens remetidos a um sistema de escravidão financeira tomam por partido amealhar tanto quanto possível um conjunto de interesses que possa, promover o seu status enquanto dirigentes, sendo agraciados por isso com os melhores repastos, seja para si, seja para o equilíbrio da sua família empresarial e  no seio familiar da sua casa.

Há nesta nomenclatura de escravatura da "parvónia", de um grau emocional de total fraqueza humana e sentido de responsabilidade para com o seu próximo. A ideia base da sustentação da sua vida, da sua empresa, do seu status, depende exclusivamente de sugar todo o "sangue" disponível para proveitos futuros.

Procuram com isso aumentar a riqueza de forma exponencial através da privação de inúmeras liberdades daqueles que o seguem. São os denominados "chicos espertos" os falsos ricos, os favorecidos e aplaudidos de pé pelas suas façanhas. De estátuas futuras não terão nada a não ser mesmo a volta a um estado de pó do que os mesmos vieram, do qual muitos não deveriam sequer ter saído. Ditadores, assassinos, corruptos, mentirosos, aproveitadores, saqueadores, branqueadores de capitais e afins, são o tipo de pessoa que um cartão vermelho é pouco para uma humilhação que deveria ser feita como nos tempos da idade média.

Se houvesse algum tipo de ressurreição para todos nós, deveríamos ser conotados seja com o que fizemos a nós mesmos, como o que fizemos aos outros. E deveria haver um critério de escolha que colocasse logo por antecipação de parte, aqueles que por esta ou por outra via se reproduziram através da privação da liberdade do outro. Quem vem por bem e que deseja ver o outro feliz como a si mesmo que viva. Mas quem por estradas e caminhos se desvirtuou, não quis ouvir ou não aprendeu, porque achou que o seu caminho era certo...que fique de parte na construção de um novo mundo.

Nós precisamos de pessoas que respirem liberdade, que produzam riqueza sustentada e equilibrada entre uns e outros. Aquele que tal como hoje se aproveitam do outro para criar as suas próprias riquezas, matar a sua própria fome, sustentar a sua família com base no roubo dos outros, ainda que numa escala hierarquizada se mantenham como os lobos ferozes e capacitados, não lhes auguro nenhum tipo de liberdade própria.

Lutam por dinheiro. Lutam por uma casa melhor, um carro melhor, mais comida na mesa, lutam por um relógio de marca, uma roupa de marca. Lutam pela compra da mulher mais virtuosa, ou da cabra ambiciosa que se compadeça com a riqueza estendida aos seus pés. Lutam por uma ida a um restaurante de classe, a iguarias mais saborosas, Lutam pelo preenchimento de uma conta bancária mais recheada, pelo lucro. Lutam por um par de viagens, por uma colégio de status para o seu filho. Lutam pela manutenção das gravatas, dos fatos, dos encontros de batidas nas costas. Lutam pela vazio, porque o ideal de ser é sustentado pela ganância, logo...tremenda pobreza que se recheia de um limbo do qual a vida se envergonha de lhes ter dito ao ouvido: " Bem vindo ao mundo".


Gente que não se compadece como gente é gente que não é titulada como gente. O que é que as pessoas tem realmente na cabeça, é a pergunta com a qual eu me questiono. É falta de amor? É falta de aprendizagens de carinhos, de afetos, de solidariedade, de saber partilhar? Foram massacradas na infância? Aprenderam com os pais a arte do roubo e ganância? Aprenderam com a vida, que liberdade só existe para eles? Que traumas carregam para se usar de outros?  São as teias que são criadas em que as pessoas caem e se tornam escravos das mesmas? É a sociedade que os impele a isso?

É o medo de perceber que não vivendo de uma forma, perdem-se? O que é que as pessoas tem na realidade na cabeça? Durante a minha vida lidei com todo o tipo de chefes e empresários. E todos tem um ponto em comum: A ganância. Eles respiram escravidão, que transformam em "Força trabalhista". Ora...que se fodam com essa frase. Sempre os ouvi atentamente sem nada dizer. Sempre achei graça aos seus discursos e forma de ver a vida. Sofredores, desgraçados que tanto passaram, lançam uma imagem de que a vida lhes custou os "cojones" que tanta falta lhes fazem para a reprodução de mais gananciosos e a perpetuação de mentiras que passam de pais para filhos. Por isso em cada cinco supostos bonzinhos que nascem...3 serão uns eternos asnos avarentos.  

Ora...passaram merda nenhuma. A grande maioria é levada ao colo por hierarquias, por conhecimentos, batidas nas costas, em que os menos capazes e atentos se deliciam com os seus eternos feitos.

Que feitos? Ghandi...fez uma obra. Jesus Cristo...fez uma obra. Marthin Luther King....fez uma obra. Madre Teresa de Calcutá...fez uma obra. Que status equivale a quem se deduz importante de obras vazias?

A escravatura branca, a escravatura negra, a sexual, a infantil é um clássico ainda dos tempos modernos. Embarcamos todos os dias com um sentido de dever para a nossa sustentação como humanos. Dependendo dos medos enraizados de não perder empregos, dar o melhor de nós e muitas vezes a privação de estar com família, de momentos de alegria, para que o lobo mau possa ver em nós algum vislumbre de retorno feito por si. Alimentamos o lobo pela manutenção dele...e pela nossa sobrevivência.

Seja aqui, no Brasil, Arábia ou outro canto do mundo deparei-me com todo o tipo de escravidão. Umas mais acentuadas que outras. E quando te questionas tantas vezes da razão desse mundo em que vivemos, dessa irmandade global de que todos usufruímos, não ser o que desejarias, no sentido da construção de um mundo equilibrado...o que me surge na ideia é que a própria concepção de um apocalipse onde sobrevivessem apenas aqueles que fazem a obra correta, aqueles que lutam pela manutenção de um por todos e todo por um....então sim...faz sentido virar o mundo ao contrário, para que possa emergir um novo conceito de vida.

A pergunta que fica é: De que parte do conceito de vida...estás tu? Porque se cego queres ser...para sempre cego ficarás...



MULHERES MAU FEITIO



(...)Mulheres de mau feito são autênticos tanques de guerra. Elas não deixam que se passe por cima…elas mesmas tomam esse comando. Mas fazem-nos apenas para não serem desvalorizadas ou tratadas como algum tipo de biscate.(...)
(...)Não são as mulheres que tem mau feito. Os homens é que não sabem fazer escolhas…“Gourmet”.(...)
“Tenho por hábito fugir de mulheres com mau feito a sete pés.” – Dizia-me um amigo há dias. Há várias razões que podem evidenciar um determinado tipo de personalidade nas mulheres que muitas vezes é fruto do que elas fizeram e do que não foi feito às mesmas.
Ou seja, existe no amor uma lei invariavelmente suculenta que todos gostamos. O retorno. Ainda que muitos possam dizer ou hastear a bandeira do “ Tenho é de gostar de mim”…é treta. O “ Tenho é de gostar de mim” surge apenas no seguimento do “Eu fiz e não fizeram por mim” e logo invariavelmente a ideia de “Eu tenho de gostar de mim” passa a ganhar um valor extra. Na verdade encontrar um amor é a tentativa de encontrar pedaços de curas de falhas em mim. As pessoas que tem mau feito e que por norma gritam aos sete cantos: “ Eu sou como sou”….é tudo treta.
Na verdade a ideia do “ Eu sou como sou” surge, porque nunca apareceu ninguém que a deixasse de pernas bambas e evidenciasse nela, tudo o que não é e gostaria de aprender a ser. Este “ Eu sou como sou” acaba por ser uma chamada de atenção, um letreiro num cartaz que não é mais do que: “ És capaz?”. És capaz de amar como devo ser amada? És capaz de compreender como devo ser compreendida? És capaz de valorizar como devo ser valorizada?
És capaz de ser para mim o que sou para ti? Então…este “Sou como sou” assusta em certa medida, porque em certa medida também, os homens não querem perder tempo com a dificuldade. Eles gostam de se encontrar na facilidade. E na verdade elas deleitam-se com a incapacidade do homem que se perde em justificativas falhas de si mesmo. Quando eles pensam que estão a chegar lá…já elas fecharam a porta e perdem-se de vista no horizonte.
Partindo do pressuposto de que amor dado é amor recebido e não o tendo eu a minha “dívida” saldada nesse balancear entre o ativo e o passivo das minhas contas amorosas, é natural que se criem raízes que desmistifiquem a natureza do amor e produzam seres descrentes na ideia do retorno. Aliás, como não existir, tantas são as falhas resultantes do ato da conquista, da paixão, do fogo, do tesão. Ainda que parem por uns momentos e digam: “ Mas isso do que falas não é amor! Fogo, tesão, conquista, paixão” Amigos (as) é o prenúncio do que fazes hoje, como ages hoje, de que forma tocas e te comportas que estende a tua passadeira do amor.
O tamanho da mesma…depende sempre do tamanho da tua vontade. E o tamanho da tua vontade valida a consequência do que fizeste, no ato de desejar para ti, o que te propuseste a conquistar.
Não há mulheres de mau feito. Há mulheres mal amadas, mal cuidadas, mal valorizadas. Não me venham com tretas que mulheres de mau feitio são assim…porque simplesmente são loucas e desvairadas! Ninguém nasce com mau feitio, como ninguém nasce idiota, como ninguém nasce com ausência de amor, grandeza ou fraqueza no mesmo. A verdade é esta. E a verdade é que os homens fogem maioritariamente a sete pés destas mulheres, porque a sua capacidade de amor para as mesmas é falha. Eles tem essa noção.
O homem quer e sempre quis de alguma forma o galardão do insubmisso. Mas para deixar de ser um lado é necessário que o outro se prostre a si. Mulheres de mau feito são autênticos tanques de guerra. Elas não deixam que se passe por cima…elas mesmas tomam esse comando. Mas fazem-nos apenas para não serem desvalorizadas ou tratadas como algum tipo de biscate. E os homens adoram mulher que de certa forma não dê muito trabalho.
A verdade é que há mulheres que por A mais B foram negligenciadas de várias formas. Falta e falhas de amor de pais, ausência de afetos, ausência de atenção, foram humilhadas, traídas, desclassificadas, subjugadas, violadas emocionalmente, ficaram descaracterizadas, como um quadro apenas de uma única cor à espera que alguém o possa pintar do sonho em segredo que acalentam.
Detesto a ideia de que uma mulher de mau feitio…é assim porque o é. As mulheres de mau feito são conotadas como desequilibradas, eu conoto como equilibradas. Porque ao contrário das outras que se perdem em amores e desamores, estas tem o verdadeiro sentido do sofrimento que carregam e por conseguinte a sua visão está muito mais acutilante e as suas defesas muito mais extensas.
A mulher que tem mau feitio tem uma valorização de capacidade de si mesma mais autónoma. Não falha a ideia nelas da desonra no amor. Pelo contrário. A mulher mau feito não se deleita em procurar a outra parte de si no outro. Ela capacita a ideia de um estado educativo que o outro, necessita de possuir como valorização, na crença de que ela vale mais do que se imagina. Porque é mulher, porque carece de respeito, de um olhar digno, de um valor que acresça ao outro um estatuto que lhes permita olhar um no outro, apenas como um só.
Elas reconhecem a energia desperdiçada e por conseguinte canalizam para si, para a sua estrutura a paciência que se exige no ato de merecer o melhor. Todas as mulheres de suposto mau feito que conheci eram brilhantes. Porque canalizam o valor da mulher como ele deve ser canalizado. Ainda que as falhas resultantes de amores idos, de ausências de afetos, de colocar a chave na porta e verem-se imensamente sozinhas, há nesta ideologia patente de paciência entre meio de lágrimas, um valor imenso de uma estrutura que se deseja forte e cheia de personalidade.
Elas não fazem parte do leque das facilidades, dos loopings amorosos, do “dar” por “dar”. Elas fazem parte de uma elite de soldados que entendem o amor na sua forma mais crua e nua. Porque simplesmente souberam aproveitar as migalhas de amor, souberam ler nas entrelinhas o conceito necessário para não serem isentas de amor por outros. Ao adquirir esta suposta presunção de serem livres, descomplexadas, desinibidas, fortes, audazes, inteligentes e não se confunda portanto, que reside aqui o conceito escabroso de que isso, se deve ao fato de serem as ovelhas negras do amor.
Não são as mulheres que tem mau feito. Os homens é que não sabem fazer escolhas…“Gourmet”.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

OS REJEITADOS NO AMOR



Naquele final de semana saíste de casa, para te ires divertir com os teus amigos, como tantas vezes o fazias sem mim. Era a tua necessidade de respirar, de traduzir em plena verdade de atos a tua rejeição para comigo e fazendo aumentar em ti o alimento da tua necessidade, da continuidade da tua auto estima. Tu jamais poderias morrer, ainda que eu nos teus braços estivesse em súplica de morte e desejos de atenção. O alimento da tua alegria, da tua disponibilidade para os outros, de dar e receber sorrisos, teria de continuar e ser carimbada,  como apta para a continuidade de uma felicidade estritamente tua. Era o tempo e a hora de respeitares as tuas necessidades, ainda que desrespeitando a presença do outro e a necessidade dele para contigo. Era como o roubo do cobertor em noites frias para que perdurasse em ti a continuidade de vida.

Eu não percebia que a minha tristeza era um fator, dilacerante em ti. E não deduzas em ti que um homem não chora e não se rasga de dor pela falta de amor. Pelo contrário. Deduzi que nesses amores, de trocas, de partilhas, de segredos, afinidades, se percebesse a realidade de cada qual. A farsa da rejeição não qualifica o amor. O amor qualifica a rejeição como parte integrante de uma escolha, ainda que dúbia que fazemos. 

E era dilacerante, não porque sofrias com isso, mas porque te fazia sofrer a ti mesma estando perto desse sofrimento. Não era um padecer de sofrimento entre dois. O que era grito de súplica no desejo de ficares, era visto por ti como uma monstruosidade na união a mim em prantos de dor. Inqualificável essa sensação para ti, quando lá fora pernoitavam sortidos de desejos, atos de paixão intensa e vida a ser vivida.  A nossa música passava então a ser distinta. Para ti, essa rejeição refletia a falta de intencionalidade no ato de amar. Logo , a minha presença era tido como "Persona non grata" e consequentemente a minha existência apenas era sentida e entendida por mim, não como parte da consequência de não ser amado, mas como parte da ilustração de uma escolha errada.

Entre a escolha de sofrer em conjunto ou de alimentar a auto-estima rodeada de alegria, moralmente escolheríamos a primeira. A primeira aceita os abraços sentidos, deseja os carinhos, recria os afetos. Até porque o legado de humanização que trazemos dentro de nós, ainda que imperfeitos e monstruosos em tantos momentos, ainda padecemos de sentimentos de nobres burgueses deliciados na arte de dar. Mas...padecemos também de uma ambiguidade latente de desejos diversos. E onde temos o poder de decidir o que no momento nos pode fazer melhor. E por isso muitas vezes recusamos abraços, destituímos afetos, cobramos melhorias e recriamos fantasias.

Ninguém quer tolerar o sofrimento, porque glória, seja dada ao egoísmo, de não padecer de tal doença e dela fugir a sete pés.  E quando assim é e nos vemos destituídos pelo amor daquele que tanto nos dizia, tanto nos prometia, tanto nos desejava, sofremos desmedidamente, porque ansiamos a volta de quem saiu e não retorna mais. E invariavelmente quando somos rejeitados, desligados da alegria, do sentido que deduzíamos ser o pleno de felicidade  para nós, sorrimos perante o desejo da morte. As lágrimas que percorrem a nossa face não se utilizam de remos, de barcos sem rumo ou faróis que nos indiquem o norte, nesse rio de tristeza que nos assombra perante o desleixo da rejeição.

Ser rejeitado, trocado, gozado, desprezado, desvinculado de ti mesmo, não é um sinal de que tu não prestas. De que tu não vales nada. De que tu não sabes amar, não sabes cuidar. A rejeição é o botão de "S.O.S" que o amor oferece como aviso num toque intenso e ruidoso, na tentativa de te avisar de que chegou a hora da mudança. Chegou a hora da alteração, que chegou o momento de dizer não à monotonia. Que chegou o momento de refletires na concepção dos teus atos. De quem és, do que fizeste, do que podes melhorar, do que podes ainda ser.
É o aviso das escolhas que fazemos, do que desejamos na realidade, do que queremos, do que ansiamos, do que sonhamos. É um aviso à tua não "mortificação", é um aviso, é um abanão à tua estrutura. O amor avisa-te do amor que sente por ti. Do que vales para ele, do que és para ele. Do que ele ainda necessita de ti para que sobrevivas nos seus braços. O amor é a tua amante, é a tua mãe, é o filho que nunca te larga, é o conselho sábio que te identifica com o selo da vida.

A rejeição é a prostituta que se delicia com a tua tristeza. O seu chulo é a falta de coragem e a sua empresa tem o nome de apego.

Constrói a tua base humana num pressuposto: Ama quem te ama...liberta quem te destrói...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

RELAÇÕES FORÇADAS - REFLEXOS DE FRAGMENTOS QUEBRADOS



Há uns anos atrás pude perceber com a mais perfeita clareza até onde pode ir o egoísmo das pessoas na tentativa de salvaguardar para si a noção, de que o seu pequeno mundo apenas pode e deve sobreviver mediante um estado de segurança que simplifique a sua vida. Relações forçadas, desconectadas de amor, apegadas ao desejo da condição de segurança não são mais do que cães de fila que, entediados e baralhados com a conotação de coragem se agarram em prantos ao seu amigo de peito à...sua imagem de medo.

O conceito aqui não diverge na tentativa da complementaridade. Sugadores de energias, dançarinos ágeis na arte de perpetuar um legado de um público que os aplauda de pé como reis e rainhas, onde o culto do "Eu" resulta na ignorância inocentada do "Nós". São os chantagistas de amores, os prostitutos de migalhas, os miseráveis que entoam o amor tido, ganho, conquistado como um troféu que possa refletir a sua condição de vitoriosos, porque a vergonha da perda reflete a sua incapacidade na arte de amar.

O brilho define-se por unicidade. O ser único através do roubo da alegria do outro. Outro? Que outro? Eu! São os subdesenvolvidos. Os compradores de rifas que na esperança de um prémio que alimente a condição de subjugação do "Nós" perante o "Eu" se agarram ao mesmo com unhas e dentes na cobardia latente de uma fraqueza invisível. 

Assaltam todas as metades com o intuito de proteger um espaço apenas seu. São os assassinos em série que se ocupam de desenvolver através da descrença do outro o brilho da sua crença. São os destituídos da sua honra que crêem ardentemente viverem autênticas histórias romantizadas, para combater a sua ignorância e definição de apego. Dotam ao isolacionismo o objeto amado votando os próprios a uma solidão ruidosa. São presentes sem estarem presentes. São ouvidos sem serem ouvidos. São alimentados sem serem amados. São crentes na ideologia holográfica da existência de um grande amor que há muito se foi. Amam crentes de que o vazio é a sua alma gémea.

Por diversas razões a tradução da doença que empobrece a solidão não se compadece com ausência ou presença das pessoas tal como 
Friedrich Nietzsche dizia. Antes pelo contrário o que empobrece o estado latente de solidão são os eternos assaltantes que nos destituem da verdadeira companhia. Do sonho de ser amado (a), da esperança de ser cuidado (a). Da eterna leveza que a liberdade oferece ao sentido da vida.

Casadas, solteiras, em união de fato, divorciadas, homens e mulheres, andam todos perdidos em andares errados. Sem culpa, isoladas, em solidão, desapropriadas de si mesmas, vitimas das circunstâncias de vidas, carregados de opressores que cavalgam às custas e às costas daqueles que humildemente apenas diziam: "Eu só queria ser amada(o)..." e ansiando pelo retorno de uma resposta breve que te eleve a um patamar de eterna condição de felicidade escutas: "Quem? Eu?".

Entende-se errado, percebe-se diferentemente, porque o pólo que concentra o amor que se quer distribuído de igual modo, padece de uma brutalidade sentimental onde a planta do seu jardim é o resultado da sua eterna fraqueza e da sua sublime conquista.

Ora...o conceito necessário e opressor de mim para mim e da negação pelo amor ao outro, define-se no disfarce das máscaras intensas que carregam numa só palavra: Fode-te!

Trituradores de emoções, presos numa constituição absorta de uma humanização degradante e que da mesma, espalham sabores intensos de paladares ilusórios, que mais não são, do que espinhos que cercam a sua vitima na esperança de reter esses amores e que em silêncio buscam novos odores...

O ser isolado, destituído da sua condição de ser amado, de ser tratado, de ser cuidado, silencia-se em si recriando um espaço onde fragmentos de reflexos quebrados, aguardem por fim dar sentido ao que é feito de si...



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

(DES)BLOQUEIOS DE UM CORAÇÃO FERIDO



Não quero nada contigo, não quero nada de ti! Não preciso que faças do teu amor por mim caixotes de entulho que jazem a céu aberto à espera de serem resgatados. Alguém te disse que o alimento da minha alma eras tu? O alimento da minha alma é suportado pelo que faço de mim! Não preciso de ti! Seu otário! Não mereces nada mais do que a feliz coincidência de te conotar gramaticalmente sintonizando...a tua infeliz realidade! Frustrado na própria desordem interior!  Será que não percebes a dor? Não entendes que as lágrimas que me escorrem é do veneno ofertado por ti?

Foste tu que me marcaste, que bloqueaste o meu coração, iludido na crença de que estava segura em ti. Crendo nessa força que o descrédito tido, cairia por terra, tanto era o amor depositado em nós. Minto...amor depositado apenas em ti, na tua cura. E que tu ainda assim...eras parte de mim, como eu seria sempre de ti. Unificados, de remos em riste, no nosso barco da vida, contra as tempestades que se aproximassem.

E o que me dizes agora? O que faço eu com o vazio? Com um barco parado em rios secos? Poluídos? Desvinculados de nós? O que faço com os remos que seguro sozinha? O que faço com um barco sem...destino? E com os sorrisos perdidos? E esses abraços sentidos? E agora...como me recomponho? Como volto a aceitar? Como volto a acreditar? Como volto a amar? Como volto a sentir? Como posso dar de mim? E o que estou disponível a receber? Como desbloqueio um coração sem rumo? Como volto a desejar? Por Deus...como vou agora abrir de novo as portas da minha alma já de si fustigada, desacreditada? Seu insensato! Louco!! Não vês o que me fizeste? Como me deixaste? E como eu permiti que assim fosse feito, desenhado por ti o plano perfeito, para uma conquista brilhante? Como? Aplaudo de pé...essa tua arte de cupido de morte.

Tanto que eu te dei! Tanto que te ofereci de mim!! De mim para ti!! De mim para nós!! De nós para o mundo! Sabes o que te digo? Vivemos para nós! Somos apenas emprestados uns aos outros por uns tempos. Como não entendes o meu grito desta minha revolta? Rebelei-me por ti, mas revolto-me por mim!

Tu que com um simples gesto de adeus personificaste tudo o que passamos! Um simples levantar de mão, de um bater de uma porta, de uma despedida que desprendida, destituiu o olhar preguiçoso, que se mantinha eterno, efémero...desnudo...perfeito...nesse conceito de te amar.

Amor, traço de palavra fácil, de gosto duvidoso projetadas por lábios insensatos despreocupados...e eu desnuda em ti, reflexos da luz que irradiava nas sombras mais distantes, ouvia feliz, crendo nessa eterna melodia como tua e minha.

Não te desgastes, não me venhas abraçar com essas notas musicais que passas de uma para outra. Com essa linguagem fácil, de conquista barata de homem necessitado de amor. Com esse ar desgastado, desvirtuado, desconectado desse som! Sim!! Esse som do bater! Esse som de vida que clama e que ama...e que tanto se engana! Desse som que brilha no limbo, que canta e encanta! Que não se rasga, não se humilha, não se rende e não se prende...apenas se entende!

Entende por ti, não te resguardes na dor que provocaste em mim. Sou eu que suporto esta dor sozinha. Sou eu que faminta de amor em prantos de dor colo os pedaços das pétalas que se apartam de mim. Não te faças de santo, não te imagines portanto a figura latente de lágrimas em pranto! Desabita de mim! Desaparece por fim...para que te encontres em ti...e eu...ahhhh...que eu nunca me perca de mim...


terça-feira, 20 de dezembro de 2016

QUE EDUCAÇÃO QUEREMOS PARA OS NOSSOS FILHOS?


Eis uma questão que a maioria dos pais não se debate tanto como deveria debater-se. E antes que se soltem as vozes de discordância que em uníssono possam rebater de forma violenta dizendo: “ Como ousas? Faço tudo pelos meus filhos, estão nos melhores colégios, damos a melhor educação, fazemos o melhor por eles muitas vezes tirando de nós!” Chamo a vossa atenção para algo tão sublimar como a arte da paciência que resulta numa obra de arte que se denomina por : Saber ouvir.       

A maioria dos pais apenas educa ou invariavelmente deseduca. O pai quer que se eduque de uma forma. A mãe não aceita que o pai se expresse da forma como o faz e como deve ser educada a criança, chamando por isso e muitas vezes à atenção à frente dos filhos, criando assim também inseguranças que se espalham por todos, na perda básica que é a confiança já de si ténue.

 A avó tenta pôr água na fervura e equilibrar a fraca linha já existente entre pai, mãe e filhos. O professor que deduz que a criança tem hiperatividade ou stresse pós-traumático perde-se em reuniões, escreve eternos recados para casa queixando-se da falta de atenção e indiretamente apresenta nas entrelinhas o dedo acusador de falhas na educação da sua ou seu submisso ou eterno aprendiz de dados científicos. O psicólogo que procura debater-se com as angústias da mesma tenta a todo custo traduzir no seu relatório as principais causas do desequilíbrio emocional da criança. A criança essa, na maioria das vezes apenas se questiona com uma pergunta: Podes fazer-me feliz?         

Opiniões divididas criam seres insustentáveis e desordenados. Somos presenteados com obras de arte dadas pelo universo e leiloamos muitas vezes ao desbarato essa condição que nos é oferecida.  Gritamos todos na tentativa de fazer o melhor, de dar o melhor: “ Eu é que sei o caminho!”      “ Eu é que sei o melhor para ti” “ Eu tiro de mim para dar a ti”, “ Debaixo do meu teto, quem manda sou eu!”, “Fazes o que te digo!” “Não responde, não sejas mal educado, não atentes contra a nossa honra” “Não exijas, não comentes, não te rebeles”. “Não insistas, não resistas”. E andamos surdos na questão que colocaram: “Podes fazer-me feliz?         
            
Sofremos de alguma demência na arte da destruição e extorsão. Exigimos e compramos essa mesma exigência com o sabor amargo da chantagem: “ Se te portares bem…tens um prémio…” “ Se tirares positiva…aumento a tua mesada!” , “Só almoças quando acabares os trabalhos” “Só falas no facebook se me apresentares boas notas.”  “Não vês o que me esforço por ti?”    

Adoramos atirar as pedras da culpabilização dos nossos problemas com o nascimento dos mesmos. “ És um ingrato! Eu que te ofereço tudo”, “ Eu que te trouxe ao mundo”, “ Se luto por ti, tens de lutar por mim”.  E a pergunta paira sempre no desespero do olhar de uma criança: “Podes fazer-me feliz?”       


Aborrecemo-nos com as suas inconstâncias, com a desordem que erradia de si mesmo. Não temos tempo, não temos paciência, arranjamos explicadores, psicólogos, professores dispostos a fazer o papel de mediadores de pais. Mas não chega! Ainda que o tempo seja demasiadamente curto para os desejos mais recônditos na arte de amar ainda tentamos arranjar tempo para que o nosso amor seja traduzido em tempo com eles…mas…deles para eles. Ahhh…porque temos a falha do tempo.            

É o nosso trabalho, é a nossa individualidade, são os nossos amigos, são as gajas giras que aparecem na nossa vida, são as mensagens do facebook, as eternas conversas entabuadas com novas paixões, desejos escondidos. Não há tempo! Não há tempo não há tempo! Queres comer? Vamos ao MacDonalds despachar isto. Tempo para uma história? Está tarde, amanhã acordo cedo. Podes ajudar-me na matéria? Não percebo nada disso, vai ao Google! E apesar de tantos esforços que nós pais fazemos…não te esqueças, tens de tirar boas notas! Tens…de respeitar! Tens de dar o melhor de ti! E eles só perguntam: “ Podes fazer-me feliz?”                      

As novas tecnologias, os jogos, os smartfhones,  em muitos casos passaram as ser as novas “Child Care Provider”. Tempo de amor? Claro…com uma positiva no teste, com um balanço válido e sustentável na escola o amor vem em forma de orgulho desmedido e gritos de regozijo : “ Tenho o melhor filho(a) do mundo!!”.       


Os pais apenas expressam o desejo de criar génios sabotando a própria criação e prontos para o mercado de trabalho. Quando a grande maioria das nossas crianças passa 80% do seu tempo em escolas rodeadas de professores, diretores, sub-diretores, delegados de turma, horários esquematizados e a necessidade de praticamente todos os dias terem trabalhos de casa e de os fazer senão lá vem o tão assustador “ Castigo”. Não passamos a ter filhos, passamos sim a ter soldados que se tenta capacitar para serem génios prontos para a nossa sociedade. E eles só perguntam: “ Podes fazer-me feliz?”    

O problema na arte de traduzir a educação reside num estado de letargia próprio dos pais que tantas vezes estão cansados, desligados da verdadeira essência do que é cuidar de uma vida humana. Muitos não tem culpa, ninguém nasce com um livro da sabedoria. Muitos fazem o melhor que podem e conseguem e muitos dão continuidade a verdadeiras obras de arte. Mas muitos…e são tantos e tantos…andam cegos, surdos e mudos.     

O que seria uma bênção da vida para nós, muitas vezes é votado ao esquecimento e dado para que a sociedade os eduque. Ela tem a necessidade de completar as suas salas de aulas com mais e mais produção em série. Nós sobrelotamos as nossas crianças, deixamos que sejam povoadas com trabalhos incessantes e esquecemos que elas só podem ser educadas, trabalhadas se as mesmas sentirem a envolvência na atividade que fazem.  

Na atividade que se chama de tempo. Tempo de amor, tempo de respeito, tempo de sabedoria. Tempo de confiança. Tempo de equilíbrio. Tempo de carinho, tempo de sustentabilidade. Tempo de amar olhos nos olhos. Tempo de dar, receber. Tempo de pazes entre pais que se esgrimam em discussões absurdas do que é melhor para o filho. Ora…seus idiotas…o melhor para o seu filho tem um nome. Amor!      O melhor para um filho tem um nome: Felicidade. O melhor para um filho tem um nome: Dedicação. O melhor para um filho tem um nome: Sensibilidade. O melhor para um filho tem um nome que se chama abraço, tem um sobrenome que se chama amo-te e uma alcunha que se define por incondicionalidade… 

E tu que no início possas ter perguntado: “Como ousas dizer que não educo o meu filho” deixo nas tuas mãos a resposta que ele (a) colocou:

“Podes fazer-me feliz?”          





segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

A DOENÇA DEGENERATIVA DE TAPAS NA BUNDA



Há uma tendência que foi crescendo ao longo dos anos e vejo isso em conversas típicas de homem no que toca ao sexo de que: "Elas adoram levar umas boas tapas!Alli...com força!". Um amigo dizia-me há tempos: "As tapas são a necessidade que o homem tem de mostrar quem manda! Who s the boss?"

E claro, algumas adoram, sentem-se presas na ilusão de um filme de: "50 Shadows of Spank", outras porém e como até já aconteceu comigo dizem educadamente: " Mas tu estás parvo!?!!" Confesso...fui um pouco efusivo, mas não tenho culpa de ter transportado o bater de panelas com colher de pau num final de ano para o...bem bom!. Culpa minha!


Sexo é algo que deve ser visto com alegria sem necessariamente virar palhaçada total. Não vais chamar a corporação de bombeiros da terra e dizer alegremente: " Como é? Tragam a mangueira! Vamos lá pessoal?". E muito menos vais tomar a posição de  criança tímida que sempre viveu debaixo das saias da mãe e na hora do bem bom dizer: " Não, não, não!! Toma, toma! Só faço amor contigo se puseres a música do Noddy..."

As tapas surgem como uma forma de masoquismo latente que nada mais é, senão uma expressão de dominação de um sobre o outro. Há momentos, formas e atitudes que se devem demonstrar no fogo da intensidade que é partilhado e tido como algo normal entre os dois. E como é usual dizer-se, entre quatro paredes tudo vale! Não existe a denominação de machista ou feminista na hora. É um desenrolar de química perfeitamente normal e entendido pelos dois. O pior...é quando há exageros....

No outro dia um amigo orgulhoso dizia:

-Dei-lhe com tanta força que até ficou com as nádegas em sangue! Aquilo que é que foi mostrar quem manda! Eu até lhe dizia: "Say i m your daddy!!" Sou macho!!

Esbocei-lhe um sorriso, dei-lhe um abraço e despedi-me dele dos cuidados intensivos no hospital de Santa Marta onde se encontrava, depois da sua demonstração de afectividade para com ela e da resposta da mesma ao seu ato de patriotismo acérrimo por uma bunda.

Eu acho engraçado levar o braço atrás e fazer sentir ao de leve a brisa suave que percorre o tempo que levo até acertar no alvo. E tomo sempre os devidos cuidados para não ser mais um onde se possa ler no cartaz: " Já foste...". Há uma certa matreirice e forma de tocar no ponto...deixando um sorriso no rosto e nunca um ai demasiado longo acrescido de: " Seu filha da puta...vai bater assim na....". Be smart...evita isso! Mania que os homens tem de desejar que as mulheres produzam sons como nos filmes porno. " Isso....estás a gostar não é?? Grita! Isso grita mais alto" Se eu fosse gaja pensaria para mim: " Tadinho...tem a mania das grandezas..."

Também podes encontrar invariavelmente mulheres que detestam que se bata com a mão e dizem-te ao ouvido: "Bate-me com essa coisa de fazer xixi". O que pode trazer problemas de cariz emocional no que toca a homens que tenham limitações em termos de tamanho. Nestas alturas duas opções: Bomba de enchimento ou simplesmente proferir: " Fuiiiii". Ninguém quer ficar mal visto.

Não sei porque mas desconfio que os homens tem parkinson desde novos. Quando nasces pareces um idiota a chorar a abanar as mãos por todo o lado. Dá a sensação que tens algum tipo de doença degenerativa. Espasmos com as mãos por comida, frio, colo, por estares...simplesmente chateado, por não dormires.

Uma antiga namorada dizia: "Bunda é para se agarrar feito homem! Macho! Quem bate na bunda é frutinha, ouviste seu otário!! "

De lágrimas nos olhos, com um lenço de papel que a mãe dela me tinha dado no exato momento, fiz-me forte, escutei o conselho dela...e nunca mais quis outra coisa que bater numa bunda...

E afinal? Queres ser macho ou queres ser frutinha?

domingo, 18 de dezembro de 2016

DIZ-ME QUEM ÉS....E EU TE DIREI QUEM SOU



Hoje existe uma apologia ao medo. Cada vez mais os segredos, as verdades, os valores ou honras, passam para segundo plano. O medo teceu uma linha quase inviolável e transformou os fortes em fracos. Fracos na hora das tomadas de decisões, fracos na arte de amar. Fracos na grandeza que a sua pequenez ditou aos mesmos. Ninguém se despe totalmente. As almas andam vestidas pela vergonha que as capacita de ditar verdades. Passeiam-se entre uns e outros, entre paixões que formam razões dúbias para contratos de futuros amores, totalmente crentes de verdades, que mais não passam de ilusões.

O filho que tem receio de mostrar negativas nos testes aos pais é fruto da imposição do medo. O pedófilo que olha para a criança e sente desejo dela é fruto do vazio, da discriminação que é alvo, porque não teve nenhuma alma que se despisse para o escutar. A mulher que receia contar ao marido com quem esteve ou onde esteve, porque deduz que toque na sensibilidade do marido como homem e reduz-se por isso a esconderijos. Falhas. Tudo isto não passam de falhas na alma. Nascemos grandes mas...como nos tornamos tão pequenos na arte da verdade. Alto e em bom som gritamos que haja liberdade total para todos, paz....mas redigimos contratos de apologia ao receio, à mentira, ao esconde-esconde. Não nos conhecemos, nos dignamos a ser humanos. Somos uma espécie de ser inconstantes, voláteis, descrentes na vida que trazemos em nós.
Andamos vestidos e vestidos nos apresentamos perante o outro. Cuidado....gritamos nós! Muito cuidado com o que se diz, com o que se expõe. Cuidado! Muito cuidado do que falamos e com quem falamos! Cuidado! Costumo dizer que envergonhamos Deuses, esses, dos quais somos feitos à sua imagem e semelhança. Envergonhamos porque não honramos a verdade. Envergonhamos porque sendo filhos da criação, corre no nosso sangue toda a complementaridade do universo. Somos fortes quando não achamos que o conseguiríamos ser. Ultrapassamos metas quando pensávamos que nunca as conseguiríamos ultrapassar. Vivemos guerras, escapamos a fomes, mortes. Somos abençoados muitas vezes pelas catástrofes que a nós não nos calham. E ainda assim, presunçosamente continuamos vestidos na alma e receosos de dar e receber amor.

Somos tão falhos como é usual dizer-se mas falhamos exatamente nesse ponto fulcral. Falhamos porque nos restringimos, nos ajoelhamos perante o medo. Falhos na coragem de dar significado ao sentido de ser humano. Porque corre mal o teu namoro? Porque corre mal o teu casamento? Porque és gay e sofres com isso? Porque és lésbica e te debates escondida? Porque olhas para uma mulher e escondes perante a tua parceira? Porque sais com um amigo ou amiga e guardas no baú do segredos as tuas vontades? Porque há coisas que não se dizem? Preferes alimentar uma mentira transformando-a na tua verdade? Porque sofres sabendo que esse não é o caminho? Que receio tens de despir a tua alma perante o outro? Que sentido tem andares vestida ou vestido à procura de amor quando sabes que assim só darás asas ao sofrimento? Quem és tu afinal que acordo um dia e nada sei de ti? Quem és tu afinal que te entregas em metades? Que te reduzes atrás das tuas mentiras traduzindo com isso equilíbrios falseados?

Choramos todos por amores perdidos, amizades descompensadas, sapos que engolimos e recriamos novamente defeitos em todos. Nervosos, desiludidos, ansiosos, massacrados, destituídos das verdades que desejamos, balbuciamos "Porquês?". Porquê comigo? Porquê contigo? Eu não devo dizer, não devo falar, não devo cutucar para não desestabilizar almas já por si desestabilizadas. Fazemos então questão de dignificar a apologia ao medo que de sorriso aberto deduzimos ser o passo certo para manter os equilíbrios necessários entre todos.

Personificamos a razão principal de continuarmos vestidos. E com isso continua o pedófilo, o homossexual, o filho que tem receio de falar abertamente com os pais, a mulher que receia a hecatombe do marido, a namorada que guarda segredinhos com receio da atitude do parceiro, a amiga ou amigo que jura lealdade e nas costas apunhala violentamente. Ninguém se despe de si mesmo na entrega ao outro pelo receio do vazio que possa ficar.

Filhos de um Deus menor eis o que somos. E que ainda ousamos criticar dizendo:" Eis o que me acontece e nada fazes!!"

Diz-me quem és...e eu te direi quem sou....

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

SENTA-TE COMIGO




Olá. Sê bem vinda. Por favor não te acanhes. Peço-te, trás a tua cadeira e senta-te aqui por perto comigo. Vamos falar, solucionar, entender, reaprender. Vamos falar sobre mim e sobre ti. Não tragas contigo a ideia de que quero massacrar-te com criticas, pré julgamentos ou ser o dedo inquisidor daquilo que nada sei. Não quero que te levantes. Quero que fiques. Que fiques por perto. Que sonhes comigo. Que traduzas as tuas emoções em palavras, ainda que mágoas,  que devoro como a melodia certa para os meus ouvidos. Senta-te. Vem em paz e tranquiliza-te.

Não pretendo ser descuidado na forma como te escuto. E assim livres, desprovidos da arte da nossa incompetência, nos tornamos verdadeiramente humanos. Eu sei...percebo no teu olhar as dores que carregas, a desatenção, as falhas intensas, os defeitos nunca combatidos, as revoltas ou os traumas, os anseios que não traduzes, com receio de feridas que possam abrir novas fendas em ti. Senta-te, peço-te. Descansa do ruído que é essa selva lá fora. Aguarda em vida pela morte que não chega. E ainda que chegue a este nosso recanto diz-lhe baixinho que estás ocupada a viver.

É nesta calmaria, no bater do vento em nós que recriamos sabores, trocamos odores, sentimos a paz que tanto desejamos. Não rastejes nas palavras, Não te humilhes na gritaria encetada, como forma de provar a tua razão. Hoje somos o porto de abrigo um do outro. Não há batalhas que se travem a favor ou desfavor de ninguém. Não há derrotados. Não há vitoriosos. Não há espelhos que possam reflectir a nudez de almas presas no puzzle descuidado que traçamos. Senta-te em paz e que não tenhas medo de te sentires inerte sentada. A coragem não é para aqui chamada, aqui não se pratica chantagem.

Aqui, navegas em águas calmas, fora da turbulência insensata que te corrói de forma intensa. O receio não cabe no som que as batidas do teu coração produzem. Hoje ele afasta-se do barulho intenso que escuta. Que não haja vergonha de seres como és, de me veres como sou.

Hoje...fazemos parte de nós.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

PENSEI QUE FOSSE ETERNAMENTE FELIZ




Quando olhavas para mim e fazias aquelas caras estranhas pensei que fosse para sempre. Para sempre entendes? Quando sorrias para mim e eu que me ria perdidamente , pensei que fosse um riso infinito. Infinitamente percebes? Quando chorava e pegavas em mim, sentia-me protegido e eternamente grato. Era o meu porto de abrigo. Esse amor, esse carinho, esse cuidado que pensei que seria eterno.
Não sabia que a capa da inocência seria tantas vezes rasgada, transformada, descuidada e hipotecada com o tempo. O que eu me ri pensando que o caminho da vida seria feito de eternas gargalhadas. O que eu chorei descansadamente deduzindo que estaria sempre protegido. O que tu combateste em meu nome. Em nome da proteção, em nome da coragem, em nome da manutenção do sonho de me fazer sorrir eternamente. Era o que queria, era o que tu desejavas.

Pensei que todos aqueles que sorriam, aqueles que na sua inocência deduziam a felicidade como um sonho eterno, fossem todos eles, todas elas os meus irmãos de armas. Para um mundo diferente, eternamente feliz, capacitado, inviolável face aos ataques do medo, da tristeza, da desgraça.

O que mudou nesta caminhada onde perdemos sorrisos, onde ganhamos tristezas e incertezas? O que mudou para deixarmos de acreditar, de aceitar menos, de conseguir fazer mais? O que mudou para deixarmos de insistir, pararmos para refletir? O que mudou para se amar menos, e se pecar mais? O que mudou nesta caminhada onde portos de abrigo são votados ao abandono, rasgados do seu sono, cruxificados e despojados dos seus barcos? Onde receios imperam a cada esquina? Onde a coragem se esconde a cada beco?

Desconfio das intensas falácias, promessas indevidas de amores rendilhados, destrambelhados, descuidados, despreocupados, sistematicamente insatisfeitos...

A ilustração hoje da minha alma está carregada de réstias do que fui e já não sou. Pensei que fosse eternamente feliz. Feliz na arte de ser, de me ver recheado dos sonhos sonhados, da segurança onde os mesmos descansam na paz de um sono profundo.

Hoje? Hoje sou eternamente grato...por não ser eternamente feliz. Porque no sorriso do meu nascimento....nas cabe a morte do meu sofrimento.

sábado, 10 de dezembro de 2016

A MULHER NÃO SE ENCONTROU NA VITÓRIA DA LIBERDADE...PERDEU-SE NO CAMINHO DOS VALORES




Não há como fugir à ideia de que a mulher dos dias correntes não é mais a mesma que personifica a ideia daquela mulher que era poeticamente descrita por escritores, oradores, paixões de levar às lágrimas, fosse até em musicais e formas de expressão que a elevavam de uma forma sublime à visão do valor que as mesmas retinham para si e para os outros.

Não existe uma luta de valor intenso na moralidade ou ética. Não existe um valor que corresponda à honra feita a pais ou avós. Dizem que os tempos mudaram, que estas alterações levaram à emancipação da mulher e agora sim ela é verdadeiramente livre dos seus afazeres da cozinha, filhos, roupas e afins. Entrou-se na verdade numa competição entre o " Se tu fazes, eu também tenho esse direito!"

Hoje enche-se pistas de dança, estações de rádios com musicas onde a mulher é retratada como carne para canhão. Mas elas pediram esta liberdade, elas ansiaram por esta liberdade, elas lutaram por esta liberdade. Elas deixaram de ser as supostas damas de honra, para passarem a ser retratadas como as safadas, as cachorras, as piriguetes. Passaram a deixar os filhos, responsabilidades,  com pais,  avós, tios, família, amigos e lançaram-se na sua emancipação de uma liberdade criada apenas e só para elas.

A grande questão é que uma grande maioria teve todos os valores de luta, de traumas familiares, de lutas por um pedaço de comida na mesa. De pais que gastaram fortunas deixando de parte objetivos, sonhos e mudanças para passar para os filhos a moralidade ( que é tão subjetiva...), a ética, a luta necessária para se ultrapassar dificuldades. Esta inversão de valores carrega em si falsas verdades, liberdades traduzidas em formas de se viver completamente desajustadas daquilo que por aqueles que tanto lutaram vêem invariavelmente os seus esforços deitados por terra. E ainda assim por seres que não se entendem e compreendem como igualitários na sua arte de ser e pensar.
Hoje ninguém quer ou tem o desejo intenso de lutar. Hoje as pessoas carregam a bandeira da conquista, do facilitismo. Eu quero conquistar direito de posse, de sair, de me divertir, de beijar quem quiser, de dançar onde e como quiser, de chegar tarde, de vivenciar os sabores da vida como se aprouver. A ideia da luxuria, a ideia de arranjar formas de atingir objetivos sem sujar muito as mãos passou a denominar-se como um combate de fuga a si mesmo.

Ninguém quer ser a mulher que cozinha para a família, ninguém quer ser vista à janela como algum tipo de escrava que "coitada" pendura a roupa do marido. Isso não é ser mulher. Isso era no tempo dos avós que coitadas eram umas escravas e sofriam às mãos dos malditos maridos machistas. Hoje não! Hoje dizem: " Somos diferentes, porque vivemos em mundos distintos" Não há porra de mundo distinto nenhum. O mundo continua exatamente onde ele está e como deve estar. A diferença é que há aquelas que traduzem a sua luta na sua própria valorização e aquelas que traduzem a sua valorização em luta nenhuma! É a luta pela melhor bunda, a luta pela melhor foto e mais sexy, a luta pelos seios mais avantajados, a luta por quem tem  a melhor roupa, a luta por quem consome a melhor dieta. A luta pela conquista da beleza.

Ninguém quer conquistar o direito de ser e saber ser mulher através da honra e valorização que corre no sangue da mesma com a assinatura dos seus antepassados. Isso é uma desonra para os tempos, os tais tempos que hoje são "outros".  Não! Hoje a capacidade de luta cai por terra, porque a ideia da conquista tem muito mais sabor. A conquista mais sacana, a conquista mais erótica, a conquista que oferece produtos de carne humana mais frescos para consumo intenso.  Hoje não se pergunta ao companheiro porque chega tarde a casa. Hoje pergunta-se: E Eu? Não tenho direito? Hoje não se apressam a chegar a casa com o intuito de preparar um jantar. Queres jantar? Sou tua criada? Vai ao MacDonalds. Hoje se tens uma amiga do peito...é uma injúria! E eu? Tenho esse direito também! Hoje o que personifica a liberdade é a competição da mulher desejar hierarquizar-se com o homem.

Há uma ideia de independência, de que nós homens somos os eternos machistas que consagramos a mulher ao mais baixo nível que as mesmas, não merecem e não carecem de ser remetidas a tal estatuto. Hoje e principalmente, com avanço das novas tecnologias, formas de conhecimento, liberdade de ter, fazer, possuir, desejar ardentemente, estas técnicas globais de aproximação, dão e fornecem armas para que a liberdade seja então definida como a verdadeira arma de luta e glória para um mundo que já fazia falta há muito tempo. Até nos tempo dos nossos avós! Ahhh se eles tivessem o acesso que nós temos hoje, seria verdadeira loucura!! Mentirosos! Acreditem que existe uma coisa que ainda que existindo no tempo dos nossos avós, eles manteriam: Respeito! Bem vindos à liberdade! Dizemos com um sorriso de orelha a orelha hoje em dia! Diria talvez a minha avó: Bem vindos à falta de respeito...e aplausos para a Putaria.

Porque na verdade é exatamente e também esses avanços tecnológicos, essa emancipação sem valor agregado, que permitiu não apenas a independência para uma liberdade sonhada,  como uma "prostituição" global adornada por conversas de "Falhas sistemáticas de amor..." como também a ideia inválida nos dia que correm de um casal, de remar para o mesmo porto de abrigo, da luta a dois perante os obstáculos da vida...se perdeu invariavelmente. E perde-se, porque os gritos, os desejos de liberdade, o viver o quanto antes da melhor forma possível e menos dramática, o saborear das iguarias espalhadas em tantos portos de abrigo, tomou outras proporções.

O que se inverteu não foi a conquista da liberdade em muitos casos. A liberdade é apenas a ponta do iceberg. A liberdade é apenas usada como justificativa da falta de responsabilidade. Hoje não se quer saber se são rotuladas, se são descaracterizadas, se são desclassificadas. "Foda-se para isso, quero é viver" - Dizem!

O fato é que esta liberdade não só potencia a ideia ardente de mais e mais, como cria e intensifica dores, traições, feridas intensas e questões como " Porquê??" Eu acho que a resposta é óbvia!

É preciso mulheres fortes, destemidas, corajosas, intensas, amorosas, guerreiras que fortifiquem a ideia de que os valores de outrora são valores honrados, valorizados. Não há aqui nenhum tipo de machismo ou extremismo da ideia de que a mulher nada pode ou nada deve. Pelo contrário! A mulher, tudo pode, tudo deve.  Porque é essa exatamente a razão da liberdade. Liberdade com amor, liberdade com dever de luta, liberdade com dever de conquista. Liberdade com dever de honra. Liberdade com respeito, liberdade com sentido de dever. liberdade com afetos!

A esta ideia que a "Desgraçada" da mulher sempre foi o parente pobre do mundo. Não! Antigamente o homem ia para as guerras, eram esquartejados, presos, torturados, mortos em combate. Faziam grande parte do trabalho pesado.  Antigamente a ideia da mulher ficar em casa a cuidar do seu homem não era uma questão de ser visto como muitas vêem hoje como o elementar artigo da desgraça. Era uma honra, o valor que elas davam ao homem com quem estavam. Porque elas sabiam da sua luta, sabiam das suas dores, bebiam das suas desgraças. E estavam maioritariamente ali por amor aos seus. E se sofriam? Claro muitas sofreram às mãos de homens machistas e insensíveis. Muitas amaram? Claro! Muitas amaram cuidar da casa, dos filhos, do maridos, dos seus amores. E hoje ainda muitas sabem exatamente como o fazer e de que forma o fazer. Porque tem essa capacidade de luta intrínseca em si mesmas, de intensidade de responsabilidade. Do não ao facilitismo.

Não quero tornar de forma nenhuma a ideia de que a mulher é a nova vilã dos novos tempos. Não quero determinar para mim moralidades das quais eu me abstenho, porque sou falho como homem também. Não quero içar a bandeira da não existência de pressupostos que validem tanto aqueles  e aquelas que lutam por um amor sentido e desejado, que existe, que os há, que enobrecem pela sua seriedade e responsabilidade e ainda assim vivem em plena liberdade.

E a mulher essa....não se encontrou na vitória da liberdade...perdeu-se apenas no caminho dos seus valores...

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

NÃO CALES O CORAÇÃO COM A AMBIÇÃO DA SOLIDÃO





Uma única coisa é necessária: A solidão. A grande solidão interior. Ir dentro de si e não encontrar ninguém durante horas, é a isso que é preciso chegar. Estar só, como a criança está só. - Rainer Maria Rilke

Ontem passeei pela multidão. Pelas faces encantadas da vida, pelos desencantados encontrados em cada esquina. Passeei por sorrisos abertos de fácil sedução e por rostos fechados de vidas madrastas. Queria eu que a vida fosse um grande eclipse de alegria, onde as dores não pudessem morar nestes cantos e recantos de sonhos perdidos e vidas vazias.

Encontrei todos os sorrisos silenciosos
, todas as lágrimas que não vi, todas as faces que não toquei, multidões de pessoas simplesmente paradas na berma da estrada. Como se me acenassem numa alegria invisível, sentida, onde me diziam: " Eu estou aqui meu amigo...". Elas, absortas com a sua vida, num mundo só seu, onde a preservação, manutenção dos seus sonhos e caminhos são imprescindíveis seguiam então calmamente no seu caminho. Cegas pela mesma cegueira de dores e traumas que outrora as desfizeram, marcaram...acentuaram a sua cegueira interior. Silêncio...

Olhando em redor sussurrava a todos: " Não me deixem aqui...não partam sem mim, quero beber dessa alegria, quero sentir desses momentos". Grito neste intenso vazio de solidão que nos incapacita de sorrisos, de fogo intenso que nos corra nas veias. De vida sentida...e então finjo. Silêncio...

Finjo que me junto à multidão entre abraços, entre sorrisos onde não sou bem vindo, mas que quero ter como meus. Finjo ser parte integrante de constelações de estrelas onde a minha, ainda que solitária tenha a capacidade de brilhar. Silêncio....

Quero partilhar a dor, para que chore menos. Quero partilhar as feridas, para que o meu grito de dor seja, amansado pelos abraços sentidos. Quero distribuir lágrimas para que não me deixem ir ao fundo sozinho. Salvem-me do meu poço fundo, peço eu à multidão. Quero viver nos braços de um Deus que nunca vi? A que chamam de Pai? Onde paira? Onde guardo a minha fé? Onde deposito a minha esperança? Onde agarro o meu paraíso? Onde está o anjo salvador? Que asas me me recolhem na sua paz? Quem me ouve? Silêncio...

Quem se distingue entre a multidão? Quem me resgata com o seu amor deste meu mundo negro, insensato e volátil? Quem me ouve? Quem me quer? Quem me deseja vivo? Quem se preocupa? Quem me limpa as lágrimas das vidas perdidas, de amores deixados, de guerras trocadas? Quem me agarra na mão e confessa a minha verdade? Quem me açoita com as suas mentiras e me crava de dores na minha inocência? Quem se aproxima sem que voe para longe deste meu destino? Quem me trás o conforto que que em vão procuro? Quem me tira da solidão ou quem a intensifica querendo brilhar às custas da minha dor?  Silêncio...
Procurei então deixar que a multidão seguisse o seu caminho. Sem memórias, sem ajudas, sem peças de puzzle, sem encaixes da vida. Nada...nada...fazia sentido. Que procurava eu? Quem procurava eu? Que humilhação era esta por migalhas de amor? Sofrer pela falta de amor, rodeado de sortidos de amor, reflexos do ontem, desafios vazios do amanhã.  Amor perdido, não tido. Amores rascas, indecisos, fracos, insensíveis, voláteis, imprecisos. Silêncio...

Feridas rasgadas, sonhos desfeitos, lágrimas intensas, dores penetrantes. Defeitos nunca desfeitos, almas sem garra, vozes sem ecos. Que melodia o coração pode tocar para que se possa ouvir, para que me possa ouvir? Que inicio sem fim se procura ter? Quem na multidão ouve as tentativas do que me vai na alma? Quem me diz sim em vez de não? Tu que deverias ouvir, ler, saber, escutar, sentir, mover montanhas para que a salvação venha por fim, nunca por ti, nunca por mim...por nós! Silêncio...

Silêncio...porque quero que o meu amor viva. Viva enfim...por fim. Viva dos afetos das minhas dores, da vigilância do meu olhar, do fino sabor da melodia que canto, do sentido que sou. Silêncio pela morte que em mim carrego, pela vida que em mim transporto. Silêncio pelo réstia de pó que sou, pela imagem esbatida que fui. Silêncio pela solidão que escuto, pelos pedaços que refaço, pela escultura que construo de novo, pela estrutura que completo num puzzle de memórias sentidas.

Silêncio...eis que morri na ambição da solidão......eis que vivo no bater doe um novo coração... eis que vivo...por fim...sem fim...por mim....




terça-feira, 6 de dezembro de 2016

PENIS IS THE ONLY TRUE BRAIN?



Sempre se ouviu dizer que os homens pensam com duas cabeças. Naturalmente que não é mais do que uma mentira criada para baralhar as mentes femininas e com isso deduzir-se que somos alguma espécie de extra terrestres com poderes extra-sensoriais.
Mas de um modo geral os homens apesar dos bonzinhos, dos fofinhos, dos amiguinhos, dos queridos, os melhores amigos que estendem o ombro para chorar, para ouvir ou falar...existe sempre naquele que se mostra tão sorridente, querido, fresco e fofo um potencial serial killer de ratas. Ela nada te diz, mas sussurra entre dentes as vontades que da boca não saem.

E desculpem a expressão. Mas entre buceta, rata, xana, cona, vagina, deusa,  órgão sexual feminino...ou coisinha fofa no meio das pernas ( na verdade no meio das pernas ficam os joelhos...mas ok....) prefiro chamar de rata. Rata tem uma conotação de certa forma querida. A ratinha é esposa do ratinho e os dois são peludos (a não ser que em conjunto tenham feito alguma lipoaspiração de pêlos). Sempre dá uma sensação de memorial de banda desenhada dos tempos da pantera cor de rosa ( se bem que a pantera cor de rosa era toda depilada e rosa choque) e outros. Vasco Granja, de certo que lhe chamaria rata sem problema nenhum. Se acharem que ficam susceptíveis as minhas sinceras desculpas...

Os homens tem dois tipos de intencionalidade. Conhecer de forma a ativar a potencial química e química para ativar a necessidade de foder. Não vejam este "foder" como uma descrença na atitude e resultado de uma gramática fraca da língua portuguesa que eleva o calão à expressão máxima de patriotismo nacional. Mas o pénis não se coaduna com emoções amorosas e palavreado sentido que reforce a matriz do amor.

Sempre que te interessas ou vês alguma mulher que te faça perder os "sentidos" momentaneamente de um lado pensas: "Caramba...tão boa..." E este "Tão boa..." é apenas o prenúncio que valida a vontade e a necessidade de mostrares que és homem. Na verdade quase todos nós somos um bando de fingidos que se escondem por entre olhares ternos e palavras tantas vezes oucas...e moucas. O cérebro transforma-te num lobo em pele de cordeiro. O pénis não! No pénis não há resíduos de mentiras ou omissões. Não há feridas da "alma". Ele é nú e cru na sua verdade e essência.

Quando deduzes olhando para alguma mulher do teu gosto e pensando alto para ti: "Tão boa" não estás propriamente a ativar a necessidade de irem de mão dada escolher roupa num centro comercial. Tu expressas o "tão boa", porque na verdade dizendo isto alto e em bom som aos ouvidos daquela por quem tu expressas essa "tira" de palavreado, se a mesma ouvisse e pudesse responder " Sim, sou, queres provar?" não ias com toda a certeza dizer: "Estás parva!? Sou um individuo de respeito! E além disso a minha mãe está a chegar...".

Portanto e ainda que não sejamos totalmente condicionados pelos desejos do pénis, os pólos ligados no cérebro principal difundem sempre para o cérebro de baixo as coordenadas a ter em caso de conquista. É como se estivessem sempre interligados, mas a última palavra que te invade incessantemente é sempre : "Kill the pussy...be a man!"...

Há sempre o intuito claro ainda que muitas vezes encapotado de garantir para ti o prémio principal que contempla em ti a garantia de que, tens a capacidade de prostar aquela mulher aos teus pés. E o que valida a tua auto estima passa pela tua inteligência na forma de conquista e a garantia de que, o teu pénis deixará a marca necessária para que nenhum outro possa ter a oportunidade de fazer melhor do que tu. É a velha história do príncipe num cavalo branco, só que na verdade este príncipe anda direito sob duas rodas sempre com aquele ar lunático de: " Hoje tem?"

O que comanda a necessidade e o desejo intenso de ter, possuir,  é a forma como olhas, tocas, beijas a forma como deixas a tua marca, a forma como tens "pegada". Não é a forma como lês, como fazes a critica de um filme ou livro de forma sublime, os aplausos que ecoam de plateias. Vais garantir brilho, vais garantir elogios, mas quando chegar a hora e ousares dizer: " Ahh...isso não...porque posso deslocar-te a bacia"...então já foste!

Já Freud dizia que tudo na verdade se resumia a sexo. Tudo o resto, são tretas. Os livros, o cinema, os jantares, os almoços, os lanchinhos, as prendinhas, os amigos do peito, o ombro fofo, as musicas, as almas gémeas, os horóscopos tão idênticos que batem um com o outro, são apenas formas de ludibriar a verdadeira intencionalidade de um pénis ávido de mostrar a razão à mulher o desejo de se fazer ouvir como o principal ator: " Say it! Who is your man?"

O pénis na verdade é um desgraçado que sofre intensamente,  que tem de levar com as tretas do: " És tão querido...", " És o meu amigo do peito", " Será que gostas de mim, como gosto de ti?" " Não sei...tenho medo...vamos dar algum tempo". "Não te conheço bem...é melhor irmos devagar". Tenho a sensação que nessas alturas de desespero o mesmo olha para nós e diz: " Não dá para ela se agarrar a mim e consolar-se? És sempre tu que és o querido e fofo não é?" - O pior inimigo da mulher é a carência...a mesma...que é a melhor amiga do pénis. Os dois são uns falsos, porque vivem de ilusões.

Diriam vocês meninas que estão desse lado: Isso não é verdade! Há tempos para tudo. Há pessoas que nos dão atenção, que partilhamos musicas, livros, momentos, conversas, tertúlias fantásticas, discussões filosóficas e afins. Certo, direi eu!

Com toda a certeza...maioritariamente os homens são uns mentirosos...e o único que tem a coragem de mostrar a sua verdadeira faceta, que está sempre pronto nas alturas mais inusitadas, é aquele que firme e hirto iça da sua bandeira faça sol ou faça chuva e reflete a verdade sem floreados perante os lobos em pele de cordeiro dizendo:

"Não tenho nada a ver com as vossas merdas...estou aqui para trabalhar!"

Nota: Qualquer dia ainda me fazem uma espera...estou sempre a deitar os podres cá para fora da minha classe...




segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

CHAPECOENSE - AS VITIMAS DA GANÂNCIA




A história trágica de um passado ainda recente trás à memória os desastres de avião que vitimaram equipas de futebol. Casos como Torino, Manchester United e agora mais recentemente a equipa do Chapecoense, são os casos mediáticos mais conhecidos no mundo do futebol, não sendo os únicos que vitimaram não só as pessoas que viajavam, mas como as suas famílias.

Mas o caso da equipa brasileira de Santa Catarina, conhecida como Chapecoense, eleva-nos a um outro patamar que foge ao denominado desastre de consequências trágicas a todos os níveis e retira de nós não apenas a ideia da tragédia em si, já por si só marcante, mas a forma absurda como esta mesma aconteceu.

Desgraçadamente o mundo está minado pelo capitalismo, pelo desejo intenso de possuir a todo o custo os prazeres que se nos apresentam em todos os cantos e recantos. Há uma simbiose de humanização perversa na arte do roubo, na arte da maleficência, na postura que cada um tem para si e que encarnam entre uns e outros como se de uma festa da vida se tratasse. Iludidos pela conquista fácil, favorecem a sua denominada honra, desonrando quem deles tudo espera e acreditam e nada conquistam.

Esta onda energúme de cegueira pela conquista do poder, do desejo de fazer prevalecer empresas, postos de trabalho, enriquecimento ilícito, esta visão do: "Trabalhe o mais que puder, pagamos o menos possível",  fez com que se brincasse ao carros de fórmula 1 que param de vez em vez na Pit Stop para abastecer mas,  no caso em concreto...não havia posto de gasolina e no céu não existem estradas e motéis para um descanso merecido.

Foram enganados, trapaceados pelo poder económico. Enganados pela empresa aérea que confiaram as suas vidas, as suas famílias, os seus sonhos e objetivos. Enganados pelos sorrisos, batidas nas costas. Pela força da ganância, do desejo de poder, de mais uns trocos, de mais umas notas, de menos gasolina, porque urge a todo o custo cortar nos gastos das empresas. É a crise! É a crise que leva à morte. Leva aqueles que não mais se podem defender.  Que não mais podem sonhar.

Que não mais podem erguer os seus punhos com V de vitória. É a crise...é a crise que coloca no ar vidas, famílias e se dá restos de esperanças com viva esperança que os mesmos cheguem a bom porto e que com isso se possa ir jantar tranquilamente fora, comprar uns terrenos, umas prendas para a família, pagar a escola privada de algum filho, porque se poupou conforme estipulado na....gasolina...

Esta sociedade cada vez mais descaracterizada, cada vez mais centrada no seu eu, no seu próprio enriquecimento é a sociedade das gentes vazias. Gentes que roubam alegria, que roubam virtudes, que votam ao esquecimento sonhos. É a sociedade do "Deixa andar...", sociedade inglória feita de gentes sem glória. Sociedade de "cara de pau" que com coragem de leão ainda se digna a dizer " Não sabia...", " Não tive culpa..."
Mas ao longe ainda se pode ouvir os murmúrios que pairam no ar, a alegria estampada em cada rosto, o sorriso de vitórias incontestáveis, os abraços de amizade que perduram e haja alguém que diga....

"A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar."




sábado, 3 de dezembro de 2016

BARCO DE PAPEL



Se fechares os teus olhos...e apenas por momentos, de que te lembras tu? Não tenhas vergonha de me dizer. Eu sei...há coisas que não nos queremos lembrar, há tristezas que não queremos sentir, há amores que não queremos reviver. Não tenhas medo, estou perto de ti. Não caminhas sozinha. Se fechares os olhos, de que te lembras tu? Tu que viveste vidas que mais ninguém viveu. Tu que sofreste revezes que mais ninguém sofreu. De que te lembras tu? Abre os teus olhos...e lembra-te da força que te fez trazer da imensidão dessa tempestade até aqui.

Tu que andaste perdida pelos caminhos. Que em surdina choras-te todas as lágrimas que mais ninguém ousou chorar por ti...diz-me...de que te lembras tu? Que memória carregas que ainda em vida a suportas tão fortemente? Que barco de papel em tempestades intensas, conseguiste tu manter a flutuar até chegar ao teu porto de abrigo?

Eu sei...não tenhas medo, ninguém te fará mal. Jamais alguém te fez mal! Rasgaram-te, abriram-te feridas, ousaram fazer de ti uma marionete de sofrimentos, de descaso de amor, de ignorância mantidas, de tristezas esquecidas, mantidas, carregadas.  Eu sou parte da tua desgraça e parte da tua alegria. Eu sou parte do que choras e parte do que ris. Sou metade da música que escreves e metade da música que cantes no teu silêncio.Não tenhas medo...conheço o teu refrão! A  quem clamaste tu, que não te podia mais responder? Por quem chamaste tu nas tuas horas de agonia que não te podia socorrer? Que lágrimas ninguém te limpou e quem de ti roubou sorrisos?
Eu sei que...não tenhas medo...eu sei que que o abraço que suplicavas, não chegava nunca. Para onde teria ido essa força de carinho, de vontade que tanto necessitavas? O que é feito dos teus afetos, dos que se foram, dos que nunca quiseram ficar? O que é feito daqueles que confiavas e que te deixaram prostrada ao abismo? O que é feito das feridas que ninguém ousou curou em ti? O que é feito dos punhais cravados com egoísmo, desdém em ti? O que é feito do teu sorriso perdido? Das vidas quebradas, lançadas com o tempo no ninho da desgraça? O que é feito do ente querido que te socorria e apenas nele confiavas? O que é feito de da frase " Está tudo bem, esto aqui" e apenas te deparas-te com a solidão? Que fim te deram? Que marca de "Não necessária" te marcaram? Quem invalidou a tua vida na vida? Quem te virou as costas e as deixou marcadas com rasgos de sangue? Quem não teve coragem de se perder em ti e por ti? Quem estendeste a mão e tiveste como resposta um silêncio absurdo? Quem se riu de ti no teu choro?

O que é feito do sorriso de um pai? De um amor de uma mãe? De um filho que se foi? De um amigo não tido ou esquecido? Nesse teu barco de papel que tantas tempestades passou, que tantas ofensas sofreu, que tanta vidas já viveu, o que é feito do comandante mais importante desse teu barco?

Tu que viveste na escuridão, onde não existiam faróis que guiassem esse teu barco, de que te lembras tu? Se fechares os teus olhos, que são os meus olhos também, de que te lembras tu? Eu lembro-me...dessa visão plantada em mim e em ti. Não tenhas medo de abrir os teus olhos...partilho da tua dor. Ela não te pertence apenas a ti.

Sabes....somos feitos do mesmo barco, somos comandantes das mesmas desgraças, tristezas. Somos filhos injuriados, humilhados. Somos o silêncio que nos cobre por entre sorrisos. Somos parte do sofrimento, parte do esquecimento, somos parte da descoberta do que tivemos, do que perdemos, de quem amamos, de quem nos amou. Somos parte de quem esquecemos, de quem nos esqueceu. Não tenhas medo...de te lembrares.

Não tenhas medo de te reerguer em vida e para a vida. Não tenhas perdão pela morte, ela não merece o teu olhar distante. Tu que a olhaste de frente tantas vezes, enquanto outros fugiam de cobardia. Tu que foste marcada enquanto outros se escondiam. Tu que choraste humanamente enquanto outros se riam e dançavam à chuva, não tenhas medo! Reergue-te como o tens feito! Assume como sempre assumiste os comandos desse teu barco!  Não tenhas medo pelo teu futuro. Ele ainda não aconteceu. Não temas pelo teu passado...ele já se foi. Lembra-te...quando fechas os olhos e revês todos os revezes da tua vida, lembra-te...no teu barquinho, tantas vezes feito de papel, ele é fruto da força com que o construíste.

E que essa força do aproximar da morte em nós...seja o som de vida que pulsa em mim.