O PERDÃO




(...)HÁ UMA CERTO SABOR A MALDADE QUE INSTRUÍDA POR NÓS MESMOS, FAZ COM QUE POSSAMOS CONSTRUIR GAVETAS INTERIORES RECHEADAS DE MÁGOAS E LEMBRANÇAS, QUE EFETIVEM A NOSSA DOR EM CADA CANTO E RECANTO, EM CADA FACE QUE VEMOS, EM CADA ESQUINA QUE DOBRAMOS.(...)

(...)FINGIMOS QUE ANDAMOS PARA A FRENTE. FINGIMOS QUE SORRIMOS, FINGIMOS QUE MUDAMOS. FINGIMOS QUE TUDO FINALMENTE ESTÁ DIFERENTE. FINGIMOS QUE VIVEMOS E ESQUECEMOS ASSIM…QUEM SOMOS. (...)
O PERDÃO
O perdão sempre foi e sempre será, um ato de enorme coragem perante adversidades que possam surgir em algum momento na nossa vida. Perdoar um pai, mãe, amiga, namorada, mulher, um chefe, um colega ou até um simples conhecido requer uma destreza emocional fortificada e desbloqueada de sensações de ódios ou raivas.
Perdoar nunca foi e nunca será fácil. Fácil é desculpabilizar aqui e ali meros acontecimentos que não deixem mágoas ou feridas abertas. O perdão é muito mais denso, muito mais negro, muito mais complicado e carrega em si a presunção muitas vezes de ser uma eterna vitima.
O problema do perdão reside no fato de nos consumirmos de todas as dores, de todos os porquês de inviabilizar a cura para um estado emocional e novos caminhos que nos façam voltar a sentir a vivacidade que possamos ter perdido.
Não é fácil. Seja através de consultas em psicólogos, seja através de yoga, seja através da fé, da construção de ideias positivas, de nos cercarmos de amigos que nos permitam poder andar para a frente com um sorriso que não seja amarelado…a lembrança do mal é o estado de espirito eterno que cospe fogo em todos os momentos e movimentos.
É preciso coragem para perdoar muitas vezes o que deduzimos como imperdoável. É preciso humildade para perceber, que ao fornecer o perdão, estamos a reconhecermo-nos também como seres errantes e deficitários que somos em tantos momentos.
Mas este é um reconhecimento meramente casual, passageiro e desnecessário aos nossos olhos. Somos altamente moralistas e justiceiros no que toca ao que fazemos, sentimos, damos, angariamos, lutamos e consagramos. Quando de contrário o mesmo não acontece e somos invadidos pela espada da injustiça, clamamos pelo porquê? Porquê eu, que tanto fiz? Porquê eu que mostrei o melhor de mim, dei o melhor de mim e tive o pior de ti? Como se equilibra o estado de espírito?
Como se equilibra a balança entre o que eu sou e o que o outro me possa ter tirado? Quem é o vencedor nesta luta? Quem enche a barriga e quem fica de barriga vazia? Quem sorri mais e quem verte lágrimas, por não ter conseguido acompanhar o sorriso? Quem é o causador, fornecedor, angariador de uma felicidade para si, em detrimento do outro?
A injustiça é a chave fulcral de todo o desenvolvimento emocional que leva à raiva, ao ódio, ao desprezo e ao sentido que damos ao tipo de justiça que não sendo feito por altas patentes do divino, possa ser feita então por nós. Porque nos achamos no direito de não ser espezinhados, destruídos, sacrificados para a ostentação da liberdade e sorrisos de outros. Por isso nos insurgimos, por isso cativamos a dor, aumentamos o volume da lembrança, para que ela se faça presente. Não perdoar é clamar ao sofrimento é dizer não ao esquecimento.
Há uma certo sabor a maldade que instruída por nós mesmos faz com que possamos construir gavetas interiores recheadas de mágoas e lembranças que efetivem a nossa dor em cada canto e recanto, em cada face que vemos, em cada esquina que dobramos.
A dificuldade do perdão prende-se com a ideia de que não somos merecedores, mas acima de tudo, por nos capacitarmos de uma verdade que nos assegura a nossa conclusão: Somos melhores.
Mas é exatamente no fomos melhores e somos melhores que falhamos. Porque constatamos a falha do outro, mas não efetivamos a melhoria em nós. O ato de negar o perdão é a destituição do próprio valor emocional que nos incapacita, que nos cega, que nos bloqueia.
Fingimos que andamos para a frente. Fingimos que sorrimos, fingimos que mudamos. Fingimos que tudo finalmente está diferente. Fingimos que vivemos. E esquecemos assim...quem somos.
Validar o perdão como forma de andar para a frente é deixar as gavetas vazias. Há um sadomasoquismo com sabor a injustiça que teimamos em manter nas nossas lutas interiores. Muitas vezes aqueles que se foram, aqueles que outrora te deixaram recheado de dores e feridas, vivem ainda em constante luta interior contigo. Porque tu teimas em deixar essas mesmas gavetas recheadas de lembranças.
Não existe cura para o esquecimento. Não existe uma cura específica, um passo de mágica para te retirar as dores ou feridas. O esquecimento ausenta-se de vez em vez, mas a lembrança ativa as tuas gavetas.
Não é o perdão que clama por mudança. É a mudança que necessita do teu perdão

Comentários

Claudia Dias disse…
"Desculpar ou perdoar
Aparentemente são dois verbos de significado idêntico ou pelo menos utilizados com o mesmo propósito. Mas, na realidade, representam atitudes diferentes e reflectem o sentido profundo das relações humanas.
Desculpas são também justificações, para não fazer ou faltar a um compromisso. O povo costuma dizer que há desculpas esfarrapadas, pouco consistentes, que escondem as verdadeiras razões.
Desculpa, como a própria etimologia revela, é um pedido de reparação, uma “borracha” que se procura passar por cima de uma qualquer situação e, assim, ilibar alguém da “culpa” ou do “erro” cometido. Mas, quem passa a vida a pedir desculpa dificilmente muda de comportamento, apenas vai usando o corrector numa vida repleta de erros.
O perdão é bem diferente, porque não repara, renova. Não elimina as aparências, mas restabelece a ligação entre as pessoas. Perdoar significa “para dar”, ou melhor, devolver o amor entretanto perdido e recuperar uma ligação afectiva que se rompeu devido a uma ofensa, uma traição ou até um mal-entendido.
Perdoar é intenso e profundo. É íntimo e espiritual. O perdão não desculpa, nem esquece, mas também não recupera os erros do passado, para os devolver. Quem perdoa liberta o outro e liberta dentro de si o amor, entretanto contido, escondido e quantas vezes magoado. Um peso que alguns carregam durante anos, por orgulho, raiva e incapacidade de abrir as comportas do coração. Perdoar é abrir caminho para o amor e reconciliar-se com o outro."

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